Há mais de um século que os ornitólogos dividem as populações de rola-brava (Streptopelia turtur) do Mediterrâneo ocidental em duas subespécies distintas. Agora, uma equipa de investigadores testou esta suposta fronteira entre subespécies.
A subespécie nominal, Streptopelia turtur turtur, ocorreria na maior parte da Europa continental e nas Ilhas Canárias, enquanto a Streptopelia turtur arenicola ocuparia o norte de África e alguns arquipélagos, como as Baleares. Esta última era descrita como uma forma adaptada a ambientes desérticos, mais pálida e de menor dimensão.
No entanto, esta classificação baseava-se quase exclusivamente em observações morfológicas fragmentadas feitas entre o final do século XIX e o início do século XX, sem confirmação através de métodos modernos de genética molecular.
Perante esta incerteza, uma equipa de cientistas – liderada pelo Centre de Ciència i Tecnologia Forestal de Catalunya (CTFC), e que incluiu investigadores do Grupo de Investigação em Ecologia e Gestão da Fauna Selvagem do Instituto de Investigación en Recursos Cinegéticos (IREC – CSIC, UCLM, JCCM), bem como de várias instituições de Espanha e Marrocos – decidiu testar de forma rigorosa esta suposta fronteira entre subespécies.
Para isso, capturaram mais de 900 rolas-bravas durante a época de reprodução, em Castela-La Mancha, Catalunha, Canárias, Menorca, Ibiza e Marrocos, analisando as suas características morfológicas e o ADN mitocondrial. Os resultados foram publicados a 18 de junho na revista científica Bird Conservation International.
Nem o corpo nem os genes as distinguem
A análise morfométrica de 647 aves adultas – através da medição do comprimento da asa, da cauda e do tarso – não revelou diferenças significativas entre as duas supostas subespécies.
As análises de componentes principais e as análises discriminantes mostraram uma sobreposição quase total entre os dois grupos, contrariando a ideia histórica de que as rolas-bravas do norte de África são mais pequenas do que as populações europeias.
A análise genética conduziu à mesma conclusão. Depois de sequenciarem três genes mitocondriais de 117 indivíduos — comparando ainda os resultados com sequências de populações da França, Reino Unido e Bulgária — os investigadores não encontraram qualquer estrutura genética compatível com a distinção entre as duas subespécies.
Os resultados apontam para uma forte ligação genética entre as populações localizadas em ambos os lados do Estreito de Gibraltar.
Então porque não existem fronteiras genéticas evidentes entre populações separadas pelo mar?
Segundo os autores, a explicação mais provável está na troca ocasional de indivíduos entre as diferentes populações reprodutoras.
Embora a maioria das rolas-bravas regresse todos os anos às mesmas áreas de reprodução, uma pequena parte poderá reproduzir-se num local diferente daquele onde nasceu ou onde nidificou em anos anteriores. Este processo poderá ser favorecido pelas paragens migratórias realizadas noutras zonas de reprodução.
Mesmo sendo reduzida, esta troca de indivíduos será suficiente para manter o fluxo genético entre as populações. Na verdade, bastam poucos indivíduos por geração para impedir que as populações comecem a diferenciar-se geneticamente.
Assim, o Mediterrâneo não terá funcionado como uma barreira suficientemente eficaz, nem durante tempo bastante, para favorecer o aparecimento de subespécies distintas.
Consequências para a conservação da rola-brava
A rola-brava é uma espécie globalmente ameaçada. Entre 1980 e 2023, as suas populações diminuíram 83%, sobretudo devido à perda de habitat e a níveis insustentáveis de caça.
Em Portugal, a espécie foi classificada em 2022 como Quase Ameaçada.
Os planos de gestão promovidos pela Comissão Europeia organizam-se em torno das rotas migratórias, considerando toda a população como uma única unidade de gestão. Embora estes planos apenas se apliquem aos Estados-Membros da União Europeia, sempre se considerou que a pressão cinegética exercida em Marrocos – um país sobre o qual a Comissão Europeia não tem competência – pode afetar as populações reprodutoras europeias.
Os resultados deste estudo reforçam essa perspetiva. “A ampla troca genética detetada entre as rolas-bravas de Espanha e de Marrocos, aliada à ausência de diferenças morfológicas ou genéticas que justifiquem a existência de duas subespécies, apoia a ideia de que todas fazem parte de uma única população biológica interligada”, escreve os investigadores em comunicado.
Por outro lado, se as rolas-bravas que nidificam em Marrocos pertencem à mesma unidade genética das que se reproduzem em Espanha, a importante população reprodutora existente naquele país poderá funcionar como um reservatório demográfico para a conservação da espécie, contribuindo, no futuro, para reforçar outras populações ligadas pelo fluxo genético.
Os autores defendem uma revisão do estatuto subespecífico da rola-brava com base em dados genómicos mais completos e sublinham a necessidade urgente de alargar as estratégias de conservação para além das fronteiras da União Europeia, envolvendo de forma coordenada os países do norte de África.
Na área da biologia da conservação, o caso da rola-brava evidencia também a importância de uma taxonomia atualizada.
Segundo os investigadores, a incorporação de evidências moleculares pode evitar que as estratégias de conservação tratem como unidades independentes populações que, do ponto de vista biológico, pertencem ao mesmo conjunto. “A integração da informação genética poderá, assim, contribuir para definir unidades de conservação que reflitam de forma mais fiel a verdadeira estrutura biológica das populações.”