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Falcão-lanário, um fantasma em Castro Verde

17.09.2026
leitura de 10 minutos
Falcão-lanário. Foto: Vasco Valadares

Ver um falcão-lanário (Falco biarmicus) em Portugal é um feito raro. Este falcão, ligeiramente maior que o falcão-peregrino, tem apenas sete registos homologados pelo Comité Português de Raridades. Vasco Valadares conta a história de como observou um em Castro Verde, em agosto.

Há histórias de aves raras que começam com uma grande expedição, semanas de preparação e uma logística digna de uma missão espacial. E depois há aquelas que começam, como quase todas estas histórias começam, com uma mensagem no grupo das Raridades do WhatsApp.

Foi assim que, no dia 11 de agosto, apareceu uma fotografia de um falcão observado nos arredores de Castro Verde, no Alentejo. A fotografia não deixava grandes dúvidas quanto à identificação. O autor da observação era um observador estrangeiro, de passagem por Portugal. Tinha acabado de encontrar uma daquelas aves que parecem ter feito um pacto com o diabo para nunca serem vistas por mais ninguém.

Era o falcão-lanário (Falco biarmicus).

Falcão-lanário (Falco biarmicus). Foto: Vasco Valadares

O problema dos falcões-lanários, neste caso daquele falcão-lanário, era de que a ave tinha espaço. Muito espaço. Quilómetros e quilómetros de Alentejo por onde desaparecer. E, tratando-se de uma ave críptica e com um historial pouco recomendável no que diz respeito a segundas oportunidades, a probabilidade de chegar ao local e encontrá-la tranquilamente pousada à espera dos observadores não parecia propriamente elevada.

Por isso, a minha decisão foi simples: não ir.

Porém, no dia seguinte, o Miguel Berkemeier decidiu tentar a sorte. Eu, entretanto, mantive a minha posição. Lembro-me de pensar que não ia atrás de um falcão para o meio do Alentejo. Desejei-lhe, naturalmente, a maior sorte.

A sorte, contudo, não apareceu. O Miguel foi e não viu o falcão. 

Passou mais um dia. Depois outro. E outro. Silêncio absoluto.

Até que, no dia 14 de agosto, o Pedro Marques, verdadeiro agitador das águas, decidiu passar pelo local. E encontrou-o. O falcão continuava lá.

A notícia caiu no grupo como uma pequena bomba. Afinal, a ave que tínhamos decidido não perseguir continuava pacientemente em Castro Verde, indiferente às nossas hesitações. A observação do Pedro foi de manhã, antes das nove, e outros observadores voltaram ao local. Um conseguiu vê-la depois do meio-dia, outros ao fim da tarde.

Ou seja: não só a ave permanecia na zona como estava a demonstrar uma certa disponibilidade para ser observada.

Foi então que apareceu uma mensagem de Pedro Ramalho, tido como o guru do birdwatching nacional, a dizer que iria a Castro Verde no fim-de-semana.

Pronto. Estava decidido. Se o guru ia, eu também podia tentar. Assim, no dia seguinte, lá fomos nós: eu, o Pedro, a Teresa e o Miguel.

A operação foi montada ao contrário de tantas outras, com calma e tempo… E lá acertámos as coisas do costume: combinações de carros, pontos de encontro, quem apanha quem, por que ponte se passa, onde nos juntamos e, sobretudo, a esperança de que o bicho continuasse no mesmo sítio.

Chegámos ao local, onde se viam vários observadores.

Foto: Vasco Valadares

– Está aqui, está aqui!

Excelente.

– Onde?

– Ali no poste.

Melhor ainda.

– Mas está aqui agora?

– Estava aqui agora. Depois voou ali para trás. Depois voltou a voar. Mas está aqui na área.

Ah.

“Na área” é uma expressão que, em birdwatching, pode significar praticamente tudo.

Montaram-se telescópios. Pegaram-se nos binóculos. Começaram as buscas pelos postes, árvores e pontos altos da paisagem. E vieram mais daquelas descrições que só ajudam parcialmente:

– Estava aqui.

– Depois apareceu naquele poste lá ao fundo.

– Não, acho que foi mais para trás.

– Passou por ali.

O falcão, obviamente, não estava em lado nenhum.

Fomos ocupando diferentes posições, uns mais para a esquerda, outros para um ponto ligeiramente mais alto, mas todos num raio relativamente pequeno. Passaram-se minutos. Depois meia hora. Depois uma hora.

Nada.

Alguns dos observadores que já estavam no local quando chegámos também começavam a ficar ansiosos porque também não tinham visto o falcão. Apenas os madrugadores tinham conseguido observá-lo.

Começámos então a fazer aquilo que os observadores de aves fazem quando uma ave não aparece: andar de carro para trás e para a frente.

Vamos ali e acolá. Talvez esteja naquele poste. Talvez tenha passado para aquele lado. Mais uns metros. Mais uma pequena caminhada.

Leva o telescópio. Carrega o telescópio. Volta ao carro.

Entretanto, o sol apertava. E com o calor aumentava também uma pergunta pouco animadora: será que o falcão tinha uma rotina? Será que aparecia de manhã e depois desaparecia durante as horas mais quentes?

Continuámos a procurar.

A certa altura, os meus companheiros de boleia decidiram avançar mais um pouco para inspecionar outras zonas. Eu decidi não ir e fiquei para trás, num ponto onde conseguia manter uma boa visão dos dois locais onde a ave tinha sido observada nessa manhã.

Como sempre nestas situações, mantivemos contacto.

E foi então que chegou um telefonema para um amigo que estava ali ao lado:

– O Bruno está a vê-lo ali em cima, num poste!

Problema: eu não tinha carro.

Os meus colegas tinham levado o carro e eu tinha ficado para trás. Mas havia um carro ali perto. E, perante uma notícia destas, quem ali estava entrou no carro.

Telescópio, máquinas fotográficas, binóculos – tudo foi arrumado à pressa, com aquela eficiência desorganizada que só aparece quando alguém acaba de dizer que está a ver a ave que estamos fartos de procurar.

Arrancámos. Chegámos ao local.

– Onde é que está?

– Estava ali.

– Onde?

– Ali.

– Mas agora?

– Agora já não.

Silêncio.

O homem que tinha visto o falcão tinha voltado para trás para nos ir buscar, não sabendo que tínhamos um carro ao dispor. Quando regressou, a ave já tinha desaparecido.

Mais uma vez, o falcão-lanário confirmava a sua reputação.

Fantasma.

Ficámos ali alguns minutos, sem grande esperança. Até que alguém reparou numa coisa a voar.

Havia árvores pelo meio e a visibilidade não era grande coisa.

– Parece-me que é ele.

A ave aproximava-se.

– Vem ali. Vem ali.

Binóculos.

E, desta vez, não havia dúvidas.

Era ele.

Falcão-lanário (Falco biarmicus). Foto: Vasco Valadares

O falcão-lanário apareceu finalmente diante de nós, em voo, aproximando-se e passando por cima da zona onde estávamos. Ainda consegui fazer algumas fotografias razoáveis enquanto a ave continuava a aproximar-se.

Peguei no telefone. Era altura de avisar os outros.

– Pedro, ele está a ir na vossa direção! Ele estava aqui mesmo agora! E voou na vossa direção, venham para cá e olhem à vossa volta!

Regressámos ao ponto inicial.

Pouco depois chegaram o Pedro, a Teresa e o Miguel. Tinham vindo até nós sem terem conseguido ver o falcão pelo caminho. A notícia não era propriamente boa.

– Não viram?

Não.

Era aquela situação dolorosa: quando conseguimos ver uma ave rara, queremos que os outros a vejam também. Quando conseguimos fotografá-la, queremos que todos tenham também a sua fotografia. Afinal, uma raridade destas não é apenas uma espécie numa lista. É uma experiência partilhada.

E, naquele momento, a experiência ainda não estava completa.

Passou um minuto. Depois dez. Depois meia hora. E nada. O falcão desapareceu novamente…

Alguns beberam qualquer coisa. Outros comeram. O calor apertava. A ave continuava ausente. Eu estava contente por finalmente ter conseguido vê-la, mas simultaneamente chateado por os meus companheiros ainda não terem tido essa oportunidade.

Até que, vindo precisamente da mesma direção de onde nós tínhamos visto a primeira ave, apareceu novamente uma silhueta.

Mais uma vez, era ele.

Falcão-lanário (Falco biarmicus). Foto: Vasco Valadares

O falcão começou a voar e, quando chegou por cima de nós, começou a descrever algumas voltas largas. Entrou numa térmica e permaneceu ali durante vários minutos, subindo lentamente e oferecendo vistas de baixo, de lado e, durante algumas das voltas, também do dorso.

A luz já era alta e forte e as fotografias estavam longe de ser perfeitas. Mas, naquele momento, ninguém queria saber disso.

Pelo telescópio uns acompanhavam a ave, outros com binóculos também. As máquinas disparavam.

– Vê-se bem a face!

– Olha para aquelas penas!

– Agora está a virar!

Finalmente, todos tinham o seu momento. O fantasma tinha decidido aparecer.

E, depois de uma manhã inteira de postes vazios, deslocações, carros, telescópios carregados ao sol, falsas esperanças e informações do género “está aqui, mas agora já não está”, o falcão-lanário estava finalmente a fazer aquilo que todos queríamos: voar diante de nós.

Falcão-lanário (Falco biarmicus). Foto: Vasco Valadares

Até os restantes habitantes alados da paisagem pareciam ter decidido colaborar. Pelo caminho passaram grifos, abutres-do-Egito e alguns abutres-pretos, proporcionando boas observações e alguns registos fotográficos. Mas, naquele momento, o protagonista era outro.

O Falco biarmicus tinha cumprido a sua reputação. Críptico, esquivo, imprevisível.

Um verdadeiro fantasma.

Só que, desta vez, o fantasma deixou-se ver por todos.

E assim terminou mais uma perseguição a uma raridade que, inicialmente, ninguém queria perseguir.

Entrámos nos carros, já com outra disposição, e seguimos para Castro Verde para aquilo que, depois de uma manhã daquelas, era tão importante como a própria ave: uma bela comida alentejana.

No final, ficou mais uma espécie, mais umas fotografias, muitas horas de procura e uma história para contar.

E ficou também uma pequena lição para futuras raridades no Alentejo: quando alguém mandar uma mensagem a dizer que apareceu um falcão críptico em Castro Verde, talvez seja melhor não dizer logo que não se vai.

Porque, às vezes, o fantasma fica.

E às vezes até espera por nós.

O falcão-lanário

O falcão-lanário (Falco biarmicus), também conhecido por alfaneque, é um dos maiores e mais impressionantes falcões que podem aparecer na Europa. É uma espécie de distribuição essencialmente africana, com uma população europeia muito mais reduzida, concentrada sobretudo no Mediterrâneo oriental e central, nomeadamente em Itália e nos Balcãs, estendendo-se para a Turquia e outras regiões do sudoeste asiático. No Norte de África ocorre a subespécie Falco biarmicus erlangeri, enquanto a população europeia está sobretudo associada à subespécie F. b. feldeggii. A espécie encontra-se ainda amplamente distribuída por África, desde as regiões subsaarianas até ao extremo sul do continente.

Ao contrário de muitos dos falcões que estamos habituados a associar a grandes movimentos migratórios, o falcão-lanário é essencialmente sedentário. As populações adultas tendem a permanecer próximas dos territórios de reprodução, embora os juvenis e alguns indivíduos não reprodutores possam realizar movimentos de dispersão consideráveis. Na Europa, portanto, não existe uma rota migratória regular comparável à de espécies como o falcão-vespertino ou a ógea. No entanto, a proximidade entre o Norte de África e a Península Ibérica permite que indivíduos, sobretudo jovens, atravessem o estreito de Gibraltar ou realizem movimentos de dispersão para norte. O próprio Comité Português de Raridades considera que os registos portugueses estão de acordo com o que é observado em Espanha e com a presença de juvenis desta espécie a atravessar o estreito de Gibraltar.

É uma ave associada sobretudo a paisagens abertas, como estepes, savanas, zonas agrícolas, pastagens e áreas semiáridas, geralmente com escarpas ou outras estruturas elevadas disponíveis para nidificação. Pode nidificar em paredes rochosas e falésias, mas também utilizar árvores, ninhos abandonados de outras aves ou estruturas construídas pelo homem. Na época de reprodução, alimenta-se principalmente de aves de pequeno e médio porte, embora também capture morcegos e uma variedade de outros animais.

Em termos de dimensões, é um falcão grande e robusto, ligeiramente maior que o falcão-peregrino. Mede aproximadamente 43–52 cm de comprimento, com uma envergadura na ordem dos 95–115 cm. Existe também um dimorfismo sexual considerável: as fêmeas são maiores e mais pesadas, podendo atingir cerca de 700–900 g, enquanto os machos pesam habitualmente cerca de 500–600 g.

A plumagem é uma das melhores pistas para a sua identificação. Nos adultos, as partes superiores são predominantemente cinzento-azuladas ou cinzento-acastanhadas, contrastando com as partes inferiores claras. A cabeça apresenta uma característica tonalidade castanho-avermelhada na nuca, acompanhada por uma máscara facial escura. Nos juvenis, o peito e as partes inferiores apresentam manchas ou estrias escuras. Os juvenis são globalmente mais castanhos, podendo, em determinadas condições, levantar problemas de identificação com outros grandes falcões.

O falcão-lanário em Portugal

Em Portugal, o falcão-lanário é uma raridade excepcional. Não existe uma população reprodutora conhecida no país e as observações são tratadas pelo Comité Português de Raridades como sujeitas a homologação.

Segundo o Portal Aves de Portugal, até ao final de 2023 tinham sido homologados sete registos pelo CPR. Este portal apresenta ainda quatro outras observações, que não integram os sete registos homologados. Assim, se contabilizarmos todas as observações atualmente apresentadas pelo portal, chegamos a 11 registos/observações, mas apenas 7 foram oficialmente homologados pelo CPR.

A história portuguesa da espécie é, portanto, bastante peculiar: trata-se de um falcão que não é propriamente migrador, mas que pode aparecer muito longe das suas áreas habituais de reprodução, sobretudo através da dispersão de aves jovens.

E, num país onde a espécie é tão rara, cada aparecimento ganha imediatamente uma grande importância. Os registos portugueses concentram-se sobretudo no Alentejo e Algarve, embora exista também um registo no norte da região de Lisboa, na lezíria de Vila Franca de Xira.

A presença de vários juvenis entre os registos portugueses é particularmente interessante e está de acordo com a hipótese de movimentos de dispersão a partir das populações do Norte de África e do Mediterrâneo.

Por isso, encontrar um falcão-lanário em Portugal não é simplesmente encontrar mais um falcão. É estar perante uma das grandes raridades de rapina que podem surgir no país – uma espécie que, apesar de ter uma enorme área de distribuição mundial, chega às nossas terras apenas de forma muito ocasional. 

Não perca