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Descrita nova espécie de libélula para Portugal Continental

30.12.2025
leitura de 2 minutos
Libélula-cosmopolita (Pantala flavescens). Foto: Albano Soares

Era um sonho para Albano Soares um dia ver uma libélula-cosmopolita (Pantala flavescens), inseto capaz de voar milhares de quilómetros sobre o oceano nas suas migrações. Pois este ser impressionante apareceu, finalmente e por acaso, à frente do entomólogo, que fez agora o primeiro registo oficial da espécie para Portugal Continental.

Como não podia deixar de ser, as asas são muito grandes em relação ao corpo. A libélula-cosmopolita precisa delas para voar desde a Índia, através do Oceano Índico, até à África Oriental. Uma viagem de 4.000 quilómetros.

Libélula-cosmopolita (Pantala flavescens). Foto: Albano Soares

Esta espécie impressionante, descrita em 1798 por Fabricius, ocorre um todos os continentes, menos na Antárctida e é considerada uma espécie migradora de grande escala.

Em 2014, esta libélula de tons alaranjados foi registada pela primeira vez em Portugal, mais concretamente nos Açores.

Foram precisos 10 anos para ser vista em Portugal Continental. A primeira observação de libélula-cosmopolita aconteceu a 29 de novembro de 2024 por Reinhilde Verweyen, perto de Quelfes, no Algarve. A fotografia de um espécime num ramo de um arbusto foi publicada na plataforma Observation.org.

O registo que deu origem a um artigo publicado a 29 de dezembro na revista científica Arquivos Entomolóxicos aconteceu a 18 e a 19 de agosto deste ano na Quinta de Cima do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras.

Uma fêmea desta espécie foi observada a caçar numa zona de prado seca. No dia 18 de agosto, “preparávamo-nos para vir embora, cerca das 12h00, quando vimos um bicho alaranjado a voar sobre o prado. Fui a correr até ela e levei duas horas para a conseguir fotografar”, contou à Wilder Albano Soares, entomólogo do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal.

“Era um sonho meu ver este bicho, uma espécie emblemática. Pensava que um dia iria conseguir vê-lo.” E conseguiu, por acaso, e num local que visita frequentemente para monitorizar insetos.

No dia seguinte voltou àquele espaço e voltou a encontrar a libélula-cosmopolita.

Pouco tempo depois, a 23 de setembro, foi publicado o terceiro registo desta espécie em Portugal Continental na plataforma Observation.org pelo utilizador Jörg Schulte, perto de Vila Franca de Xira, junto ao rio Tejo.

Tendências

Em todo o mundo, apenas estão descritas duas espécies de libélulas do género Pantala: a Pantala flavescens (cosmopolita) e a Pantala hymenaea (que ocorre apenas no continente americano).

Libélula-cosmopolita (Pantala flavescens). Foto: Albano Soares

Até há alguns anos, os registos da libélula-cosmopolita na Europa eram escassos. A espécie é reconhecida como migradora de passagem em países como Montenegro, Grécia, Turquia, Croácia, Itália, Rússia, Bulgária, França e Lituânia.

Está confirmada reprodução regular no Chipre e ocasional na Suíça, Alemanha, Polónia e Malta.

Mas recentemente, a espécie tem começado a aparecer mais vezes na Península Ibérica.

Esta libélula tem sido vista várias vezes nas Ilhas Canárias (Espanha) desde 2014; em 2021 a espécie foi registada pela primeira vez na Espanha Continental e em 2024 foi confirmada a sua reprodução.

“Considerando estas observações, assim como o cada vez maior número de ocorrências na Península Ibérica, recomendamos aos naturalistas que prestem uma atenção especial quando observarem libélulas de coloração alaranjada, especialmente em zonas perto da costa, dado que mais espécimes migradores podem chegar, e até reproduzir-se, num futuro próximo”, escrevem os autores do artigo, que é assinado também por Tiago Carrapiço e Afonso Barrocal.

Albano Soares acredita ser “provável que a libélula comece a ser vista mais vezes” em Portugal, até porque há uma colónia reprodutora não muito longe, em Cádiz (Espanha). A libélula-cosmopolita está em expansão pelo Sul da Europa, graças a uma distribuição natural.

“Algo me diz que vou voltar a vê-la em breve.”


Venha à procura de libélulas com Albano Soares nesta reportagem da Wilder.

Saiba aqui como fotografar libélulas.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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