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Remoção de barreira em ribeira de Santarém vai abrir passagem a bogas, enguias e outros animais em risco

17.09.2026
leitura de 2 minutos
Foto: SOS Animal

Obras arrancam esta sexta-feira, numa ação da SOS Animal em parceria com o município de Santarém. A Wilder falou com Sandra Duarte Cardoso, presidente da associação, e conta-lhe o que está em causa.

Conhecida pelos habitantes locais como “pedreira”, a barreira fluvial que vai agora ser removida terá sido construída há muito tempo, de forma tradicional, feita com pedras que há muito impedem a passagem de espécies em risco de extinção como a boga-portuguesa (Iberochondrostoma lusitanicum) e a enguia-europeia (Anguilla anguilla), e ainda de répteis e anfíbios como a rã-de-focinho-pontiagudo (Discoglossus galganoi).

Sandra Duarte Cardoso, presidente da SOS Animal, explicou à Wilder que esta barreira antiga fica junto ao terreno de 27 hectares onde está instalado um santuário animal criado pela associação, onde são acolhidos animais silvestres a necessitarem de apoio, incluindo sacarrabos, javalis, lontras e outros.

Devido à forma como foi construída a barreira, não vai ser possível recorrer a máquinas e os trabalhadores vão ter de estar dentro da ribeira para desmanchar toda a estrutura, num processo que deverá demorar cerca de duas semanas. As obras de remoção vão ser realizadas por uma empresa especializada, com o apoio financeiro do programa European Open Rivers.

Estrutura de betão demolida há dois anos

A ação que agora se inicia é a segunda no âmbito deste projeto dedicado à ribeira de Perofilho, onde no final de 2024 foi removida uma outra barreira situada mais a jusante. Construída em betão na década de 1980, essa estava “bastante distante” da estrutura que agora vai ser demolida, mas ainda junto ao santuário da SOS Animal. Realizada no final de 2024, essa primeira iniciativa teve a parceria e liderança da ANP/WWF, além dos atuais parceiros, e recebeu também financiamento do European Open Rivers.

“Depois dessa primeira remoção, na SOS Animal tratámos de recuperar a galeria ripícola – ou seja, da vegetação que ladeia o curso de água – junto a esse troço da ribeira”, lembra a mesma responsável.

A estrutura de betão que ali quebrava a passagem das águas era “uma autêntica parede junto à qual muitas vezes encontrávamos animais afogados, incluindo algumas aves”, recorda Sandra. Mas depois de ser demolida, “a biodiversidade mudou completamente”: “Passou a ser um local de abeberamento de várias espécies e uma zona de descanso para as lontras; sabemos disso pelos vestígios que temos encontrado.”

Quanto à nova remoção, a presidente da SOS Animal acredita que vai ser muito positiva para as espécies que ali habitam. Um dos benefícios – exemplifica – é que vai permitir que diferentes populações de uma mesma espécie passem a estar conectadas e a reproduzir-se entre si, uma questão muito importante para a diversidade genética.

Em 2025, a Europa registou o maior número de remoções de barreiras fluviais de sempre, com pelo menos 603 obstáculos demolidos em 21 países, revelou em maio passado um relatório da coligação Dam Removal Europe. Portugal surgiu nesse relatório apenas com uma remoção: da barragem do Sourinho, no rio Alviela, num projeto desenvolvido pelo GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e do Ambiente.

A remoção de barreiras fluviais e o restauro de rios de livre fluxo é um dos objetivos do Plano Nacional de Restauro da Natureza e do programa Pró-Rios. A meta é reabilitar mais de 1500 quilómetros de linhas de água até 2030.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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