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Fogos e poluição do Tejo entre o que de pior aconteceu ao Ambiente em 2017

Em jeito de balanço, a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza escolheu os factos que marcaram o Ambiente em 2017. Os fogos e a poluição do rio Tejo estão entre o que de pior aconteceu.

 

Para esta organização, o ano que está prestes a terminar fica marcado pelos incêndios no Centro e o Norte do país. “Arderam cerca de 500 mil hectares de floresta e povoamentos, o que corresponde a quatro vezes mais do que a média registada nos dez anos anteriores”, salienta a organização em comunicado divulgado nesta quarta-feira.

“Além de todos os impactes ambientais negativos que estes incêndios provocaram, também a nível social e económico os impactes foram enormes, com mais de uma centena de mortes resultantes dos incêndios e centenas de estruturas humanas destruídas, entre as quais centenas de habitações.”

Entre o que de pior aconteceu em 2017 a Quercus escolheu ainda as descargas poluentes no rio Tejo, “atentados ambientais que ocorrem sobretudo na zona de Vila Velha de Ródão”. Na opinião da associação, os episódios de poluição do rio “continuam a ser demasiado recorrentes” e, ano após ano, tornam o Tejo “mais degradado e ameaçado”.

A poluição impede o rio de “cumprir com as suas funções ecológicas e de suporte a atividades económicas locais”, lembra. Por isso, a Quercus pede “uma ação mais firme por parte das autoridades competentes para resolver de vez este grave problema”.

A lista sobre o pior de 2017 continua com o processo judicial instaurado ao cidadão Arlindo Marques pela empresa Celtejo. “Este cidadão integra o Movimento ProTEJO, de que a Quercus faz parte, e tem sido incansável nos últimos anos a fazer denúncias, acompanhadas de fotografias e filmes vídeo, de inúmeras situações reais de episódios de poluição das águas do rio Tejo”, nota a associação ambientalista. “A indústria ligada aos eucaliptos poderá estar a tentar condicionar o direito constitucional que todos os cidadãos têm de expressar livremente a sua opinião, e de defenderem o Ambiente, e isso não é certamente aceitável.”

O facto de 32,6% dos solos de Portugal estarem degradados é motivo suficiente para fazer parte do pior que aconteceu ao Ambiente este ano. Actualmente, a aridez dos solos atinge a totalidade do interior Algarvio e do Alentejo, está a progredir para as zonas do noroeste e a aumentar nas zonas do litoral sul e montanhas do Centro. “Este é, sem dúvida, um grave problema, uma vez que os solos degradados armazenam menos carbono, o que contribui para o aquecimento global e sem solos saudáveis e produtivos, surge a pobreza, a fome e a necessidade de emigração, que muitas vezes gera conflitos e problemas humanitários gravíssimos.”

A “acelerada expansão” do eucalipto em Portugal, que “urge travar por todos os meios”, mereceu nota negativa da Quercus. A associação lembra dados do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e salienta que entre 17 de Outubro de 2013 e o final do primeiro semestre de 2017 “a área ocupada por esta espécie exótica em Portugal registou um aumento próximo da superfície da cidade de Lisboa”. “A mais recente vaga de incêndios, com todas as perdas humanas e materiais que a mesma implicou, a degradação ambiental do nosso território e as consequências económicas para os cidadãos nacionais desta aposta cega mostram que é urgente tomar uma atitude sobre a questão.”

Mas 2017 fecha com uma lista de factos ambientais saudados pela Quercus. Entre eles está a aprovação da Estratégia Nacional de Educação Ambiental 2020, documento “determinante para o futuro dos cidadãos e da sociedade portuguesa”.

“A forma como foi promovida a discussão e o debate em torno da questão da Educação Ambiental, envolvendo os agentes a nível nacional, com trabalho realizado e provas dadas no terreno, é uma prova que sem ceder a pressões e a outros interesses divergentes, é possível inovar e ultrapassar os constrangimentos que a área da Educação Ambiental normalmente apresenta.”

A lista do que de melhor aconteceu em 2017 inclui também a tomada de posição de Portugal a favor da redução dos limites de cádmio nos fertilizantes agrícolas, no âmbito da nova proposta legislativa da União Europeia, atualmente em discussão em Bruxelas. “Vários estudos especializados indicam a perigosidade deste metal pesado no organismo humano, tendo levado a União Europeia a assumir que na Europa os níveis deste metal nos fertilizantes agrícolas, e consequentemente nos solos, é muito superior ao desejado e a exposição dos humanos através da alimentação é superior ao que o organismo humano consegue aguentar.”

A devolução à natureza, em Outubro, de uma águia-imperial-ibérica recuperada foi outra das coisas boas de 2017. A ave, que foi recuperada com sucesso no CERAS – Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens (Castelo Branco), gerido pela Quercus, pertence a uma das espécies mais ameaçadas da Europa. “Existem apenas cerca de 500 casais em toda a Península Ibérica e, desde 2004, que a espécie é alvo de um memorando de entendimento entre Portugal e Espanha para a sua recuperação. Em 2017, nidificaram 15 casais em Portugal e destes ninhos nasceram pelo menos 17 crias tendo, destas, 15 voado com sucesso.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.