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Fotografia de espécie rara de hiena numa vila mineira abandonada vence o Wildlife Photographer of the Year 2025

17.10.2025
leitura de 4 minutos
Ghost In The Darkness. Foto: © Wim van den Heever/Wildlife Photographer of the Year

O fotógrafo sul-africano Wim van den Heever foi distinguido como Wildlife Photographer of the Year 2025 pela sua imagem “Ghost Town Visitor”, foi revelado esta semana. Esta edição recebeu mais de 60.600 candidaturas de 113 países e territórios.

As imagens vencedoras da prestigiada competição mundial de fotografia de vida selvagem foram reveladas a 14 de outubro à noite numa cerimónia de entrega de prémios no Museu de História Natural de Londres.

Nesta edição estiveram a concurso 60.636 candidaturas de 113 países e territórios.

A fotografia vencedora capta uma hiena-castanha (Hyaena brunnea) a atravessar uma antiga cidade mineira de diamantes, há muito abandonada, em Kolmanskop, na Namíbia.

Ghost In The Darkness. Foto: © Wim van den Heever/Wildlife Photographer of the Year

Foi necessária uma década de paciência e determinação para que Wim conseguisse este único registo. Recorreu a tecnologia de armadilhagem fotográfica depois de ter encontrado pegadas de hienas no local.

A hiena-castanha, a mais rara das espécies de hienas, é noturna e solitária. Costuma atravessar Kolmanskop a caminho da costa do Deserto da Namibe, onde caça crias de focas ou procura carcaças deixadas pelas marés. Sendo animais discretos, as armadilhas fotográficas são ferramentas valiosas para os cientistas estudarem o seu comportamento e compreenderem melhor a espécie.

“É curioso que esta fotografia tenha sido feita numa cidade fantasma. Dá-nos um arrepio, sentimos que estamos no território da hiena”, comentou Kathy Moran, presidente do júri do concurso. “Gosto especialmente da inversão do conceito de urbano: foi um ambiente humano, mas deixou de o ser. Abandonada pelos mineiros, a vida selvagem regressou. De certa forma, foi repovoada, continua a ser uma cidade, mas já não é nossa.”

Segundo a jurada Akanksha Sood Singh, “esta imagem é um confronto poético entre o selvagem e o vestígio humano. A hiena solitária torna-se um símbolo de resistência em meio à decadência. É uma história de perda, resiliência e triunfo silencioso da natureza, uma fotografia que ficará na memória.”

Jovem Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano 2025

O prémio Jovem Fotógrafo foi atribuído a Andrea Dominizi, o primeiro italiano a conquistar este galardão dirigido a fotógrafos com 17 anos ou menos.

“After the Destruction”. Foto: © Andrea Dominizi/Wildlife Photographer of the Year

A imagem vencedora, “After the Destruction”, retrata um escaravelho-longicórnio nas montanhas Lepini, na Itália central, em contraste com máquinas abandonadas, um poderoso testemunho da perda de habitat.

Enquanto estes escaravelhos perfuram madeira morta, permitem a entrada de fungos que ajudam na decomposição e na reciclagem de nutrientes. A destruição do seu habitat tem efeitos que se propagam por todo o ecossistema.

“É uma fotografia tão cheia de significado quanto de detalhe”, afirma Andy Parkinson, membro do júri. “Comovente e perturbadora, obriga-nos a refletir sobre a relação tensa entre humanidade e natureza. Espero que estimule uma conversa urgente, porque não é só o nosso futuro que está em risco.”

Categoria Impacto 2025

Na sua segunda edição, a categoria Impacto distingue uma história de esperança ou de sucesso na conservação. O vencedor deste ano foi o fotógrafo brasileiro Fernando Faciole, com a imagem “Orphan of the Road”.

A fotografia mostra uma cria órfã de tamanduá-bandeira a seguir o seu cuidador após a refeição, num centro de reabilitação, uma imagem que denuncia o impacto mortal dos atropelamentos, uma das principais causas de declínio da espécie no Brasil.

A mãe do pequeno tamanduá morreu atropelada e a equipa espera libertar a cria na natureza depois de a ensinar capacidades essenciais à sobrevivência.

Paralelamente, o projeto Tamanduás e Estradas, do Instituto de Conservação de Animais Silvestres, está a implementar medidas para reduzir a mortalidade destes animais, incluindo vedações e túneis subterrâneos para travessias seguras.

“O tamanduá desta fotografia representa muitos outros animais ameaçados que precisam da nossa ajuda”, afirma Hans Cosmas Ngoteya, membro do júri. “Sem voz própria, dependem de nós para garantir a sua proteção. Esta imagem transmite essa mensagem com enorme força.”

As fotografias vencedoras serão apresentadas numa exposição no Museu de História Natural de Londres, a partir de 17 de outubro de 2025, reunindo 19 categorias que vão desde a vida marinha à urbana, passando pelo fotojornalismo e comportamento animal.

A mostra convida os visitantes a compreender como os habitats do planeta estão a mudar. Pela primeira vez, incluirá o Índice de Integridade da Biodiversidade (BII), uma métrica inovadora do museu que avalia, numa escala de 0 a 100%, quanto da biodiversidade original de uma região se mantém intacta. Reconhecido como indicador oficial do Quadro Global da Biodiversidade, o BII é uma ferramenta essencial para monitorizar e comunicar alterações nos ecossistemas e medir o progresso global em matéria de conservação.

“Sessenta e um anos depois, o Wildlife Photographer of the Year continua a ser uma poderosa plataforma de narrativa visual”, comenta Doug Gurr, diretor do Museu de História Natural. “Mostra-nos a beleza e complexidade do mundo natural e da nossa relação com ele. Este ano, com a integração do BII, combinamos arte e ciência de uma forma sem precedentes, inspirando o público a tornar-se defensor do planeta.”

Os vencedores das categorias, bem como as 100 imagens finalistas do portefólio da 61.ª edição, foram selecionados anonimamente por um painel internacional de especialistas em fotografia de vida selvagem, cinema, conservação e ciência, com base na originalidade, excelência técnica e criatividade das imagens.


Descubra aqui os vencedoras das várias categorias.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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