A correspondente da Wilder, Fernanda Gamito, passeia pelo Parque Natural do Tejo Internacional e conta os motivos que a levaram a olhar com fascínio para este cantinho protegido de Portugal no início da primavera.
A caminho de Malpica do Tejo, já tudo é xisto, estevas em flor e rosmaninho. Cruzamos o Pônsul e estamos no território do Parque Natural do Tejo Internacional, mais de 26 mil hectares dedicados à conservação da Natureza, acompanhando o troço transfronteiriço do Rio Tejo, os rios Pônsul e Erges e a Ribeira do Aravil, seus afluentes.
No sítio da ponte velha, nas margens do Pônsul, estão exuberantes os pilriteiros em flor, envoltos em milhares de zumbidos, debaixo do sol do meio-dia.

Como lembram os primeiros painéis informativos do Parque, vamos entrar num “santuário da Natureza”, refúgio de muitas espécies, algumas ameaçadas, e aves protegidas por convenções internacionais.
Em Malpica, adivinha-se o Tejo num vale profundo, para lá das encostas declivosas de xisto e matagal mediterrânico, a 5km da aldeia. Não chegamos a avistá-lo, pois o tempo escasseia e os postos de abastecimento de combustível ainda mais, nesta região da Beira Baixa, uma das mais despovoadas do país.
De Monforte da Beira para Cegonhas alternam as pastagens, o montado de sobro, mas sobretudo o azinhal, onde canta a popa e esvoaçam pegas azuis na tarde calma e quente.
Os nomes das povoações – Cegonhas, Rosmaninhal – homenageiam a natureza pródiga, mas a estradinha por onde ninguém passa está em vias de extinção… já quase não se distingue, aos poucos conquistada pelas giestas que brotam dos restos de alcatrão. Nos pontos mais altos, a paisagem, contudo, compensa os tropeções: até onde os olhos podem avistar, há um mar de amarelo e roxo ondulando ao vento, intensamente perfumado de tojo-do-sul e de rosmaninho…

O cenário muda junto à Ribeira do Aravil. Galerias ripículas de tamujais, salgueirais, amiais, freixiais, são características dos cursos de água do Parque. Nesta ribeira, ladeada por galerias de borrazeira-branca ou salgueiro-branco (Salix salvifolia), um endemismo ibérico, a paragem é apressada pelo “nevão” de sementes envoltas em penugem que deixa tudo coberto de branco.
E finalmente a Raia, a linha de fronteira mais antiga da Europa que divide e aproxima Portugal e Espanha. Neste caso, a “raia húmida”, fronteira natural constituída pelo Erges que corre, selvagem, ao longo de 50km, e que, por estas bandas, escavou, durante milhares de anos, vales estreitos com paredes abruptas, os canhões fluviais.
A aldeia de Segura tem um Centro Interpretativo da Biodiversidade quase de frente para o canhão do Erges, rodeado de verde e de pequenos tesouros botânicos, como iremos descobrir.
Abril ainda agora começou e por isso não vemos o lírio-amarelo-dos-montes (Iris xiphium var. Lusitanica), mas os maios-pequenos (Gynandriris sisyrinchium) estão por todo o lado, em grupo ou misturados com pequenas herbáceas em flor.

Na mesa da receção do centro interpretativo, há um molhinho deles, colhidos há pouco para decoração; não sabe quem os apanhou que vão murchar rapidamente e nem com os pés de molho voltarão a abrir. Os pequenos maios-roxos, uma espécie muito antiga da família Iridaceae, são das flores mais efémeras que se conhecem; duram apenas algumas horas entre o meio-dia e o fim da tarde, quem sabe, guardando a memória de um tempo em que os polinizadores eram mais numerosos do que as flores…
A vereda florida que coincide com o caminho interpretativo do canhão do Erges revela agora um quadro magnífico: o céu sem nuvens reflete-se numa lagoa azul, protegida pelos penhascos graníticos que são a casa de águias, abutres e grifos planadores. Na erva fofa, esconde-se, rasteiro, o leite-de-galinha (Ornithogalum bourgaeanum, com uma área de ocupação bastante restrita).

E, surpresa (!), por entre as pedras que estiveram submersas neste Inverno, destacam-se vários ramalhetes do precioso junquilho (Narcissus jonquilla, em risco de extinção, segundo a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental).

Rumamos depois a norte, à procura de outro canhão do Erges que há-de estar frente a Salvaterra do Extremo. Manchas de olival tradicional e bosquetes de azinheiras com ar viçoso, em harmonia com os matos xerófitos, cobrem as encostas íngremes que se avistam deste “extremo” do mundo, em tempos muito mais povoado. Prova disso são as inúmeras construções de pedra seca, antiquíssimas, nos arredores da povoação e ao longo dos caminhos rurais que descem até ao rio: abrigos de pastores, furdas para os porcos, malhadas para ovelhas, muros que delimitavam terrenos e impediam que a circulação de animais estragasse sementeiras. Foram precisos muitos braços, solidariedade, tempo e engenho para tamanhas construções.
Oito países da Europa, entre os quais Espanha, conseguiram unir-se para inscrever a arte da construção em pedra seca na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (UNESCO), mas, por cá, ainda falta dar o devido valor a este património comunitário que podemos encontrar de Norte a Sul e também nas ilhas.
Seguimos, por fim, a Rota dos Abutres, até à Caseta, um antigo posto da guarda-fiscal. Neste ponto, há um observatório de aves de onde se avista de muito perto o vôo da águia-real, do grifo e do abutre-do-egipto que nidificam nas altas escarpas do canhão do Erges, a mais de 100 metros de altura, e talvez nas ruínas do cénico Castillo de Peñafiel, já ali do outro lado do rio-fronteira.


No fim do caminho, num território solitário e selvagem que fervilha de vida nesta Primavera, ficaremos com a impressão que somos nós os observados… talvez se nos deitarmos muito quietos no chão, as nobres aves venham investigar quem ousa perturbar os seus domínios…