PUB

Há pelo menos 100 espécies de libélulas e libelinhas migradoras no mundo, revela estudo

16.06.2026
leitura de 3 minutos
Fêmea de libélula-de-nervuras-vermelhas (Sympetrum fonscolombii). Foto: Sharp Photography/WikiCommons

Cerca de uma centena de espécies de libélulas e libelinhas realiza migrações, algumas delas percorrendo milhares de quilómetros e formando grupos com milhões de indivíduos, segundo uma revisão científica global publicada na revista Biological Reviews.

As migrações de aves são um fenómeno bem conhecido, mas as de muitos insectos continuam pouco estudadas. Uma nova revisão científica internacional veio agora revelar que também as libélulas e libelinhas realizam deslocações de longa distância em praticamente todo o mundo.

Investigadores das universidades de Exeter, no Reino Unido, e de Lund, na Suécia, analisaram a informação disponível sobre estes insectos e encontraram evidências de migração em 100 espécies, além de outras 85 consideradas potenciais migradoras.

Embora representem apenas cerca de 1,5% das mais de 6.000 espécies de odonatos conhecidas — grupo que inclui libélulas e libelinhas —, estas deslocações podem envolver milhões de indivíduos e percursos de milhares de quilómetros.

“Libélulas e libelinhas não são normalmente vistas como insectos migradores”, afirmou, em comunicado, Johanna Hedlund, investigadora da Universidade de Lund e do Centro para Ecologia e Conservação da Universidade de Exeter.

Segundo a cientista, esta revisão identificou comportamentos migratórios em quatro famílias de libélulas e em duas famílias de libelinhas.

“Dadas as distâncias percorridas e o número de indivíduos envolvidos, estas migrações terão provavelmente impactos importantes nos ecossistemas, incluindo a deslocação de biomassa e de nutrientes e o controlo de pragas”, explicou.

Migrações em várias gerações

Ao contrário do que acontece com aves ou mamíferos, a maioria dos insectos migradores não completa uma viagem de ida e volta ao longo da vida. Em vez disso, são as gerações seguintes, descendentes dos indivíduos que partiram, que regressam aos locais de reprodução.

Os investigadores encontraram provas tanto deste tipo de migração multigeracional como de migrações realizadas por um único indivíduo. Este último caso ocorre sobretudo em migrações altitudinais, em que os insectos se deslocam para zonas mais elevadas para escapar ao calor ou à seca.

Um exemplo é a chamada “libélula vermelha” do Japão (Sympetrum frequens), conhecida localmente como Akatane. Depois de emergirem na primavera, os adultos abandonam os vales quentes e sobem às montanhas, onde passam o verão. No outono regressam às áreas de reprodução, formando grandes aglomerações, visíveis nas encostas japonesas.

Entre as espécies destacadas pelos investigadores encontra-se a libélula-cosmopolita (Pantala flavescens), cujo primeiro registo para Portugal foi feito pelo entomólogo Albano Soares. Esta espécie consegue percorrer mais de 2.500 quilómetros entre o nordeste da Índia e as Maldivas, aproveitando os ventos associados às monções.

As suas larvas desenvolvem-se rapidamente, em apenas cerca de 40 dias, em pequenas poças temporárias formadas pelas chuvas, onde estão protegidas da predação por peixes.

Outra espécie conhecida pelos seus enormes enxames é a libélula-de-quatro-pintas (Libellula quadrimaculata). Relatos do século XIX descrevem passagens pela Bélgica compostas por “centenas de milhões de indivíduos”, embora este fenómeno seja hoje muito menos frequente.

Já a tira-olhos-migrador (Anax ephippiger) parece migrar entre a região africana do Sahel e a Europa durante a primavera e o outono, chegando por vezes ao Reino Unido e à Escandinávia. Nas últimas quatro décadas, a espécie passou de visitante ocasional do Mediterrâneo a reprodutora regular nesta região.

Alterações climáticas podem modificar as rotas

A investigação sugere ainda que as alterações climáticas estão a influenciar os movimentos destes insectos.

“Alterações nos padrões de vento, precipitação e temperatura modificam quando, onde e até que distância os insectos podem migrar”, explicou Johanna Hedlund.

Segundo a investigadora, espécies africanas migradoras, como a tira-olhos-migrador (Anax ephippiger) e a libélula-de-nervuras-vermelhas (Sympetrum fonscolombii), estão a tornar-se visitantes cada vez mais frequentes na Europa.

Além disso, as grandes concentrações de libélulas desempenham um papel importante nas cadeias alimentares, servindo de alimento a outros animais migradores.

“Muitos morcegos e aves – como os abelharucos, falcões e águias -, capturam-nas durante as suas próprias migrações”, referiu a cientista.

A maioria das espécies migradoras identificadas está classificada pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como “Pouco Preocupante”, o que pode indicar uma maior capacidade de adaptação às rápidas alterações ambientais.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca