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ICNF autoriza passagem da Volta a Portugal na Peneda-Gerês, mas sujeita a condições

04.08.2026
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Foto:Razevedo172010/Wiki Commons

A realização da sétima etapa da maior prova portuguesa em bicicleta, que atravessa zonas sensíveis do único parque nacional português, depende do “cumprimento de fortes medidas de proteção da biodiversidade”.

A passagem da 7.ª etapa da 87.ª edição da Volta a Portugal em Bicicleta pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) – que atravessa algumas áreas sensíveis da maior área protegida de Portugal, como a Mata de Albergaria – recebeu um parecer positivo do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), mas condicionado a um conjunto de regras que a organização da prova terá de respeitar.

A decisão do ICNF, cujo parecer é obrigatório quando uma prova desportiva atravessa áreas sujeitas a regimes de proteção no PNPG – como a Mata de Albergaria – foi divulgada esta terça-feira, na véspera do arranque da Volta a Portugal.

“A decisão resultou de uma análise técnica e jurídica cuidadosa e aprofundada, realizada no quadro dos procedimentos legalmente previstos, num processo em que a proteção da natureza, dos habitats e das espécies presentes no Parque Nacional constituiu sempre a principal prioridade”, afirma o ICNF.

A Volta a Portugal em bicicleta inicia-se esta quarta-feira e prolonga-se até dia 16 de agosto ao longo de nove etapas, incluindo a passagem pelo PNPG, agendada para a sétima etapa, no dia 13.

O troço previsto, que atravessa a Mata de Albergaria pela estrada florestal, até à Portela do Homem, foi criticado em julho por várias organizações ambientalistas – como a Liga para a Proteção da Natureza e a ZERO – que levantaram dúvidas e preocupações quanto ao percurso proposto. Em causa estão, desde logo, os efeitos negativos associados a toda a logística que acompanha um evendo desportivo de grande escala, em zonas sensíveis como a Reserva Biogenética das Matas de Palheiros e Albergaria, a Zona Especial de Conservação Peneda-Gerês, a Zona de Proteção Especial Serra do Gerês e a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés.

Limites nos veículos de apoio e na permanência de público

“O percurso proposto atravessa uma zona com elevado valor ecológico e que, por essa razão, exige especiais cuidados”, indicou esta terça-feira o ICNF, acrescentando que além da passagem dos ciclistas foi analisado também “o conjunto das atividades associadas ao evento, incluindo a circulação de veículos de apoio, os meios aéreos, a presença de público e o ruído”.

Quanto ao percurso proposto para a 7ª etapa, “coincide exclusivamente com uma via pavimentada já existente, e durante um período muito limitado”, afirma o instituto, que considera tratar-se de “uma estrada onde existe circulação motorizada regular, sem que daí tenha resultado, até à data, qualquer impacte negativo significativo” sobre a biodiversidade local.

Ainda assim, tal como está definido no Regulamento do Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a autorização concedida foi acompanhada por várias medidas específicas divulgadas agora pelo ICNF: limitação da circulação de veículos de apoio ao estritamente indispensável, interdição da permanência de público em todo o trajeto que atravessa os setores ecologicamente mais sensíveis do percurso, exclusão de meios aéreos em áreas de ambiente natural e ainda “outras medidas de gestão consideradas necessárias para proteção das espécies, habitats e restantes valores naturais”, indica em comunicado.

“Foi igualmente recomendada a integração, por parte da organização, de ações de comunicação e sensibilização ambiental, em articulação com o ICNF, que contribuam para a divulgação dos objetivos de conservação do Parque Nacional e do património natural que este alberga”, acrescenta.

O instituto afirma ainda que vai acompanhar a realização da prova, de forma a fiscalizar o cumprimento das condições que foram definidas para o percurso que atravessa o PNPG, assegurando “a salvaguarda dos valores naturais” desta área protegida.

ZERO “satisfeita” com decisão

Reagindo à decisão do ICNF que foi conhecida esta terça-feira, a associação ZERO declarou-se “satisfeita” relativamente às “fortes condicionantes impostas”. Esta organização afirma que o parecer estabelece “um conjunto muito exigente de condicionantes específicas para a 7.ª etapa, reconhecendo expressamente que esta atravessa alguns dos setores de maior sensibilidade ecológica do PNPG”.

Entre as medidas definidas, a associação destaca seis: a interdição da permanência de público no troço entre a Preguiça e a Portela do Homem, a exclusão da utilização de helicópteros e drones sobre este setor de maior sensibilidade ecológica, a forte limitação dos veículos de apoio, a proibição da instalação de zonas de abastecimento, descarte ou estruturas temporárias fora dos perímetros urbanos, a proibição da utilização de dispositivos de amplificação sonora e a implementação de um plano específico de gestão de resíduos. 

“Para a ZERO, estas condicionantes reduzem de forma muito significativa um eventual impacte da passagem da Volta a Portugal sobre os habitats protegidos, em particular por evitarem a presença de público e de atividades suscetíveis de provocar perturbação na Mata de Albergaria, preocupação que a associação havia identificado desde o primeiro momento”, conclui a associação, em comunicado.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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