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Birdwatching: Crónica da “perseguição” a uma raridade americana em Portugal

23.07.2026
leitura de 6 minutos
Maçarico-café. Foto: Vasco Valadares

Vasco Valadares conta como, depois de um aviso do grupo de raridades recebido no WhatsApp, decidiu ir tentar ver um maçarico-café, também conhecido como maçaricão-de-bico-virado (Limosa haemastica). Foi o primeiro registo desta espécie de ave americana em Portugal Continental.

Era quinta-feira e, como tantas outras quintas-feiras, fui almoçar com os meus colegas de trabalho pernil no forno, uma tradição que se cumpre religiosamente. Saímos do escritório, distribuíram-se as boleias e lá fomos nós para o restaurante. Nesse dia não levei o carro para o restaurante e nem imaginava o quanto iria lamentar esse pormenor poucos minutos depois.

Sentámo-nos, chegaram as ementas, fizemos os pedidos. Nem um minuto tinha passado quando ouvi aquele som inconfundível do WhatsApp. Não um som qualquer. O som do grupo das raridades. Peguei imediatamente no telemóvel.

Maçarico-café. Foto: Vasco Valadares

Era uma fotografia enviada pelo Pedro Moreira e não deixava dúvidas. Por baixo vinha um PIN de localização. Carreguei, era em Aveiro. Olhei para o mapa. Depois para o relógio. Depois novamente para o mapa.

Enquanto os meus colegas continuavam a conversa sobre assuntos perfeitamente normais para uma hora de almoço, eu já estava em brasa e mentalmente a mais de duzentos quilómetros dali. 

As mensagens começaram a chegar em catadupa. “Vais?” “Já viste isto?” “Estás a pensar ir?”. Os suspeitos do costume apareciam todos ao mesmo tempo. E eu estava preso à mesa de um restaurante, sem carro, à espera do almoço e sem saber sequer se a ave ainda estaria no local quando conseguíssemos lá chegar.

Como se não bastasse, surgiu entretanto uma nova mensagem. A ave tinha levantado voo e poderia ter seguido para uma zona próxima onde muitas aves se refugiam durante a maré alta. Pedro Moreira, responsável por toda aquela súbita aceleração cardíaca coletiva, disse que ia verificar. Criou-se logo um grupo para organizar possíveis boleias. No fundo, todos pensávamos a mesma coisa: se a ave estivesse no segundo local, era para ir. Sem hesitações.

Se não estivesse, logo se veria quem tinha coragem para fazer um verdadeiro all-in. Entretanto eu fazia contas. Quanto tempo demorava a acabar o almoço? Quanto tempo para regressar ao trabalho? Quanto tempo para recuperar o carro? Quanto tempo para encontrar o resto do grupo? Quanto tempo até Aveiro? E sobretudo: quanto tempo restaria para ver a ave?

Maçarico-café. Foto: Vasco Valadares

Alguém comentava que estava a chover copiosamente por lá. Outro falava das marés. Eu olhava para o relógio. A comida demorava uma eternidade. Quando finalmente chegou, tenho quase a certeza de que a engoli mais do que a comi.

Foi então que apareceu a mensagem decisiva. Pedro Moreira tinha reencontrado a ave. Estava lá. Pronto, tínhamos de ir.

Marcou-se rapidamente um ponto de encontro e uma hora de saída. Iríamos todos juntos num carro, recolhendo pelo caminho o “guru do birdwatching nacional” Pedro Ramalho, presença habitual nestas aventuras e uma referência para muitos observadores. Deixei os meus colegas de trabalho para trás que achavam que eu era meio maluco e naquele dia ficaram sem dúvidas disso!

Encontrei-me com a malta da passarada e saímos para Norte. Como sempre acontece nestas situações, a viagem foi feita num equilíbrio entre esperança e pessimismo. Há quem veja o copo meio cheio. Há quem o veja meio vazio. E há quem passe o tempo todo a tentar explicar todas as formas possíveis pelas quais uma ave rara pode ter aparecido neste sítio e como pode desaparecer antes da nossa chegada. No birdwatching, tal como na vida, há mentalidades para todos os gostos. 

O cruise control começou numa velocidade alta e depois subiu um bocado mais e depois mais e já perto do destino, o carro parecia um avião e o GPL parecia evaporar do depósito. A ansiedade fazia-se sentir. Entretanto, o Pedro Moreira teve de abandonar o local, mas deixou a confirmação de que a ave continuava presente e que havia outros observadores na zona. Claro que isso não garantia absolutamente nada. A maré podia mudar, o bando podia deslocar-se, uma rapina podia aparecer e as aves levantavam. Quem procura raridades sabe que uma observação só está garantida quando os próprios olhos encontram a ave.

Pelo meio da viagem lembrei-me de mandar uma mensagem ao meu amigo Simon, ele que já tinha ido comigo e com o guru à Invicta ver a ave mais vermelha que já apareceu em Portugal. Isto porque ele tem o primeiro registo (e único até esse mesmo dia) desta ave em Portugal feito há quase 20 anos na bela ilha Terceira nos Açores.

Saímos da autoestrada. Vieram as estradas nacionais. Depois os caminhos rurais. E finalmente aqueles troços que parecem conduzir ao fim do mundo. Quando o GPS indicava apenas algumas centenas de metros até ao destino, avistámos alguns carros ao longe. “É ali.” O coração acelerou imediatamente. Parámos atrás do primeiro carro e começámos a sair à pressa. Telescópios. Máquinas fotográficas. Mochilas. 

Mas havia um problema. Apesar dos vários carros estacionados, não se via ninguém. Durante alguns segundos instalou-se aquele pequeno pânico que qualquer observador conhece. Onde estavam as pessoas? Onde estava a ave? Estávamos sequer no local certo? Alguém apontou para trás de umas árvores. “Estão ali!” E lá estavam eles, como sempre muitas caras amigas com as máquinas apontadas, telescópios montados e olhares fixos num campo alagado repleto de aves. 

Maçarico-café. Foto: Vasco Valadares

Perante as largas dezenas de aves à nossa frente começaram imediatamente as instruções. “Estás a ver o pernilongo? É atrás, no meio dos outros limosas.”, “Não, mais para a direita.”, “A terceira ave.”, “Não, a sexta, contando as que estão em pé.” Naturalmente, estava a olhar para a ave errada. Depois para outra errada, entretanto umas 100 blind shot photos. Até que uma das aves levantou a cabeça. Mostrou-se de perfil, mostrou o bico, mostrou o supercílio. E tudo encaixou.

Ali estava ele. Maçaricão-de-bico-virado seria o cómico nome para quem não fala cientifiquês. No meio dos seus “primos” europeus (os maçaricos-de-bico-direito), muito semelhantes e praticamente iguais mesmo para os mais atentos. Um verdadeiro cromo americano. O alívio foi instantâneo. A primeira parte da missão estava cumprida. Seguiu-se uma longa observação tranquila, ou tão tranquila quanto pode ser a observação de uma raridade americana rodeada por muitos observadores atentos aos mais ínfimos movimentos e ações da estrela da companhia.

A ave levantava-se e voltava a agachar-se. Limpava as penas. Mudava ligeiramente de posição. Desaparecia atrás das aves mais próximas. Voltava a surgir, e lá se faziam umas quantas fotos miseráveis de registo.

A certa altura todo o bando levantou voo. Ouviu-se uma verdadeira explosão de disparos fotográficos. “Está aqui!”, “Agora ali!”, “É o último!”, “Pousou no meio!”.

Maçarico-café. Foto: Vasco Valadares

Quando voltou a pousar, as vistas melhoraram um pouco. Não muito. Mas o suficiente. Entretanto começou a chover. E a chover bem. Houve quem corresse para o carro, houve quem procurasse abrigo, houve quem fosse buscar um guarda-chuva e regressasse sem ele, houve quem simplesmente continuasse a observar aves como se nada estivesse a acontecer. 

O tempo melhorou e a ave começou a colaborar. Andou de um lado para o outro. Alimentou-se. Virou-se de frente. Virou-se de perfil. Abriu as asas e mostrou o seu belo “sovaco” escuro! Limpou as penas. Mostrou-se o suficiente para que toda a gente saísse satisfeita. Deu para as fotografias, vídeos e observações detalhadas. Registos para mais tarde recordar. No fundo, deu para tudo. Missão cumprida.

Ainda se discutiu a hipótese de procurar mais aves pela área. Acabou por não se fazer grande coisa. Acabámos numa excelente pastelaria que conhecia dos tempos de outra vida. Café para uns, qualquer coisa para beber e comer para outros e a inevitável revisão dos acontecimentos. A tensão tinha desaparecido, os sorrisos eram grandes e o objetivo estava alcançado. A viagem de regresso decorreu num ambiente completamente diferente, muito mais calma, muito mais descontraída e muito menos stressante do que a corrida para norte.

Afinal, tínhamos conseguido. Tínhamos visto uma ave de sonho. A 12ª para a Europa, 2ª para Portugal e a primeira para Portugal Continental. Uma espécie que muitos desejavam observar em Portugal há muito tempo. Com boas observações, com bons registos e com boas memórias.

Os parabéns ao Pedro Moreira por mais uma excelente descoberta. E também por ter conseguido transformar uma banal quinta-feira de pernil no forno numa corrida de mais de duzentos quilómetros até aos campos alagados do Baixo Vouga atrás de um maçaricão-de-bico-virado.


A Wilder falou com Gonçalo Elias, ornitólogo e escritor naturalista, para tentar perceber melhor as hipóteses em redor deste avistamento tão surpreendente.

A ave permaneceu no Baixo Vouga, em Aveiro, mais dois dias e foi vista até dia 27 de Junho.

Mais tarde, a 1 Julho em Inglaterra apareceu outra ave da mesma espécie na Reserva Royal Society for the Protection of Birds em Minsmere, condado de Suffolk. Dada a raridade desta ave na Europa, vários observadores compararam as fotos com a ave que tinha estado até 3 dias antes em Aveiro (a 1500km de distância) e, dadas as características distintivas da plumagem, parece ser a mesma ave.

Dias mais tarde, a ave foi relocalizada a cerca de 60 km num estuário em Suffolk. A 22 de julho ainda se encontrava presente nesse local.

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