Perante os incêndios das últimas semanas, a associação GEOTA apela a uma mudança profunda na gestão da floresta e mostra os resultados de projetos na serra de Monchique, Serra da Estrela e Pinhal de Leiria.
Só nas últimas semanas terão ardido mais 50 000 hectares em Portugal, com incêndios de grandes dimensões – com áreas ardidas superiores a 100 hectares – em Arouca, Penamacor e no Parque Nacional da Peneda-Gerês.
“Estes incêndios, além de afetarem comunidades locais, causam perdas irreparáveis a ecossistemas sensíveis, comprometendo a biodiversidade, a qualidade do solo e o ciclo da água”, escreve hoje o GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e do Ambiente) em comunicado.
Perante esta realidade, a associação defende “uma mudança profunda na forma como se gere o território e a floresta” e um modelo de gestão florestal com espécies autóctones, ecologicamente adaptadas ao território, como o carvalho, sobreiro, medronheiro, castanheiro, pinheiro-bravo e outras espécies nativas. “Esta opção permite restaurar a biodiversidade, conservar o solo, regular os ciclos hídricos e aumentar a resiliência às alterações climáticas, ao mesmo tempo que reduz o risco estrutural de incêndio.”
O GEOTA tem vindo a trabalhar lado a lado com proprietários, comunidades locais e instituições públicas para mudar a paisagem, no âmbito dos projetos Renature, dinamizados pelo GEOTA.
Até ao momento, os três projetos em curso totalizam mais de 1,8 milhões de árvores plantadas, cerca de 3.000 hectares intervencionados e a participação ativa de mais de 700 proprietários e comunidades.
“Estamos diariamente a apoiar as comunidades afetadas e a recuperar o valor ecológico e económico das paisagens que foram devastadas pelos incêndios”, disse Miguel Jerónimo, coordenador dos projetos Renature.
Os territórios afetados pelos incêndios enfrentam uma degradação acelerada dos solos e dos ecossistemas e o impacto das alterações climáticas, fatores agravados pela ausência de gestão ativa da paisagem.
“Na serra de Monchique, temos vindo a observar sinais claros de desertificação nas zonas de menor altitude, especialmente em áreas com solos xistosos. As alterações climáticas estão a modificar as condições ecológicas da serra, forçando algumas espécies autóctones a procurar outros locais para sobreviver”, acrescentou.
Por exemplo, “o sobreiro e o medronheiro tendem agora a estabelecer-se em altitudes mais elevadas e o castanheiro em encostas mais húmidas. Esta mudança torna ainda mais crucial a fase de planeamento, sobretudo na escolha adequada das espécies, nas técnicas de preparação do solo e na calendarização das intervenções no terreno”.
É com este princípio que os projetos Renature estão a intervir na serra de Monchique, serra da Estrela e no Pinhal de Leiria.
A associação lembrou que estes projetos seguem uma metodologia estruturada e replicável, assente no envolvimento direto de proprietários e comunidades locais, na reflorestação com espécies autóctones, na atuação de equipas técnicas especializadas e no recurso a materiais contratados localmente. Contam ainda com parcerias com instituições públicas e são financiados por investimento privado.
Durante a época de plantações, entre novembro e fevereiro, o GEOTA promove ações de voluntariado ambiental com as comunidades, escolas e empresas, fomentando o envolvimento ativo da sociedade na recuperação das paisagens.
José Nascimento é proprietário na serra de Monchique. “Antes do incêndio de 2018, o terreno era ocupado por eucalipto e algum medronheiro. Agora foi possível replantar esta área apenas com espécies autóctones, medronheiros e sobreiros”, contou.
Segundo o GEOTA, estes projetos demonstram que “a boa gestão florestal é possível, mesmo em territórios profundamente marcados por incêndios, abandono e fragmentação de propriedades. Através da cooperação entre proprietários, acesso a apoio técnico e reforço da literacia ambiental, é possível reverter décadas de degradação e vulnerabilidade”.
“Perante a dimensão dos desafios que o país enfrenta neste momento, não podemos esperar pelo próximo verão para agir. O tempo da prevenção, do planeamento e da recuperação é agora e deve-nos envolver a todos.”