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Incêndios: GEOTA mostra que é possível gestão florestal boa para pessoas e biodiversidade

12.08.2025
leitura de 3 minutos
Foto: Helena Geraldes/Wilder

Perante os incêndios das últimas semanas, a associação GEOTA apela a uma mudança profunda na gestão da floresta e mostra os resultados de projetos na serra de Monchique, Serra da Estrela e Pinhal de Leiria.

Só nas últimas semanas terão ardido mais 50 000 hectares em Portugal, com incêndios de grandes dimensões – com áreas ardidas superiores a 100 hectares – em Arouca, Penamacor e no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

“Estes incêndios, além de afetarem comunidades locais, causam perdas irreparáveis a ecossistemas sensíveis, comprometendo a biodiversidade, a qualidade do solo e o ciclo da água”, escreve hoje o GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e do Ambiente) em comunicado.

Perante esta realidade, a associação defende “uma mudança profunda na forma como se gere o território e a floresta” e um modelo de  gestão florestal com espécies autóctones, ecologicamente adaptadas ao território, como o carvalho, sobreiro, medronheiro, castanheiro, pinheiro-bravo e outras espécies nativas. “Esta opção permite restaurar a biodiversidade, conservar o solo, regular os ciclos hídricos e aumentar a resiliência às alterações climáticas, ao mesmo tempo que reduz o risco estrutural de incêndio.”

O GEOTA tem vindo a trabalhar lado a lado com proprietários, comunidades locais e instituições públicas para mudar a paisagem, no âmbito dos projetos Renature, dinamizados pelo GEOTA.

Até ao momento, os três projetos em curso totalizam mais de 1,8 milhões de árvores plantadas, cerca de 3.000 hectares intervencionados e a participação ativa de mais de 700 proprietários e comunidades.

“Estamos diariamente a apoiar as comunidades afetadas e a recuperar o valor ecológico e económico das paisagens que foram devastadas pelos incêndios”, disse Miguel Jerónimo, coordenador dos projetos Renature.

Os territórios afetados pelos incêndios enfrentam uma degradação acelerada dos solos e dos ecossistemas e o impacto das alterações climáticas, fatores agravados pela ausência de gestão ativa da paisagem.

“Na serra de Monchique, temos vindo a observar sinais claros de desertificação nas zonas de menor altitude, especialmente em áreas com solos xistosos. As alterações climáticas estão a modificar as condições ecológicas da serra, forçando algumas espécies autóctones a procurar outros locais para sobreviver”, acrescentou.

Por exemplo, “o sobreiro e o medronheiro tendem agora a estabelecer-se em altitudes mais elevadas e o castanheiro em encostas mais húmidas. Esta mudança torna ainda mais crucial a fase de planeamento, sobretudo na escolha adequada das espécies, nas técnicas de preparação do solo e na calendarização das intervenções no terreno”.

É com este princípio que os projetos Renature estão a intervir na serra de Monchique, serra da Estrela e no Pinhal de Leiria.

A associação lembrou que estes projetos seguem uma metodologia estruturada e replicável, assente no envolvimento direto de proprietários e comunidades locais, na reflorestação com espécies autóctones, na atuação de equipas técnicas especializadas e no recurso a materiais contratados localmente. Contam ainda com parcerias com instituições públicas e são financiados por investimento privado.

Durante a época de plantações, entre novembro e fevereiro, o GEOTA promove ações de voluntariado ambiental com as comunidades, escolas e empresas, fomentando o envolvimento ativo da sociedade na recuperação das paisagens.

José Nascimento é proprietário na serra de Monchique. “Antes do incêndio de 2018, o terreno era ocupado por eucalipto e algum medronheiro. Agora foi possível replantar esta área apenas com espécies autóctones, medronheiros e sobreiros”, contou.

Segundo o GEOTA, estes projetos demonstram que “a boa gestão florestal é possível, mesmo em territórios profundamente marcados por incêndios, abandono e fragmentação de propriedades. Através da cooperação entre proprietários, acesso a apoio técnico e reforço da literacia ambiental, é possível reverter décadas de degradação e vulnerabilidade”.

“Perante a dimensão dos desafios que o país enfrenta neste momento, não podemos esperar pelo próximo verão para agir. O tempo da prevenção, do planeamento e da recuperação é agora e deve-nos envolver a todos.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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