Um total de 148 espécies diferentes de aves foram observadas por centenas de pessoas que acorreram a Sagres para a 16ª edição do Festival de Observação de Aves, de 2 a 5 de outubro. Um dos pontos altos do evento foi a libertação de um milhafre que tinha colidido contra a janela de um hotel.
A organização do festival destaca como espécies mais “interessantes” entre as 148 observadas o borrelho-ruivo (Eudromias morinellus), migrador de passagem; a sombria (Emberiza hortulana); o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), espécie Em Perigo em Portugal; a pardela-preta (Ardenna grisea), outro migrador de passagem; o sisão (Tetrax tetrax), espécie Criticamente Em Perigo em Portugal; e o bútio-vespeiro-ocidental (Pernis apivorus).
Ao longo dos quatro dias de festival acorreram à vila algarvia de Sagres, situada na ponta sudoeste do Algarve, um total de 1244 pessoas de todas as idades, de 34 nacionalidades.

Havia 275 atividades para escolher, desde saídas de barco para ver aves marinhas ou cetáceos, a passeios naturalistas, saídas para observar aves e workshops. Ainda assim, algumas das ações previstas para o fim-de-semana, como as sessões de anilhagem de domingo, tiveram de ser canceladas devido ao vento forte que se fez sentir no fim-de-semana.
Um dos pontos altos do festival costuma ser a libertação de uma ave selvagem no último dia, recuperada no RIAS – Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens, localizado em Olhão, em plena Ria Formosa.
Este domingo, dia 5, pelas 12h00, várias dezenas de pessoas juntaram-se num local próximo da estrada que liga Sagres ao cabo de São Vicente, para assistirem à libertação de um milhafre-preto (Milvus migrans) muito especial, mas o segredo sobre a espécie que iria ser devolvida à natureza – e a história dessa ave – só foi desvendado no próprio local pela equipa do RIAS.
Este milhafre-preto, contaram então, tinha voado contra a janela de um hotel de Sagres. A pessoa que o encontrou, a 31 de agosto, contactou o RIAS, mas não tinha forma de o levar a Olhão. Então chamou um Uber e enviou o milhafre dentro de uma caixa até àquele centro de recuperação de fauna selvagem, onde a ave pode então recuperar até estar apta a voltar à natureza. Este milhafre chegou ao destino um pouco fraco e debilitado, mas sem lesões da colisão.
Apesar de a forma correta de proceder é contactar sempre as autoridades responsáveis, como o Sepna (Serviço de protecção da natureza da GNR), para levar os animais selvagens até aos centros de recuperação, nem sempre tal é possível. Nestes casos, a prioridade será tentar salvar o animal ferido ou a precisar de ajuda.
À procura das gralhas-de-bico-vermelho
No dia anterior, o ornitólogo Simon Wates guiou uma das dezenas de atividades do dia. Ao início da tarde de sábado levou um grupo de pessoas à procura de uma das suas espécies “preferidas”, a gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax).

Esta é uma espécie com estatuto Vulnerável em Portugal e são já raros os bandos desta ave de bico e patas vermelhas e corpo preto. Simon Wates e Tiago Caldeira trabalham no concelho de Vila do Bispo para tentar conhecer melhor quantas destas gralhas ali existem e por onde andam, assim como outras aves que dependem das pastagens tradicionais da região. É o projeto Aves dos Pastores, cuja primeira fase está a terminar.
Os guias, com os seus telescópios, mostraram um local onde as aves se estavam a alimentar de pequenos invertebrados que procuram no solo, e depois um dos dormitórios da espécie em Sagres, nas arribas voltadas para o mar.

O momento em que as gralhas ali chegam é um espectáculo do mundo natural. “Estas aves brincam com o vento. Olhem só, estão a brincar e a apanhar um pouco de Sol antes de se abrigarem para passar a noite!”, explicou Simon Wates aos participantes que o acompanhavam, e que tinham aguardado pela chegada destas aves no cimo das arribas perto do Forte do Beliche, onde esteve sediado o secretariado do Festival.


Ao longo dos quatro dias do evento, juntam-se velhos conhecidos de outros festivais de natureza, criam-se parcerias e iniciativas em conjunto, trocam-se experiências e histórias entre pessoas com fascínios semelhantes. Há quem mostre e troque fotografias das espécies observadas por aqueles dias e aproveite para tirar dúvidas de identificação. Alguns falam outras línguas, com predomínio para o inglês, mas não só. Por exemplo, Ysaline Villeneuve é uma estudante francesa de veterinária que tirou dois meses para seguir a migração outonal das aves, desde França, passando por Espanha e acabando em Sagres, aqui acompanhada por uma amiga portuguesa que estuda também veterinária.
No último dia, movidos pela curiosidade e vontade de aprender, alguns visitantes juntam-se a um workshop na Pousada de Sagres para aprender os primeiros passos de observação das aves. Munidos de binóculos – próprios ou emprestados – e guiados por Marcelo Dias e Sónia Cruz, observam o relvado e identificam alvéolas-brancas (Motacilla alba), aspirantes a papa-moscas que afinal eram pardais, perscrutam o céu e descobrem uma fêmea de falcão-peneireiro (Falco tinnunculus), observam um ganso-patola (Morus bassanus, também conhecido por alcatraz) que mergulha em voo picado para o mar, em busca de alimento.
Ao longo de todo o fim-de-semana, o vento soprou forte arrastando consigo folhas de papel e chapéus, transformou o calor algarvio em temperaturas de outono e enregelou quem pensava que lhe bastaria uma t-shirt. Só a chuva não compareceu.
Mas apesar dos rigores do clima, ninguém arredou pé do festival, que prosseguiu animado em busca do melro-azul (Monticola solitarius), das gralhas-de-bico-vermelho, dos grifos (Gyps fulvus) que por estes dias por ali passam em migração e de muitas outras aves, plantas e insetos.

Finalmente, o final de domingo foi chegando, começaram os regressos e as despedidas, muitos já com saudades mas enriquecidos por novas amizades, experiências e ideias. Para o ano haverá mais.