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Reparar na natureza: Luís Cardoso e as borboletas

02.10.2026
leitura de 6 minutos

Há pessoas que aprenderam a reparar em coisas que a maioria de nós não vê. Como é que podemos aprender a fazer o mesmo? No primeiro artigo da nova série da Wilder “Reparar na Natureza”, deixe-se inspirar pela história de Luís Cardoso e como o fascínio pelas borboletas mudou a sua vida.

Há pessoas que parecem ver mais do que nós. Reparam na borboleta, reconhecem a ave pelo canto, descobrem a aranha escondida ou sabem o nome da planta. Não é porque tenham um talento especial. É porque aprenderam a reparar.

Nesta série, sempre às sextas-feiras, vamos conhecer algumas dessas pessoas e descobrir o que as fascina, como começaram, o que aprenderam a ver que dantes não viam e os encontros com a natureza que nunca vão esquecer.

As histórias destas pessoas são um convite para que também nós comecemos a reparar mais. Porque, quando aprendemos a olhar com atenção, a natureza à nossa volta torna-se maior.

O mundo natural já está aqui. Talvez só precisemos de aprender a vê-lo.

Hoje, damos-lhe a conhecer Luís Cardoso, 37, Engenheiro Informático, natural de Castelo Branco.

Luís Cardoso. Foto: D.R.

WILDER: Lembras-te da primeira vez que reparaste verdadeiramente no mundo natural, em especial nas borboletas?

Luís Cardoso: A primeira vez que reparei realmente nos aspectos mais subtis da natureza, como flores e borboletas, foi na primeira primavera depois de ter mudado para a zona rural onde moro atualmente, em Penela. Foi na altura do Covid, então acabei por passar muito tempo a caminhar por aqui. Começei por reparar nas flores, em particular nas orquídeas silvestres. Mas mais para o final da primavera elas começam a murchar e foi aí que me virei para as borboletas que, nessa altura do ano, são muito abundantes.

Foto: Luís Cardoso

W: O que te motivou a começar a reparar na natureza?

Luís Cardoso: Além de me mudar para um local com uma biodiversidade muito grande, um dos fatores determinantes foi a aplicação iNaturalist. Esta permitiu-me começar a identificar as plantas e depois as borboletas que encontrava nelas de uma forma interactiva e incremental.

Outro fator importante foi a fotografia. O desejo de conseguir capturar a beleza que via era uma das coisas que me levava a sair para o campo.

W: O que sabias antes de começar?

Luís Cardoso: Na verdade, sabia muito pouco. A minha formação é em Engenharia. Foi quando comecei a fotografar e a identificar as diferentes espécies que também procurei aprender mais sobre ecologia e restauro de natureza.

W: Há alguma espécie ou comportamento em específico que te deixe maravilhado?

Luís Cardoso: Imensos! Dava para escrever um livro sobre isso.

Uma coisa que me fascinou imenso quando aprendi sobre isso é que, tal como as aves, as borboletas (e muitos outros insectos) são migradoras, algumas até atravessam continentes. Um dos exemplos mais carismáticos é o da Vanessa cardui, uma espécie que migra de África para a Europa. Este ano, por causa das chuvas no deserto, a Vanessa cardui teve um boom populacional e em junho fomos presenteados com uma abundância muito acima do normal desta espécie. Num prado de flores silvestres que criei aqui eram às dezenas!

Bando de Vanessa cardui a alimentar-se em saudades-roxas. Foto: Luís Cardoso

Outro comportamento muito interessante de algumas espécie de borboletas é que elas pairam no ar como colibris quando se estão alimentar. Foi algo que até eu ver ao vivo nunca me tinha passado pela cabeça que houvesse insectos com essa capacidade de controlo de voo.

Mas há mais! Uma dessas espécies, a Hemaris fuciformis, tem escamas transparentes nas asas, algo que mais nenhuma das nossas borboletas de voo diurno tem desta forma. Há ainda a curiosidade taxonómica de que estas espécies de “borboletas colibri” pertencem, na verdade, a uma família de borboletas noturnas e não de borboletas diurnas (apesar de voarem de dia).

Hemaris fuciformis. Foto: Luís Cardoso

W: O que é que vês hoje que, provavelmente, não terias visto quando começaste por te passar despercebido?

Luís Cardoso: Antes, 95% da diversidade de espécies passava-me completamente ao lado. Conseguir começar a ver a diversidade natural é um processo que ainda demora algum tempo e que passa por aprender e ver ao vivo parar dar o “clique”. Fico sempre fascinado quando isso me acontece e, de repente, passo a ver essa espécie em todo o lado. Este ano tive alguns desses casos. Um dos mais marcantes foi o da Callophrys avis, uma borboleta difícil de ver devido à sua camuflagem e que se costuma encontrar perto de medronheiros, a sua planta hospedeira.

Uma Callophrys avis a colocar ovos num medronheiro. Foto: Luís Cardoso

W: O que é que as pessoas normalmente não reparam?

Luís Cardoso: Temos borboletas lindíssimas que passam por nós e achamos que é só um “bicho”. Infelizmente, a grande maioria das pessoas nunca vai ter o prazer de as poder observar e de apreciar a sua beleza. Essa é uma das razões que me leva a organizar caminhadas interpretativas de observação e que me levou à criação do guia fotográfico das borboletas de Penela e do site Borboletas de Coimbra. É fundamental mostrar a mais pessoas estes insectos fabulosos que temos no nosso país.

Uma Zerynthia rumina, típica do início da primavera. Foto: Luís Cardoso

W: Qual foi o encontro com a natureza que nunca mais esqueceste?

Luís Cardoso: Encontrar espécies raras é sempre especial. Por exemplo, este ano na EBIO de Serapicos, concelho de Vimioso, numa caminhada que organizei com o PINTA, tive a sorte de ver vários indivíduos da Glaucopsyche alexis. Em Portugal ver um único exemplar desta borboleta seria motivo para celebrar, mas ver assim várias no mesmo local foi algo que realmente me marcou.

Glaucopsyche alexis. Foto: Luís Cardoso

W: De que forma a tua vida mudou, e é mais rica, por teres aprendido a reparar neste mundo? Consegues integrar este gosto por explorar a natureza no teu dia-a-dia?

Luís Cardoso: Poder experiênciar a beleza natural que nos rodeia é, sem dúvida, um grande privilégio. É algo fundamental na minha vida e na manutenção da minha saúde mental. Mas mais que isso, é algo que me dá também um propósito muito claro para proteger e conservar algo que me faz tão bem. Sempre que posso, tento encaixar uma pequena caminhada na natureza no meu dia. Ter o privilégio de morar numa zona rural torna isso muito mais fácil. O compromisso de fazer a monitorização de borboletas diurnas e noturnas também me obriga a sair de casa, mesmo quando estou com preguiça.

W: Se pudesses ensinar uma única coisa a alguém que quer começar, o que seria?

Luís Cardoso: A usar a aplicação iNaturalist no telemóvel. Não só é uma fantástica forma de aprendermos como também de contribuirmos para o conhecimento sobre a distribuição das espécies e até de descobrir espécies novas (como foi o caso recentemente com uma espécie de Linaria no Algarve).

W: O que pode estar a dificultar uma aproximação das pessoas à natureza?

Luís Cardoso: Na minha opinião falta-nos uma peça fundamental na nossa educação: literacia ambiental e, em particular, sobre os valores naturais do nosso país. Aprendemos sobre espécies exóticas e ficamos com a sensação de que natureza interessante é algo que temos de ir ver a outro país.

Acredito que grande parte da população não faz a mínima ideia da riqueza imensa que temos a nível de plantas endémicas, por exemplo. E quem não conhece não vai à procura e nem sequer pensa em que seja preciso proteger.

Campanula primulifolia. Foto: Luís Cardoso

W: Que conselhos dás a quem quer começar?

Luís Cardoso: Sugiro, além do iNaturalist, que as pessoas procurem associações locais onde se possa fazer voluntariado e assim contribuir ou então que participem em caminhadas ou em outras atividades locais. Aprender com alguém que já sabe é muito mais interessante. Na zona de Lisboa, o Tagis tem sempre atividades interessantes. Na zona Centro, a MilVoz ou o Jardim Monte Formoso têm atividades regulares e sempre muito interessantes.


Agora é a sua vez.

Se é daquelas pessoas que sabem e gostam de reparar na natureza, ou em alguns animais ou plantas em especial, contacte-nos através do nosso email [email protected]. Gostaríamos de contar a sua história.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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