Mais de 200 cidadãos, organizações da sociedade civil e profissionais ligados ao ordenamento do território e às florestas participaram, entre 2025 e 2026, num processo de auscultação sobre a gestão da floresta e do território. Daí resultou um guia com 50 propostas de ação, dirigidas tanto aos decisores políticos como aos cidadãos.
Portugal enfrenta incêndios florestais cada vez mais devastadores, num contexto de degradação do território e de uma relação prolongada e exploratória com a floresta. Como resposta a esta realidade, mais de 200 cidadãos de Norte a Sul do país participaram, ao longo de 2025 e 2026, num processo de reflexão promovido pelo movimento Reflorestar.Pt.
As conclusões deste processo, que incluem 50 ideias concretas dirigidas aos cidadãos para proteger a floresta, regenerar o território e travar o impacto dos incêndios, são apresentadas esta quinta-feira na Culturgest, em Lisboa, durante uma tarde de conversas dedicada ao tema “Fogos ou Florestania?”.
A iniciativa, promovida pela Culturgest e pela associação Reflorestar.Pt, pretende discutir “outras formas de habitar, cuidar e regenerar o território” e responder a uma questão central: que respostas urgentes e estruturais exige a crise dos incêndios em Portugal?
O documento que vai ser agora apresentado resulta de um processo de auscultação das populações, sob a forma de Assembleias Cidadãs pelas Florestas, Encontros Regionais de Organizações e o IV Encontro pelas Florestas.
Deste processo – feito em parceria com o movimento Faixas Vivas e com o movimento Assembleias de Cidadãos de Portugal – nasceu um documento síntese dirigido à sociedade civil e aos decisores políticos. O guia inclui um roteiro de ação para as políticas públicas, mas também várias propostas para uma cidadania mais ativa, procurando responder a uma pergunta que, segundo a Reflorestar.Pt, surge repetidamente: “O que posso fazer?”
“Este guia nasce da compilação do que foram as dezenas de conversas pelo país”, explica o movimento. A intenção é que seja um documento “claro e direto, com várias conclusões que consideramos de relevo” e que gostávamos que chegassem ao máximo de pessoas possível.
Conhecer primeiro o território
Segundo este guia, a ação cidadã deve começar pelo conhecimento do território onde se vive.
A primeira proposta é, por isso, conhecer e mapear o território da própria freguesia, identificando, por exemplo, as linhas de água, as espécies de árvores nativas e as áreas de maior risco de incêndio.
A partir desse conhecimento, o guia propõe um conjunto de ações de regeneração e cuidado dos terrenos. Entre elas estão a organização de dias de limpeza comunitária de linhas de água ou matas, ações de controlo de espécies invasoras, a criação de pequenos viveiros comunitários de árvores e arbustos nativos ou a colocação de estacas e realização de sementeiras de espécies nativas em áreas degradadas.
Também há propostas para favorecer a biodiversidade, como a construção de hotéis para insetos e caixas-ninho para aves e morcegos.
Outra das dimensões propostas é a organização das comunidades locais.
O guia sugere começar por organizar um encontro informal para que as pessoas se conheçam e possam conversar sobre o território onde vivem. Entre as ideias estão ainda a criação de sistemas locais de troca de sementes ou plantas e de um “banco de tempo” dedicado a tarefas de gestão da paisagem.
A Reflorestar.Pt considera igualmente importante reforçar a ligação das populações à terra através da educação e da celebração do território. Para isso, propõe a criação de percursos pedestres sinalizados, workshops práticos e feiras dedicadas aos produtos da terra.
A participação cidadã deverá, no entanto, ir além da intervenção direta no território. O guia apresenta também formas de influenciar as decisões políticas e exigir mudanças, como pressionar as autarquias para que utilizem exclusivamente plantas nativas nos espaços públicos ou apresentar propostas de orçamento participativo para projetos de regeneração comunitária.
Uma floresta diversa e multifuncional
Para a Reflorestar.Pt, estas ações locais devem integrar uma transformação mais profunda na forma como o país gere o território.
O objetivo é conseguir uma floresta “diversa e multifuncional” e uma “economia rural vibrante, onde cuidar do território seja uma profissão digna”.
“Os ecossistemas não são um custo a suportar, mas uma infraestrutura essencial do país”, defendem os promotores da iniciativa.
A necessidade de atuar é ainda maior perante a acumulação de fenómenos extremos. “Um território já fragilizado por incêndios recorrentes perde capacidade de retenção de água e de proteção do solo, amplificando o impacto de tempestades e cheias seguintes; um território já erodido por fenómenos extremos regenera com mais dificuldade após um incêndio.”
A Reflorestar.Pt identifica, contudo, vários obstáculos à participação dos cidadãos, entre eles o sentimento de impotência perante a complexidade legal e uma burocracia considerada asfixiante.
Por isso, defende que é necessário tornar mais simples a participação das comunidades na gestão da paisagem e aproximar a decisão das pessoas que vivem no território.
“O papel da sociedade civil é assumir a responsabilidade pela gestão de proximidade”, escrevem os coordenadores da iniciativa. “Com o apoio e o enquadramento do Estado, são as comunidades locais, os baldios, as cooperativas e os grupos de proprietários que estão em melhor posição para gerir a paisagem de forma adaptativa e resiliente, porque são elas que detêm o conhecimento local e o interesse direto no bem-estar do seu território.”
Restaurar, valorizar e pagar pelos serviços dos ecossistemas
Ao nível nacional, as propostas incluem dar prioridade ao restauro e regeneração dos territórios, criar um programa específico de proteção para carvalhais e outros bosques autóctones raros e valorizar cadeias de valor alternativas associadas à floresta. Entre os exemplos apontados estão o mel, a resina, a cortiça, os cogumelos e a castanha.
O movimento defende ainda a criação de um Sistema Nacional de Pagamento por Serviços de Ecossistema, reconhecendo o valor dos benefícios que os ecossistemas prestam à sociedade.
Outra das propostas é a criação de um Pacto Social pela Floresta Nativa, envolvendo o Estado, o setor privado, a sociedade civil e a comunidade científica numa visão comum para o território.
No centro de todas estas propostas está a ideia de que a resposta aos incêndios não se pode limitar ao combate ao fogo. Exige uma transformação da relação entre sociedade, floresta e desenvolvimento. “Portugal precisa de uma mudança de paradigma na forma como regula, valoriza e governa o seu território”, defende a Reflorestar.Pt.