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Quase todos os recifes de coral do planeta enfrentam elevado risco de colapso até 2075

23.10.2026
leitura de 4 minutos
Mergulhador e corais em Papa Bay, no Havai. Foto: Lindsey Kramer/Hawaii Wildlife Fund

Quase todos os ecossistemas de recifes de coral de águas pouco profundas avaliados em todo o planeta enfrentam um risco extremamente elevado de colapso até 2075, alerta a União Internacional de Conservação da Natureza (UICN).

Segundo a primeira avaliação global dos recifes de coral realizada no âmbito da Lista Vermelha de Ecossistemas da UICN, divulgada ontem, 96% estão classificados como Criticamente em Perigo.

Tartaruga em recife de coral no oceano Pacífico. Foto: Fernando A. Zapata

A análise abrange todos os ecossistemas de recifes de coral de águas quentes e pouco profundas, distribuídos por 127 ecorregiões tropicais e subtropicais, e inclui 188 362 km² de recifes de coral em todo o mundo.

De forma alarmante, os maiores e mais biodiversos ecossistemas de recifes de coral do planeta — incluindo os que se encontram na Grande Barreira de Coral, na Austrália, no Triângulo de Coral, no Pacífico ocidental e no Sudeste Asiático, no Sistema de Barreiras de Coral Mesoamericano e nos recifes do Mar Vermelho — estão todos classificados como Criticamente em Perigo, a categoria de ameaça mais elevada.

A avaliação estima o risco de colapso dos ecossistemas com base em observações históricas, nas condições atuais e em projeções futuras do aquecimento dos oceanos.

Segundo a UICN, “o stress térmico provocado pelas alterações climáticas é a ameaça mais constante à degradação dos recifes de coral em todo o mundo”.

A ameaça já é real e o aquecimento dos oceanos e as ondas de calor marinhas estão a provocar episódios de branqueamento em massa, que causam a morte generalizada de corais com frequência crescente.

“Os recifes de coral são um dos indicadores mais claros da saúde dos oceanos”, comentou, em comunicado, Grethel Aguilar, diretora-geral da UICN. “Sustentam um quarto de todas as espécies marinhas e funcionam como um sistema de alerta precoce sobre o estado dos mares.”

A responsável alertou que o seu declínio “está a privar inúmeras espécies dos alimentos, abrigos e locais de reprodução de que dependem, ao mesmo tempo que ameaça a segurança e os meios de subsistência das comunidades costeiras e fragiliza setores económicos fundamentais, como a pesca, a aquicultura e o turismo costeiro”.

Recife de coral na Polinésia Francesa. Foto: Mathilde Maslin

De acordo com a UICN, um ecossistema de recife de coral entra em colapso quando perde as características que o definem. Os corais duros, que constituem a estrutura viva e em crescimento do recife no fundo do mar, quase desaparecem, dando lugar a algas, detritos e esponjas. “Este processo transforma um ecossistema anteriormente próspero e complexo num sistema empobrecido. Consequentemente, deixa de conseguir sustentar uma vida marinha diversificada, afetando toda a cadeia alimentar, desde pequenos invertebrados, amêijoas e pepinos-do-mar até peixes de recife, tartarugas marinhas e grandes predadores, como tubarões e garoupas.”

A janela de oportunidade para agir está a fechar-se rapidamente

No entanto, Grethel Aguilar sublinha que “ainda não é tarde para dar aos recifes de coral uma oportunidade de recuperação”. “Sabemos o que é necessário: reduções ambiciosas das emissões, reforço da proteção e da recuperação dos recifes e investimento sustentado em ecossistemas costeiros resilientes e nas comunidades que deles dependem.”

Apesar das fortes pressões, os ecossistemas de recifes de coral na maior parte do mundo ainda não desapareceram.

“Se a avaliação tivesse em conta apenas as alterações observadas nos últimos 50 anos, excluindo as projeções climáticas futuras, 24% dos recifes seriam classificados como Criticamente em Perigo, em vez de 96%”, recorda a UICN. A organização defende que uma “ação climática ambiciosa, combinada com medidas de conservação direcionadas, ainda pode fazer a diferença”.

Para Mishal Gudka, responsável científico pela avaliação global da Lista Vermelha de Ecossistemas de Recifes de Coral da UICN, “o risco de colapso dos recifes de coral está a aumentar, mas isto deve servir de alerta, não de motivo para desespero”.

Mergulhador e corais em Papa Bay, no Havai. Foto: Lindsey Kramer/Hawaii Wildlife Fund

E recorda: “os recifes de coral demonstraram uma capacidade extraordinária de recuperação após episódios de branqueamento devastadores. Ainda poderão existir, no futuro, áreas onde sobrevivam recifes resilientes; por isso, temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para lhes dar condições para prosperarem”.

Por isso, a UICN este responsável apela à ação das autoridades nacionais e locais. Considera crucial que mantenham as águas costeiras limpas e livres de poluição e que garantam que a pesca é sustentável.

Por exemplo, em regiões como a Ásia Oriental, o oceano Índico ocidental, as Caraíbas e o Brasil, a exploração excessiva de grupos importantes de peixes, como os peixes-papagaio e as garoupas, é uma ameaça atual significativa. “Estas espécies herbívoras e predadoras ajudam a controlar as algas que competem com os corais e a manter o equilíbrio da cadeia alimentar marinha. No entanto, a redução das populações de peixes está a perturbar o equilíbrio ecológico dos recifes e a comprometer a sua capacidade de recuperação após o stress térmico, ameaçando 63% dos ecossistemas de recifes de coral.”

Além disso, “o desenvolvimento costeiro, a poluição, o turismo excessivo, a atividade industrial, a aquicultura, as tempestades mais frequentes, as inundações de água doce e os surtos de estrelas-do-mar-coroa-de-espinhos são também ameaças importantes, que contribuem para a degradação dos recifes e para desequilíbrios ecológicos”.

A Lista Vermelha Global de Ecossistemas de Recifes de Coral foi coordenada pela UICN, reuniu mais de 250 especialistas e abrangeu recifes em mais de 80 países e territórios.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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