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Oceano

Cada vez mais aves marinhas estão a perder população, mas nem tudo são más notícias

08.06.2026
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Alcatraz (Morus bassanus), também conhecido por ganso-patola. Foto: © Paul F. Donald

Este continua um dos grupos mais ameaçados, mas há sinais de esperança, indicam os dados do III Relatório Global sobre a Avaliação do Estado do Oceano, publicado pela ONU. A Wilder falou com a investigadora Maria Dias e explica-lhe o que se passa.

Mais de metade das 371 espécies de aves marinhas conhecidas em todo o mundo estão hoje a perder população, avisa o III Relatório Global sobre a Avaliação do Estado do Oceano (conhecida em inglês como World Ocean Assessment III), que foi apresentada esta segunda-feira pela ONU. Os dados científicos compilados neste documento mostram que 57% das aves marinhas encontram-se agora em declínio, o que se traduz num aumento importante face ao que mostrava a segunda edição do relatório, publicada em 2o21, quando menos de metade (47%) das espécies desse grupo tinham os seus números a reduzir-se.

“Foi esse o dado que nos chamou mais a atenção”, disse à Wilder a autora coordenadora do sub-capítulo sobre as aves marinhas, Maria Dias, que está entre os vários cientistas portugueses que colaboraram neste documento de 1600 páginas. A gaivota de Audoinni, que tem hoje a sua principal colónia de nidificação em Portugal, é uma das espécies que antes estava estável e agora vê os seus números diminuir, exemplifica a investigadora do CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Ao longo de vários anos, cerca de 550 peritos de 86 países trabalharam na recolha e compilação dos dados científicos mais recentes relativos à situação do oceano, incluindo as pressões que este enfrenta, mas também tudo o que dele depende, desde a biodiverdade à economia.

Maria Dias. Foto: D.R.

Mas apesar do aumento de aves marinhas com populações em declínio, também há “boas notícias” para este grupo de espécies, ressalva Maria Dias. De facto, embora estas aves sejam “um dos grupos mais ameaçados do mundo”, com quase um terço (31%) das espécies em risco de extinção, essa fatia praticamente estabilizou face ao relatório anterior, explica a mesma responsável. Tal como as as outras partes do documento, a equipa de autores deste sub-capítulo da biodiversidade oceânica contou com a participação de peritos de várias regiões do mundo, incluindo outro investigador do CE3C, Martin Beal.

Apesar de muitas aves marinhas estarem a baixar em população, essas quedas não são ainda suficientemente grandes para alterar o seu risco de extinção, de acordo com os critérios da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.

“Há cinco anos atrás, no relatório anterior, percebemos que havia cada vez mais espécies de aves marinhas mais perto da extinção, que estavam claramente com um estatuto de conservação mais degradado. Isso agora parece estar a abrandar um pouco, ou seja, o número de espécies que pioraram claramente o seu estatuto de ameaça diminuiu, portanto são boas notícias”, nota Maria Dias.

A explicação pode estar nos esforços de conservação desenvolvidos em várias regiões do mundo, mas ainda há muito trabalho pela frente. “Seja qual for o prisma pelo qual vemos as aves marinhas, trata-se de um grupo que continua muito ameaçado de extinção. Não estamos a piorar, mas também não estamos a reverter, ou seja, muitas espécies continham em risco”, sublinha a investigadora.

Galheta (Gulosus aristotelis), também conhecida como corvo-marinho-de-crista. Foto: © Paul F. Donald

Quais são as maiores ameaças?

Entre as muitas ameaças que afetam as aves marinhas – um dos grupos de animais oceânicos que têm sido mais estudados – algumas têm tido algumas melhorias. Como a questão das espécies invasoras em ilhas – por exemplo ratos e ratazanas – um dos locais mais procurados por estas aves para nidificarem.

“Felizmente que esta é uma questão que cada vez mais tem sido abordada e têm sido feitos esforços, inclusivamente em Portugal, para retirar as espécies mamíferas invasoras das ilhas”, afirma Maria Dias. Essa é aliás a ameaça que afeta mais espécies deste grupo e que apesar das melhorias, está longe de ser resolvida.

Outro dos grandes problemas é a captura acidental em artes de pesca, que apesar de medidas de mitigação em diversos países, continua a afetar fortemente estas aves. “As soluções já são muito bem conhecidas. A dificuldade depois está em passar à ação, implementar medidas no terreno e garantir investimento para que elas aconteçam.”

Cagarra (Calonectris diomedea) na Madeira. Foto: Hobbyfotowiki/WikiCommons

A investigadora destaca ainda um conjunto de desafios emergentes, como acontece com a expansão dos parques eólicos ‘offshore’ – ou seja, instalados no oceano – cuja instalação poderá alterar áreas de alimentação ou corredores migratórios utilizados por algumas espécies.

“A questão não é dizermos que não devem existir parques eólicos marinhos. É uma questão de planeamento”, sublinha. “É possível conciliar a transição energética com a conservação da biodiversidade.” A poluição por plástico e os surtos de gripe aviária preocupam também cada vez mais os especialistas.

No entanto, os cientistas enfrentam um outro obstáculo, patente no relatório agora divulgado: a dificuldade em compreender como é que tantas ameaças diferentes interagem entre si, uma vez que as diferentes equipas de investigadores que por todo o mundo estudam as aves marinhas, tem concentrado os seus esforços no estudo de temas muito diferentes, desde determinadas ameaças a populações regionais ou locais de uma espécie.

“Falta muito uma integração e uma visão global das ameaças e dos impactos cumulativos que estas têm”, afirma Maria Dias.

Cagarras, alcatrazes e painhos

Essa necessidade torna-se particularmente evidente em espécies como a cagarra (Calonectris borealis), uma das aves marinhas mais emblemáticas de Portugal. As populações que nidificam nas ilhas Selvagens passam apenas parte do ano no arquipélago e migram depois para as águas da África do Sul.

“Uma das dificuldades com as aves marinhas é que são muito móveis. Encontram problemas em muitas regiões diferentes e lidar com um problema só num país pode não ser suficiente”, explica a investigadora, para quem esse é um exemplo claro de como os desafios enfrentados por este grupo exigem cooperação internacional e uma visão que ultrapasse fronteiras.

Alcatraz (Morus bassanus), também conhecido por ganso-patola. Foto: © Paul F. Donald

Outras espécies são afetadas por ameaças diferentes. O alcatraz (Morus bassanus), por exemplo, preocupa atualmente os investigadores devido à combinação de vários fatores de pressão. Além de ser frequentemente afetado pela captura acidental em atividades de pesca, enfrenta também os impactos recentes da gripe aviária e poderá ser afetado pela expansão mal planeada de parques eólicos offshore.

Já o calcamar (Pelagrodoma marina), também conhecido por painho-de-ventre-branco, e outras pequenas aves marinhas do mesmo grupo, encontram-se entre as espécies mais vulneráveis à poluição por plástico. Estudos recentes têm revelado níveis preocupantes de ingestão destes resíduos, um problema que continua a aumentar.

Calcamar (Pelagodroma marina). Foto: © Paul F. Donald

Maria Dias destaca ainda a andorinha-do-mar-ártica (Sterna paradisaea), conhecida por realizar a mais longa migração do reino animal. A espécie percorre dezenas de milhares de quilómetros todos os anos entre o Ártico e a Antártida, simbolizando a extraordinária mobilidade das aves marinhas e a necessidade de proteger estas espécies ao longo de todo o seu ciclo de vida.

Para a investigadora, o futuro das aves marinhas vai depender cada vez mais da capacidade de integrar conhecimento produzido em diferentes regiões do mundo e de compreender os efeitos combinados das várias ameaças que afetam estas espécies.

Andorinha-do-mar-árctica (Sterna paradisaea). Foto: © Paul F. Donald

No que respeita à biodiversidade, o relatório divulgado esta segunda-feira aborda também a situação de muitos outros grupos ligados à biodiversidade marinha, incluindo o fitoplâncton e as populações de krill, os cefalópodes, os corais, as populações de peixes e os mamíferos e répteis marinhos, as plantas e as macroalgas.

Outros capítulos dão a conhecer o conhecimento científico mais recente sobre os recursos oceânicos, as principais ameaças e pressões, com destaque para as alterações climáticas, e também a influência dos ecossistemas marinhos sobre o ciclo do carbono.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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