Uma fotografia de um pernilongo juvenil refletido na água de uma salina da Ilha da Morraceira, na Figueira da Foz, por Afonso Bernardo, venceu o concurso de fotografia promovido pelo Núcleo de Estudantes de Biologia da Associação Académica de Coimbra (NEB/AAC). A iniciativa reuniu 100 imagens de estudantes, professores e investigadores ligados ao Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra.
A imagem vencedora foi captada em janeiro deste ano por Afonso Bernardo, 20 anos e estudante finalista de Biologia na Universidade de Coimbra durante uma saída de observação de aves realizada com um colega à Ilha da Morraceira.

A fotografia mostra um pernilongo (Himantopus himantopus) juvenil de asas abertas, pouco depois de pousar na salina. A combinação entre a postura da ave e o reflexo na água criou uma simetria quase perfeita, que acabaria por conquistar os votos do público.
“Esta fotografia é das mais artísticas que já consegui realizar”, contou o autor à Wilder. “O facto de ter conseguido uma simetria quase perfeita sob o reflexo da água torna-a muito especial para mim. Além disso, foi a minha primeira fotografia a ganhar um prémio.”
Uma viagem de comboio para fotografar aves migradoras
A imagem nasceu de uma expedição preparada com antecedência. Antes da visita, os dois amigos procuraram aconselhamento junto de investigadores e docentes familiarizados com a avifauna da região para identificarem os melhores locais e épocas para observação.

Janeiro é um período particularmente interessante para encontrar as aves limícolas que passam o inverno em Portugal durante as suas migrações. Sem automóvel, os dois jovens apanharam o comboio às seis da manhã rumo à Figueira da Foz.
Apesar de o dia ter revelado menos espécies do que esperavam, “apenas” 10, houve algumas recompensas. Entre elas, a observação dos primeiros flamingos-comuns que Afonso Bernardo viu na natureza.
Já perto da hora de almoço, os dois instalaram-se junto a uma salina frequentada por pernilongos e pilritos-das-praias. Sem abrigo para se camuflarem, optaram por permanecer sentados, aguardando que alguma ave se aproximasse o suficiente.

A paciência acabou por ser recompensada. “Consegui uma fotografia de um pernilongo juvenil de asas abertas, após pousar na salina e procurar alimento.”
Da curiosidade pela natureza à fotografia de aves
Afonso Bernardo começou a fotografar natureza apenas no final de 2024, depois de recuperar uma câmara fotográfica pouco utilizada que existia em casa e adquirir uma primeira objetiva. “Era extremamente barata, com uma distancia focal não muito grande. Mas só queria perceber se isto era algo que eu gostava mesmo, ou se era só um ‘bichinho’ do momento”, contou à Wilder. Desde aí, passou a levar a câmara e a lente para todo o lado. “Tentava fotografar tudo o que via.”

Meses mais tarde investiu numa objetiva de maior alcance e consolidou uma paixão que hoje ocupa grande parte do seu tempo livre. “Hoje consigo afirmar que gosto mesmo de fotografar toda a fauna que vejo, mas tenho um carinho muito especial pela fotografia de aves, que é o meu principal foco.”
Mas o interesse de Afonso Bernardo pela natureza vem de muito antes da fotografia.
“Sempre fui apaixonadíssimo por animais. Cresci rodeado de enciclopédias, documentários e livros sobre natureza”, conta. O seu sonho era ver os animais de perto, conseguir percebê-los. A entrada no curso de Biologia e o contacto com colegas que já fotografavam vida selvagem acabaram por aproximar as duas paixões.

Agora, prestes a concluir a licenciatura, prepara-se para ingressar no mestrado em Biologia da Conservação da Universidade de Évora.
O sonho, admitiu, seria tornar-se fotógrafo de natureza a tempo inteiro. Mas imagina também um futuro ligado à investigação científica, combinando trabalho de campo com documentação fotográfica da biodiversidade.
Gostava de “usar a fotografia para mostrar ao público o que existe no mundo e que a natureza é espectacular não só por ser ‘fofa e bonita’ mas porque é importantíssima na vida humana e perfeita à sua maneira”.
Afonso Bernardo tem a ambição de “poder viajar entre projetos de investigação e documentar tudo através da minha câmara”, diz. Entre as suas inspirações está o naturalista britânico David Attenborough.
Concurso reuniu estudantes e investigadores
A fotografia vencedora destacou-se entre um conjunto de 100 imagens apresentadas na iniciativa organizada pelo NEB/AAC.
Segundo Romão Gomes, presidente deste núcleo de estudantes, seis estudantes participaram no concurso, cada um com dez fotografias. A estes juntaram-se quatro professores e investigadores convidados, cujas imagens foram exibidas fora de competição para divulgar o trabalho científico desenvolvido no Departamento de Ciências da Vida.

Mais do que uma competição, o projeto procurou valorizar a fotografia de natureza produzida pelos estudantes e aproximar a comunidade académica da investigação científica realizada na universidade.
“Pretendíamos divulgar o notável trabalho fotográfico de alguns dos nossos estudantes, contribuindo para a divulgação e impulsionamento dos seus projetos fotográficos”, explicou Romão Gomes. “Ao mesmo tempo, quisemos mostrar a ciência desenvolvida pelos investigadores do departamento.”
Ao longo de várias semanas, as fotografias dos participantes foram divulgadas nas redes sociais, sendo o público convidado a votar nas suas imagens favoritas. A fotografia mais votada de cada participante passou à fase final, onde foi escolhido o vencedor.
O sucesso da iniciativa acabou por ultrapassar as expectativas dos organizadores. Segundo Romão Gomes, o interesse gerado pelas publicações permitiu avançar para uma exposição física no Departamento de Ciências da Vida, com o apoio do departamento, do Marine Research Lab e do projeto LIFE SeagrassRIAwild.

A mostra, patente até 5 de junho, reúne as fotografias mais votadas dos estudantes participantes e imagens representativas do trabalho dos investigadores convidados, num total de dez fotografias.