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Conheça a história da associação que nasceu para criar bosques nativos

29.08.2025
leitura de 8 minutos
Foto: Plantar Uma Árvore

Há 13 anos nasceu a associação Plantar Uma Árvore porque um grupo de cidadãos anónimos quis fazer algo pela natureza depois de uma vaga de incêndios. Hoje estão a devolver bosques a 225 hectares pelo país. Esta é uma entrevista a Miguel Teles (presidente) e a Mariana Dias (vice presidente).

É um “cuidador de florestas” ou conhece quem seja? Gostávamos de contar a sua história. Envie as suas sugestões para [email protected]

WILDER: Como nasceu a associação Plantar Uma Árvore?

Miguel Teles e Mariana Dias: O projeto começou como um movimento de cidadania, em que cidadãos anónimos entenderam que deveriam fazer algo após mais uma vaga de incêndios. As evidências demonstravam que gerar bosques nativos seria a solução mais eficaz, simples e imediatamente disponível. O desafio era envolver entidades e cidadãos, a quem se pediu mobilização, participação e uma atitude cívica positiva e ecológica, em defesa da floresta nativa. Percebemos que este modelo era simples de executar e de replicar mas sentimos necessidade de profissionalizar o trabalho desenvolvido, assegurar intervenções continuadas no tempo e criar um conjunto diversificado de oportunidades e de envolvimento da comunidade, o que levou à constituição formal da associação.

Foto: Plantar Uma Árvore

W: Qual o papel que as florestas nativas deveriam ter em Portugal?

Miguel Teles e Mariana Dias: Partilhamos a visão de que as florestas nativas devem ser salvaguardadas para cumprir o seu máximo potencial consoante a região onde se inserem. Isto pode incluir todas, ou várias, destas funções: aclimatação regional e/ou nacional para manter a qualidade do ar, conter efeitos de “ilha de calor” e falta de precipitação; preservação de solo vivo e biodiverso essencial para ecossistema florestal e que sustenta os terrenos envolventes produtivos para atividades humanas; salvaguarda de parte importante da vida selvagem de fauna, flora e fungos que, de outra forma, não é possível existir e da qual as comunidades humanas também dependem de forma mais ou menos direta (ex.: controlo de pragas e doenças pela predação de alguns animais); salvaguarda das nascentes, cursos de água montanhosos e aquíferos – fontes de água doce frágeis que sem solos e vegetação consolidada correm o risco de secar; e barreiras naturais essenciais para prevenir catástrofes naturais como cheias, ventos fortes, tempestades de poeiras, entre outros que deverão aumentar de intensidade e frequência com as alterações climáticas. 

Não menos importante, é de considerar as florestas como espaços de usufruto humano consciente e sustentável para fins educativos das várias idades. É urgente reaproximar as pessoas e educar para o contacto com a natureza, só se protege o que se conhece. As florestas devem ser locais para promover a saúde pública, contrariando o sedentarismo e a vivência cada vez mais virtual que nas últimas décadas tem vindo a afetar a sociedade portuguesa, seja em contexto urbano ou rural, a nível mental, físico e emocional. Têm também um papel no ecoturismo informado e responsável. Não basta criar trilhos e praias fluviais, é essencial informar sobre como circular nesses locais sem criar dano e conter o excesso de afluência de necessário, como acontece noutros países. As florestas podem e devem também ser vistas como fontes de economia de promoção de empregos verdes, parte do nosso capital natural. 

W: De que forma contribuem para recuperar a floresta no nosso país? Que projetos de restauro estão em curso?

Miguel Teles e Mariana Dias: A nossa abordagem ao longos dos anos tem sido assente nestes princípios base para o que consideramos um restauro ecológico efectivo: reconhecimento dos danos e potencial de restauro do terreno a intervir, planeamento das estratégias de intervenção numa perspectiva de trabalhos sazonais e continuados no tempo e intervenções preferencialmente manuais e pouco evasivas. 

O ciclo de trabalhos varia consoante o terreno. Fazemos o controlo de invasoras desde germinação de sementes a porte adulto (como acácias, pitosporos, erva-das-pampas, entre outras), controle de infestantes (como o silvado, tojo ou fetos) em competição com nativas de elevado valor ecológico, identificamos e preservamos a regeneração autóctone selvagem, fazemos a remoção seletiva de madeira morta após tempestades ou morte de árvores, e fazemos plantações com árvores e arbustos autóctones. Além disto, podem ser feitas outras intervenções como aumentar a cobertura de solo em torno das plantações ou criar charcas para retenção de água em zonas mais áridas. 

Foto: Plantar Uma Árvore

De momento temos vários projetos ativos em Portugal continental, em alguns casos há mais de uma década. Por exemplo, temos projetos em curso em terrenos públicos – com vários talhões no Parque Natural de Sintra-Cascais, na Mata Nacional do Bussaco e na Serra do Alvão – e com um proprietário privado na região da Vidigueira. 

W: Quais têm sido os maiores casos de sucesso e quais os maiores desafios?

Miguel Teles e Mariana Dias: O maior caso de sucesso tem sido, indubitavelmente, o envolvimento da comunidade. Tem sido constante e em escala o que, por norma, é o grande desafio de um programa de voluntariado. Conseguimos envolver cidadãos comuns mas também o setor corporativo, escolas e universidades, entidades e grupos cívicos sociais e ambientais, entre outros, além de jovens europeus.

O maior desafio, salvo honrosas e louváveis exceções, tem sido o aparelho do estado, pautado por uma estrutura fossilizada, obsoleta, conservadora e prepotente, indisponível para colaborar, que emana abordagens e regras populistas, sem factualidade técnica e desprovidas de conhecimento científico, com resultados desastrosos e agravando problemas, negando-se a reconhecer o mérito do trabalho desenvolvido, menos ainda dar apoio operacional ou financeiro. Muitas vezes, sem qualquer justificação factual, destroem o trabalho de anos, nosso, da comunidade e da natureza.

W: Quais as principais razões pelas quais os voluntários aderem às vossas iniciativas?

Miguel Teles e Mariana Dias: A razão de adesão da comunidade às nossas iniciativas pauta-se por se proporcionar um envolvimento abrangente e continuado nas áreas em recuperação, permitindo-lhes envolver-se e perceber os trabalhos concretos e observar os resultados, independentemente dos desafios. Há um sentido de missão e uma gratificação face ao esforço e dedicação colocados pelos resultados palpáveis alcançados.

Foto: Plantar Uma Árvore

Mas, talvez, o envolvimento proporcionado ao nível das relações seja a chave do sucesso, pois, tal como um dos nossos motes, consideramos que este projeto é um ponto de encontro entre cidadãos que perfilham o mesmo esquema de valores, com os voluntários a encontrar nas iniciativas um envolvimento empático. Procura-se estabelecer uma relação de proximidade, pautada por uma estrutura horizontal aberta aos contributos da comunidade, com forte presença no terreno, que procura liderar pelo exemplo e que emana enorme paixão pelo trabalho e manifesta o seu reconhecimento pelo apoio dado pela comunidade.

W: O que a associação Plantar uma Árvore já conseguiu até agora?

Miguel Teles e Mariana Dias: A grande conquista da associação foi demonstrar que é possível, com o envolvimento da comunidade, mesmo com escassos recursos, alcançar resultados tangíveis, concretos e de valor, em termos de conservação da natureza, envolvendo diversas entidades estatais, apesar dos entraves, promovendo, simultaneamente, a cidadania participativa e informada.

As intervenções em curso estão afetas a 225 hectares e incluem áreas do domínio público, áreas protegidas privadas, baldios e propriedades particulares. Este modelo demonstra ser passível de ser aplicado a diversas realidades, constituindo um repositório de casos de sucesso passíveis de serem replicados em diversos contextos e realidades onde haja um acentuado nível de degradação ecológica da floresta nativa, independentemente dos fatores subjacentes.

Neste momento, a associação gere um banco de voluntariado com mais de 9.300 voluntários registados, abarcando uma comunidade com mais de 72.000 perfis, tendo como característica comummente reconhecida o elevado número de voluntários que mobiliza em continuidade, atuando como uma importante plataforma nacional de voluntariado ambiental.

Com uma longa e sólida experiência no desenvolvimento de programas de voluntariado, conta com 1.051 iniciativas realizadas com a comunidade, distribuídas por 16 áreas naturais em todo o território nacional, incluindo regiões insulares, que se traduzem em 34.131 voluntários envolvidos e 128.924 horas de voluntariado, considerando diferentes tipos de voluntários, como público em geral, organizações sociais e ambientais, escuteiros, escolas e universidades, instituições sociais e setor empresarial.

No que concerne ao voluntariado de longa duração, foram envolvidos 313 voluntários, que se traduzem em 16.494 dias de voluntariado e 74.348 horas de voluntariado.

W: Onde arranjam as árvores e os arbustos nativos para as plantações?

Miguel Teles e Mariana Dias: Ao longo dos anos temos trabalhado com um misto de parceiros nacionais e/ou fornecedores consoante os projetos em curso. De momento adquirimos plantas de dois viveiros nacionais, a Sigmetum na região de Setúbal e o viveiro dos Poetas em Vila Real. Trabalhar com ambos tem sido vantajoso para adquirir plantas de ecologias diferentes, seja de montanha ou mediterrânicas. Temos uma equipa residente na Mata Nacional do Bussaco a colaborar na produção local da Fundação. Desta forma asseguramos a preservação da diversidade genética, dado que as sementes são recolhidas in situ. No passado também recebemos plantas dos viveiros do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) para as ações de reflorestação das áreas protegidas nacionais onde já interviemos ao longo do tempo, como é o caso do Parque Natural de Sintra-Cascais e da Serra do Alvão. 

W: O que consideram que deveria ser feito para aumentar a área coberta por florestas nativas em Portugal?

Miguel Teles e Mariana Dias: A solução de fundo reside numa economia ambiental onde o restauro de ecossistemas seja o pilar fundamental e gerador de empregos na área da conservação da natureza. Há um potencial de riqueza comum intrínseca à paisagem e a um natural repositório de recursos assente na biodiversidade. É preciso pôr termo a um sistema predatório dos recursos, assente num esquema de pirâmide ambiental e de roubo intergeracional, em que os lucros são privatizados e os prejuízos socializados.

Foto: Plantar Uma Árvore

Existe a necessidade de fechar um ciclo que, inexoravelmente, tem que recair sobre as empresas que exploram os recursos e degradam o ambiente, tendo estas que pagar por tais danos, para que se consiga capitalizar uma economia ambiental assente no restauro ecológico.

Tal economia ambiental poderia, assim, ainda ir mais longe e retribuir os proprietários privados pelos potenciais serviços de ecossistema prestados e assim motivar uma tão necessária reestruturação fundiária, diminuir o abandono de terrenos e alavancar a reconversão para bosques nativos de áreas florestais ocupadas por exóticas invasoras ou por florestas de produção. Estas mostram ser um investimento de risco sujeito à volatilidade dos incêndios e, na realidade, nem sempre rentável.

W: O que gostariam de dizer a quem quer ajudar a transformar as nossas florestas?

Miguel Teles e Mariana Dias: Ao cidadão comum podemos apelar que procure juntar-se e dar apoio às organizações locais que, com paixão, esforço e dedicação, lutam pelas nossas florestas e constituem a melhor oportunidade de envolvimento e de reforço do que de melhor se faz em termos de conservação da natureza a nível nacional.

Aos proprietários privados, atores cruciais – dado que a área detida pelo estado, mesmo em áreas protegidas, é residual -, criar bosques nativos será, tal como foi para a associação, a solução mais eficaz, simples, económica e imediatamente disponível para gerar resiliência nos seus terrenos, contribuir para um território com maior biodiversidade e para uma paisagem mais rica e valor acrescentado.


Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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