A Europa registou em 2025 o maior número de remoções de barreiras fluviais de sempre, com pelo menos 603 obstáculos demolidos em 21 países, revela hoje o novo relatório da coligação Dam Removal Europe. O objetivo é restaurar rios, recuperar biodiversidade e aumentar a resiliência climática.
Segundo o relatório “Dam Removal Progress Report 2025”, o número de remoções de barreiras fluviais obsoletas ou abandonadas aumentou 11% face a 2024, estabelecendo um novo recorde europeu.
A Suécia liderou as intervenções no último ano, com 173 barreiras fluviais eliminadas, seguida da Finlândia (143) e de Espanha (109). Entre os obstáculos removidos predominam açudes de pequena dimensão, sendo que 78% tinham menos de dois metros de altura.
No total, as remoções realizadas em 2025 permitiram reconectar mais de 3.740 quilómetros de cursos de água. Mas a coligação Dam Removal Europe acredita que os números reais poderão ser superiores, já que muitos países europeus ainda não têm sistemas centralizados de registo destas intervenções.
Na sua opinião, estas iniciativas permitiram “enormes ganhos para a biodiversidade, resiliência climática e para os ecossistemas de água doce”.
Portugal surge no relatório com destaque para a remoção da barragem do Sourinho, no rio Alviela, em novembro de 2025, um projeto desenvolvido pelo GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e do Ambiente) que é apresentado como exemplo das ações em curso no sul da Europa.
Hoje, o rio Alviela, um afluente do rio Tejo com 45 quilómetros de extensão, tem 33 barreiras fluviais que, segundo a coligação, “bloqueiam a passagem de peixes e de sedimentos”. Estas estruturas causam a perda de biodiversidade e erosão costeira. Há espécies selvagens que vivem no rio Alviela a sentir estes impactos. Tal é o caso da boga-portuguesa (Iberochondrostoma lusitanicum), uma espécie que apenas pode ser encontrada no nosso país e em mais nenhuma outra parte do mundo e que está classificada como Criticamente em Perigo de extinção. Outros exemplos referidos são a enguia-europeia (Anguilla anguilla) e o escalo-do-sul (Squalius pyrenaicus), que também estão ameaçados.
A remoção da barragem do Sourinho permitiu abrir 4,3 quilómetros de rio.
Entre os casos considerados mais simbólicos do último ano estão as primeiras remoções oficialmente registadas na Islândia e na Macedónia do Norte. Na Macedónia do Norte, duas barreiras removidas nos rios Kriva e Pčinja abriram 72 quilómetros de habitat para espécies piscícolas nativas. Já na Islândia, a demolição de uma pequena barragem hidroelétrica no rio Melsá permitiu tornar o curso de água totalmente livre, beneficiando espécies como o salmão-do-atlântico e a truta-marinha.
Os autores deste relatório sublinham que a recuperação da conectividade dos rios ganhou novo impulso político com o Regulamento Europeu do Restauro da Natureza, que estabelece a meta de restaurar pelo menos 25 mil quilómetros de rios livres até 2030. A remoção de barragens e açudes obsoletos é apontada como uma das principais ferramentas para atingir esse objetivo.
Ao mesmo tempo, o relatório alerta para aquilo que descreve como uma crescente pressão política e económica sobre as leis ambientais europeias, incluindo a Diretiva-Quadro da Água e as diretivas Habitats e Aves. Segundo a coligação, qualquer flexibilização dessas regras poderá comprometer os avanços alcançados no restauro ecológico dos rios.
A coligação Dam Removal Europe anunciou também uma nova estratégia conjunta para acelerar a remoção de barreiras fluviais no continente. O plano assenta em cinco eixos principais: reforço da legislação, aumento do financiamento, sensibilização pública, formação técnica e monitorização dos resultados.