Tornar os edifícios das nossas cidades mais amigos destas aves insectívoras migradoras é uma das necessidades identificadas pelo Andorin, projeto que em outubro fará quatro anos e que acaba de se associar à Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA-Birdlife). A Wilder falou com Vasco Flores Cruz, ligado ao projecto desde o seu início, para saber o que isto representa.
A relação de Vasco Flores Cruz com as andorinhas e andorinhões começou quando andava na universidade. “Estudava num quarto virado para uma colónia de andorinhões. Na altura sabia muito pouco sobre andorinhões. Mas mesmo assim, só de olhar para eles, percebi que são animais incríveis”.
Numa conversa à Wilder, este ecólogo e coordenador do projeto Andorin, falou da capacidade de voo destas aves. “Comecei a perceber que eles não poisam nunca, e que percorriam grandes distâncias num só dia. Por exemplo, os andorinhões que moram ao pé da minha casa podem ir almoçar, por assim dizer, ao Gerês e voltar. São quase 60 ou 70 quilómetros de distância em linha reta.”
Mas são aves admiráveis e incríveis também pela sua relação connosco e é precisamente isso que fascina Vasco Flores Cruz. Estes “são animais muito importantes na relação que temos com a biodiversidade, que é mútua. Nós disponibilizamos locais de nidificação para as aves, com os edifícios que construímos, e elas devolvem-nos o favor alimentando-se dos invertebrados que são vetores de doenças ou de pragas agrícolas e florestais”.
O Andorin foi lançado em outubro de 2022 pela associação Vita Nativa e desde então tem trabalhado para conhecer melhor e conservar as cinco espécies diferentes de andorinhas e seis espécies de andorinhões que ocorrem em Portugal.
Com uma equipa de seis pessoas – Vasco Flores Cruz, Alexandre H. Leitão, Bruno Herlander Martins, Fábia Azevedo, Paulo Belo e Thijs Valkenburg – o Andorin associa-se agora a uma organização maior, a SPEA-Birdlife, através de um protocolo de cooperação.
“Passa a ser possível chegar a um público mais abrangente e aumentar o alcance do projeto. E isso é muito interessante”, comentou o coordenador do Andorin.
A associação é benéfica ainda para não duplicar trabalho. “Ao longo do tempo temos partilhado as denúncias e os pedidos de ajuda. Uns chegam à SPEA, outros chegam ao Andorin e muitos chegam em duplicado. Até agora estávamos muitas vezes a responder ambos à mesma pessoa a dizer a mesma coisa.”
Outro dos desejos é apostar na educação para o desenvolvimento. Vasco Flores Cruz lembrou que “as andorinhas e os andorinhões, enquanto espécies insectívoras e migratórias, prestam importantes serviços ambientais, tanto no hemisfério sul como no hemisfério norte. Nunca tínhamos conseguido fazer nada dentro dessa temática. Ainda não temos nada pensado mas esta mudança possivelmente poderá abrir portas também neste assunto”. O coordenador do projeto sublinhou que todos trabalham em conjunto, quem protege os locais de alimentação das aves migratórias no inverno e quem defende os seus locais de nidificação na época de reprodução.
“Gostávamos de ter as andorinhas e os andorinhões como uma espécie de embaixadores das aves migratórias e esta parceria pode facilitar que isso aconteça.”
Mais locais de nidificação (protegidos) nas cidades
Para Vasco Flores Cruz, não há propriamente falta de locais de nidificação para estas aves no nosso país, mas “há falta de locais de nidificação que estejam protegidos”.
Este é um problema que afeta, sobretudo, os andorinhões. “Uma vez que os seus ninhos não são visíveis, acontece com muita regularidade obras em edifícios destruirem colónias de nidificação. Mesmo durante o período de nidificação, os promotores das obras não se apercebem da presença das aves até que a obra já vai a meio. Ora isto tem um impacto enorme nas populações destas aves.”
Outra questão tem a ver com os edifícios que estão a ser construídos. “Estes poderiam incluir condições de nidificação para andorinhas e andorinhões que, de maneira nenhuma, comprometem a qualidade de vida das pessoas que lá moram.”
Na verdade, notou o responsável, apesar de isto ser já posto em prática noutros países, “em Portugal ainda não há exemplos de edifícios que sejam pensados dessa maneira. E gostávamos de promover esse tipo de construções”.
Vasco Flores Cruz acredita que a recente lei do restauro da natureza nas cidades pode ser um contributo. Seria muito importante, “até pelos serviços ecossistémicos que estas aves prestam, nomeadamente controlando os invertebrados que nos causam prejuízos”.
“Temos de preservar a biodiversidade em meio urbano, não só as andorinhas e andorinhões, mas os morcegos também. Estas espécies insectívoras têm um papel fundamental e esta nova lei poderá ajudar a preservá-las.”
Quatro anos de trabalho
O projecto Andorin quer recolher o máximo possível de informações sobre os locais onde nidificam as andorinhas e os andorinhões em território português, através de uma iniciativa de ciência cidadã.
De 2023 a 2025, o projeto contou com a participação de 394 pessoas um pouco por todo o país. Segundo o relatório de registo de ninhos, foram identificados 3500 edifícios ou estruturas com ninhos, estimando-se a existência de cerca de 43.000 ninhos.
Entre as espécies acompanhadas pelo Andorin destaca-se o andorinhão-da-serra (Apus unicolor), a última das cerca de 200 espécies de aves autóctones a ser identificada como nidificante regular em Portugal continental. Até há poucos anos, a espécie era conhecida como nidificante apenas na Madeira e nas Canárias. A partir de dezembro de 2019, observações regulares no Porto levaram Paulo Belo a iniciar uma procura sistemática, que permitiu identificar o primeiro local de nidificação conhecido na Europa continental.
Ao longo dos últimos quatro anos, o Andorin promoveu uma campanha de ciência cidadã para identificar ninhos e colónias de andorinhão-da-serra. Estão já registados cerca de 50 locais de nidificação em Portugal, incluindo o arquipélago da Madeira.
O projeto esteve também na origem da primeira intervenção de restauro de um edifício em Portugal com soluções de nidificação para aves integradas na própria estrutura. A intervenção decorreu na Rua de Sá da Bandeira, no Porto, e permitiu preservar uma colónia ameaçada por obras de renovação.
No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, foi ainda instalado um sistema de monitorização acústica para estudar a utilização dos ninhos por três espécies: o andorinhão-preto, o andorinhão-pálido e o andorinhão-da-serra.
O projeto apoia igualmente uma investigação com dispositivos de seguimento por GPS, recolha de dados biométricos e análises genéticas. O objetivo é compreender os movimentos destas aves e esclarecer a origem da população que nidifica no continente e a sua relação com as populações da Madeira e das Canárias.