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O coelho-bravo está a ser reintroduzido no Vale do Côa

06.08.2026
leitura de 3 minutos
Foto: Rewilding Portugal

O Ermo das Águias, uma área gerida pela Rewilding Portugal, é o primeiro local desta ação destinada a incentivar o regresso de linces-ibéricos e lobos-ibéricos à região.

Há muitos anos que não se avistam coelhos-bravos (
Oryctolagus cuniculus algirus) na zona do Ermo das Águias, mas isso poderá mudar em breve graças à reintrodução dessa espécie ameaçada, que está a ser feita nesta área de rewilding situada na margem esquerda do rio Côa, no concelho de Pinhel.

No total, foram agora reintroduzidos 17 coelhos-bravos neste território com cerca de 600 hectares, que ficaram distribuídos por três marouços, ou seja, abrigos artificiais construídos de propósito para abrigar estes mamíferos.

“Cada marouço recebeu um pequeno grupo reprodutor, composto por quatro a cinco fêmeas e um macho, criando núcleos de elevada densidade que permitem às populações estabelecerem-se nas melhores condições possíveis”, descreve uma nota de imprensa sobre esta nova ação do projeto LIFE Lupi Lynx, coordenado pela Rewilding Portugal. Ligada à Rewilding Europe, esta associação gere o Ermo das Águias e outras três áreas de rewilding, todas no vale do Côa.

Por enquanto, os coelhos vão permanecer em marouços rodeados por vedações eletrificadas, ficando assim protegidos de predadores, e recebem alimentos e água. Desta forma, vão ter tempo para se ambientarem ao novo território e para se reproduzirem sem entraves, até serem libertados. À medida que crescer o número destes animais, espera-se que comecem a sair para fora dos abrigos e a colonizarem a área de forma natural, passando a estar autónomos.

Coelho-bravo. Foto: Wilder

“Esta abordagem representa uma estratégia baseada nas melhores práticas conhecidas na Península Ibérica, para acelerar a recuperação de uma espécie-chave dos ecossistemas mediterrânicos”, afirma a Rewilding Portugal, que lembra que os coelhos-bravos são o alimento principal dos linces-ibéricos e das águias-imperiais, sendo essenciais para alimentar as crias dessas duas espécies.

Mas não só. Estes mamíferos cujo número tem vindo a descer são também importantes para a subsistência de mais de 20 outras espécies selvagens, incluindo o lobo-ibérico, “pelo que o reforço das suas populações é essencial para restaurar as cadeias ecológicas e promover o regresso de grandes predadores”.

Além dos novos habitantes, o Ermo das Águias é também hoje a casa de outras espécies ligadas a ações de rewilding ali realizadas, incluindo cavalos Sorraia e Tauros, que têm a função de fazer um pastoreio natural, “contribuindo para a recuperação dos habitats e criando condições cada vez mais favoráveis para a biodiversidade”, acrescenta a associação.

Libertação de 15 tauros numa área de rewilding do Vale do Côa, em 2023. Foto: Cláudio Noy / Rewilding Portugal

Mais reintroduções previstas

Depois desta primeira reintrodução, cujos resultados vão ser seguidos e avaliados, está prevista uma ação de reforço noutra área de rewilding: o Paul dos Toirões, no concelho de Almeida, onde “estão atualmente a ser preparados novos marouços artificiais para receber futuros grupos reprodutores”.

“Embora já tenham sido registados indivíduos dispersantes de lince-ibérico no distrito de Castelo Branco, ainda não existem populações estabelecidas na região”, nota a Rewilding Portugal, que lembra que as populações reprodutoras mais próximas deste felino selvagem estão no Alentejo, “estando a espécie a expandir lentamente a sua distribuição natural para norte”.

“A disponibilidade de coelho-bravo será um dos fatores determinantes para que essa expansão possa resultar, no futuro, no estabelecimento de populações permanentes no Grande Vale do Côa”, acrescenta.

Equipa do projeto prepara a reintrodução dos coelhos-bravos no Ermo das Águias. Foto: Rewilding Portugal

Desde há vários anos que o coelho-bravo está ameaçado de extinção tanto em Portugal como em Espanha. De acordo com uma investigação centífica recentemente publicada, aliás, existem não uma mas duas espécies de coelho-bravo na Europa, das quais o coelho-ibérico – batizado de
Oryctolagus algirus pelos investigadores – estará presente apenas em Portugal e numa parte de Espanha.

“Embora esta proposta científica ainda aguarde validação pelas autoridades taxonómicas internacionais, os investigadores consideram que o reconhecimento desta distinção permitirá refletir melhor o estado de conservação do coelho-ibérico e orientar estratégias de gestão e conservação mais adequadas”, diz a Rewilding Portugal.

Novas parcerias para haver mais reprodução

Além das reintroduções agora anunciadas, as ações do LIFE Lupi Lynx incluem a compra de um cercado de reprodução dedicado “à criação de coelhos-bravos para futuras ações de reforço populacional”, que vai ficar situado fora das áreas de rewilding, “permitindo produzir animais destinados a projetos de restauro ecológico”.

A ideia é expandir ainda mais a capacidade de produção de coelhos através de parcerias com municípios, associações de caça e outros proprietários. “Esta diversificação facilita o aumento da diversidade genética nos coelhos usados, tendo várias fontes de animais, garantindo uma maior robustez genética das populações.”

“A Rewilding Portugal apoia igualmente outras entidades na realização de ações semelhantes nas suas propriedades, contribuindo para a recuperação do coelho-bravo à escala da paisagem e reforçando a disponibilidade desta espécie em territórios prioritários para o lobo e o lince”, diz ainda a associação. 


Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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