No Alentejo, o calor extremo prolongado pode causar a morte às crias de tartaranhão-caçador (Circus pygargus), ave Em Perigo de extinção. Hugo Sampaio, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), esteve no terreno a ajudar estas aves e explica o que foi feito.
Hugo Sampaio é técnico de Conservação Terrestre na SPEA e trabalha há quatro anos com o tartaranhão-caçador.
Esta é uma espécie que nidifica no solo, muitas vezes em campos agrícolas. Além da ameaça que pode chegar durante a ceifa – quando ninhos, ovos e crias podem ser destruídos involuntariamente pelas máquinas que trabalham nos campos – os tartaranhões-caçadores enfrentam também o desafio de sobreviver às elevadas temperaturas durante vários dias.
Hugo Sampaio faz parte de uma equipa que esteve no campo a construir abrigos para proteger as crias do calor extremo, no âmbito de um projeto de conservação que está no terreno para salvar esta espécie, o LIFE SOS Pygargus.
“Os abrigos são simples e amovíveis e apenas são usados durante o crescimento das crias, para as proteger do sol nas semanas mais quentes”, explicou à Wilder Hugo Sampaio. O período mais crítico são os meses de junho e julho, até que as crias se tornem independentes e deixem o ninho.

Mas como se faz um abrigo para o calor? “Colocamos uns tijolos no solo, e neles apoiamos uma estrutura plana que dá sombra às crias”, explicou o conservacionista.
Segundo Hugo Sampaio, as crias de tartaranhão-caçador “procuram a sombra quando sentem necessidade, geralmente a partir das duas semanas de idade”.
“Este ano colocámos três abrigos no Alto Alentejo. Penso que o ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas) colocou outros quatro, o que faz um total de sete. Na próxima primavera iremos colocar novamente abrigos, no número que for necessário.”
Abrigos só em ninhos protegidos e com crias
Até certo ponto, o tartaranhão-caçador está adaptado ao calor. Estas aves “procuram sombra durante as horas de maior calor, abrem o bico e afastam as asas do corpo para melhor termorregulação”.
As crias, quando já têm algumas semanas, também procuram a sombra por si. Mas “quando são mais pequenas e ainda não se deslocam bem, a própria mãe se coloca por cima delas para lhes fazer sombra”.
Mas, lembrou Hugo Sampaio, hoje “temos mais ondas de calor e mais cedo no ano. Por serem mais cedo, as ondas de calor atualmente coincidem mais frequentemente com fases inicias da reprodução, com as crias ainda bastante vulneráveis”.
“A exposição a temperaturas elevadas e prolongadas pode causar a desidratação e a morte das crias. Indiretamente pode ainda resultar em atrasos no crescimento, entre outros, por menor disponibilidade alimentar ou por os pais terem menos horas disponíveis para caçar”, explicou.

Por isso, a instalação destes abrigos é uma das medidas de conservação desta espécie, assim como a proteção de ninhos com crias.
“O trabalho que fazemos com esta espécie foca-se muito na localização e proteção de ninhos, que são feitos no solo, em área de feno ou cereal.”
Em abril, as equipas localizam os casais que se estão a fixar e acabam por construir ninho. “Em caso de necessidade (o que acontece na maior parte dos casos) temos de colocar vedações metálicas em volta do ninho para que os ovos ou crias não sejam predados. Isto porque o feno é cortado no início da época de nidificação e a área deixada por cortar em volta do ninho é diminuta.”
A partir do momento em que o ninho está protegido com as vedações metálicas, os conservacionistas fazem o seguimento do casal e das crias com câmara fotográfica.
A área de trabalho da SPEA é o Alto Alentejo, em especial nos concelhos de Monforte, Sousel e Fronteira, onde há um maior número de casais.
A situação do tartaranhão-caçador na Península Ibérica é preocupante. Em Portugal, em 2022 e 2023, o primeiro censo nacional dirigido a esta espécie concluiu que a população portuguesa está atualmente estimada em 119-207 casais, tendo havido um declínio de 76 a 79% desde 2012.