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Projeto que quer trazer de volta o castor a Portugal está a concurso em votação internacional

05.11.2026
leitura de 4 minutos
Castor-europeu (Castor fiber) no Vale Peene, Alemanha. Foto: Rewilding Europe

A candidatura da Rewilding Portugal à votação da European Outdoor Conservation Association (EOCA), quer conseguir 30 mil euros para recuperar ribeiras, plantar milhares de árvores autóctones e melhorar os habitats para o regresso natural do castor. As votações estão abertas até 17 de novembro.

Todos os anos, a European Outdoor Conservation Association (EOCA) escolhe dois projetos de conservação da natureza para financiar com 30 mil euros cada um.

A votação pública arranca a 5 de novembro, às 12h00, e decorre até 17 de novembro, estando aberta à participação do público.

Este ano há nove finalistas, entre eles o projeto “The Beaver’s Return: Preparing Rivers for Their Expansion”, da Rewilding Portugal, previsto para o Parque Natural do Douro Internacional.

O grande objetivo é, segundo a Rewilding Portugal, “preparar os rios do Douro Internacional para o regresso natural do castor-europeu, uma espécie que desapareceu do território nacional há séculos”.

A organização explica, em comunicado, que quer “recuperar três ribeiras na região do Douro Internacional, através da remoção de árvores invasoras, da plantação de 5.000 árvores autóctones e da construção de duas pequenas estruturas inspiradas nos diques dos castores, destinadas a favorecer a retenção de água e a recuperação dos ecossistemas ribeirinhos”.

A candidatura surge numa altura em que o castor-europeu está a expandir naturalmente a sua distribuição na Península Ibérica, existindo registos recentes nas proximidades do Parque Natural do Douro Internacional.

Em junho de 2025, biólogos da Rewilding Portugal anunciaram ter conseguido o primeiro registo de castor-europeu (Castor fiber) no nosso país em 500 anos. Na altura, Pedro Prata, líder de equipa da Rewilding Portugal, contou à Wilder que em maio desse ano tinham encontrado “os primeiros indícios, que eram árvores e troncos roídos na margem do lado português, em frente ao estuário do Tormes”. Depois, as câmaras de foto-armadilhagem captaram vídeos e fotografias de, pelo menos, um indivíduo.

Agora, a organização quer “antecipar a possível chegada destes animais, melhorando as condições ecológicas dos cursos de água e permitindo que a espécie encontre habitats mais favoráveis à sua expansão”.

Preparar os rios para o regresso dos engenheiros da natureza

A Rewilding Portugal salienta que “os castores desempenham um papel fundamental na dinâmica dos rios e das zonas húmidas”. Com os seus diques nos cursos de água, estes animais “podem criar novos habitats, aumentar a retenção de água na paisagem e favorecer a biodiversidade”.

“A sua atividade pode beneficiar inúmeras outras espécies, incluindo anfíbios, aves, peixes e invertebrados, contribuindo simultaneamente para a recuperação de processos naturais e para uma maior resiliência dos ecossistemas perante períodos de seca.”

O problema é que muitos dos cursos de água que poderão vir a acolher o castor têm sinais de degradação, como espécies arbóreas invasoras e a perda de vegetação ribeirinha autóctone.

Por isso, este projeto da Rewilding Portugal pretende intervenções de restauro ecológico em três ribeiras do Douro Internacional. “Além da plantação de 5.000 árvores autóctones e da remoção de espécies invasoras, serão construídas duas pequenas estruturas inspiradas nos diques dos castores, procurando reproduzir algumas das suas funções ecológicas, nomeadamente a retenção de água.”

A organização esclarece que não está prevista a introdução ou libertação de castores em Portugal, mas sim a recuperação das condições naturais que poderão facilitar a sua futura expansão no território.

O regresso do castor

Tempos houve em que o castor vivia por toda a Europa, incluindo nos grandes rios da Península Ibérica, e era considerado uma espécie chave.

Em Portugal, o castor ter-se-á extinguido no século XV devido à destruição de zonas húmidas e à caça excessiva. No resto da Europa, o desaparecimento deste mamífero chegou mais tarde, no final do século XIX. A espécie viu-se reduzida a poucas populações fragmentadas devido, principalmente, à caça intensiva (por causa da carne, pêlo e óleo de castor).

A sorte do castor começou a mudar no início do século XX graças a projectos de reintrodução e translocação (movimentação de indivíduos de uma área para outra, para ajudar a restabelecer populações e recuperar territórios históricos).

O castor regressou à Península Ibérica em 2003, quando 18 animais foram libertados, de forma não oficial, no rio Aragão (comunidade de Navarra), vindos do Norte e Sudoeste da Europa. Em 2018, a Comissão Europeia declarou o castor uma espécie historicamente nativa e, depois disso, o Governo espanhol declarou o castor como espécie protegida. 

“O regresso do castor a Portugal é um símbolo de esperança e de mudança. Mostra que, se deixarmos espaço e tempo à natureza, ela responde. Cabe-nos agora garantir que este regresso seja bem acolhido e protegido”, reforçou, em 2025, Pedro Prata.

A candidatura portuguesa integra um conjunto internacional de projetos finalistas que procuram responder a alguns dos principais desafios de conservação da biodiversidade.

Entre os restantes candidatos estão iniciativas para trazer de volta a lontra a Itália; recuperar Doñana em Espanha; proteger a hirola, um dos antílopes mais ameaçados do mundo, no Quénia; recuperar zonas húmidas essenciais para a sobrevivência do gato-pescador, no Nepal; restaurar florestas submarinas de algas na Noruega; proteger pangolins ameaçados pelo tráfico ilegal no Laos; e recuperar florestas amazónicas no Peru, através da plantação de espécies nativas e do envolvimento das comunidades locais.

A European Outdoor Conservation Association é uma organização internacional que reúne empresas do setor das atividades ao ar livre e apoia financeiramente projetos de conservação da natureza em diferentes regiões do mundo.

A votação pública decorre entre 5 e 17 de novembro de 2026 e está aberta à participação de todos os interessados. A Rewilding Portugal apela “à mobilização dos cidadãos portugueses e da comunidade internacional”, sublinhando que “cada voto válido pode contribuir para assegurar o financiamento necessário à recuperação destes ecossistemas”.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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