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O mistério do maçarico-café que apareceu em Aveiro quando ninguém o esperava

23.07.2026
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Maçarico-café. Foto: Vasco Valadares

O primeiro registo da espécie maçarico-café (Limosa haemastica) para Portugal Continental está a intrigar os ornitólogos. Para Gonçalo Elias, a questão não é apenas saber como esta limícola americana atravessou o Atlântico, mas perceber porque surgiu em junho, uma altura em que esta ave deveria estar a reproduzir-se no Ártico.

No final de junho, e durante três dias, um maçarico-café (Limosa haemastica) surpreendeu a comunidade que faz birdwatching ao aparecer na Ria de Aveiro, no meio de outras aves limícolas. Tratava-se do primeiro registo desta espécie para Portugal continental.

O maçarico-café, conhecido no Brasil como maçaricão-de-bico-virado, é uma limícola de distribuição neártica que nidifica sobretudo no Canadá e no Alasca e passa o inverno na América do Sul. Todos os anos realiza uma migração de milhares de quilómetros ao longo do continente americano entre os locais de reprodução e de invernada.

É precisamente durante essa migração outonal, entre setembro e outubro, que algumas aves se perdem e são empurradas para o oceano atlântico pelas tempestades.

“Costumamos apanhar limícolas americanas na Europa que vêm arrastadas por tempestades”, explicou à Wilder Gonçalo Elias, ornitólogo e escritor naturalista. “Este fenómeno acontece com várias espécies de limícolas, algumas mais frequentes que outras, (…) geralmente em setembro ou outubro, que é a altura da migração outonal, ou seja, é quando essas aves estão a ir do Canadá em direcção ao Sul.” 

É o caso do pilrito-de-colete. “Todos os anos há avistamentos em setembro desta espécie. Esta ave já tem um padrão mais ou menos claro e nós sabemos o que é que podemos esperar. Mas o maçarico-café tem tão poucos registos que não é possível desenhar um padrão muito definido.” 

Mas para Gonçalo Elias, o mais surpreendente deste registo foi a data em que aconteceu. Nessa altura do ano, um maçarico-café adulto deveria estar muito longe da Europa: nas zonas húmidas do Ártico canadiano ou do Alasca, onde a época de reprodução começa mais tarde, em junho, quando o gelo desaparece. E a ave observada em Aveiro é um indivíduo adulto, em plumagem nupcial.

“Ninguém percebeu muito bem como é que uma ave americana, ainda por cima rara na Europa, aparece cá numa altura destas. Isso é um enigma que está por resolver.”

Um enigma sem resposta

Como chegou então esta ave a Portugal? Apesar de ser impossível saber com certezas, Gonçalo Elias tem algumas hipóteses. Até porque, lembrou, “não devemos confundir a data em que a ave foi observada com a data em que efectivamente chegou”, sublinhou o ornitólogo.

“Uma hipótese é este maçarico-café ter atravessado o oceano em junho, vindo não sei de onde, porque se desorientou completamente; outra hipótese é ter atravessado o oceano já no final do ano passado (que é a época normal, que é no outono) mas em vez de ir parar à Europa e foi parar à costa africana, ficou por lá uns meses e agora está-se a deslocar para norte.” 

Mas Gonçalo Elias não acredita muito na primeira hipótese. “Como não é época de migração, custa-me acreditar que tenha feito agora a travessia do Atlântico.”

Mais plausível lhe parece ser que esta ave tenha atravessado o oceano no outono passado, quando estas deslocações acidentais são muito mais frequentes, tendo ido parar à costa ocidental africana, onde existem enormes concentrações de limícolas e muito poucos observadores.

Ali teria passado despercebida durante todo o inverno.

Na primavera, obedecendo ao seu relógio biológico, teria retomado a migração para norte, aproximando-se das zonas de reprodução que procurava alcançar.

Nesse percurso, fez uma breve paragem em Aveiro.

Há ainda outra razão para este indivíduo poder ter permanecido tanto tempo sem ser detetado. À distância, o maçarico-café é muito semelhante ao fuzelo (Limosa lapponica), espécie comum nas zonas húmidas portuguesas. Misturado entre dezenas ou centenas de fuzelos e maçaricos-de-bico-direito, pode facilmente passar despercebido. “Este bicho é muito parecido com o fuzelo; quando está pousado, parece um fuzelo. Só se distingue quando abre as asas e vemos que a asa é negra por baixo em vez de ser branca.” 

Três dias depois, a mesma ave terá sido avistada em Inglaterra, num estuário da região de Suffolk e onde ainda estaria a 23 de julho. A comparação das fotografias — incluindo o padrão de muda das penas — levou vários observadores a admitir que poderia tratar-se do mesmo indivíduo.

Se assim foi, significa que a ave continuava a deslocar-se rapidamente para norte.

“Ela pode ainda estar a responder ao impulso migratório que a leva para as zonas de reprodução”, explica Gonçalo Elias.

As aves que nidificam no Ártico começam a reproduzir-se mais tarde, apenas em junho, quando o gelo finalmente recua. Depois recuperam o tempo perdido graças aos dias com 24 horas de luz, que lhes permitem alimentar as crias durante quase vinte e quatro horas por dia.

Um destino incerto e a esperança de um reencontro

Segundo Gonçalo Elias, “a relevância deste registo é sobretudo para os observadores de raridades porque em termos de conservação estes avistamentos não têm grande significado, são aves perdidas que não têm futuro”. “Não é na Europa que se vai fazer a conservação desta espécie, é nas regiões de origem.”

Mas para quem gosta de observar aves, este registo foi um momento memorável. “Foi uma oportunidade para tomar contato com uma espécie diferente, fazer fotografias e ‘colecionar’ mais uma espécie rara, isto é, fora da região habitual de distribuição”. 

“Há alguns ‘cromos’ ultra raros e estes são sempre mais apetecíveis. Às vezes vem gente de longe para ver estas aves, porque há pessoas que fazem a lista das espécies que já viram em Portugal, mas há outras que fazem a lista das espécies que já viram na Europa e outras fazem as que já viram no Paleártico ocidental, por exemplo.”

E será que vai haver mais oportunidades de reencontrar esta ave em Portugal?

Segundo Gonçalo Elias, as limícolas americanas que atravessam o Atlântico raramente conseguem regressar ao continente de origem e o mesmo deverá acontecer a este maçarico. “Primeiro, porque não sabe o caminho de regresso e segundo porque os ventos mais facilmente empurram as aves da América para cá do que o contrário.”

O ornitólogo acredita que esta ave “pode conseguir sobreviver durante alguns anos na Europa, desde que encontre boas áreas de alimentação”.

E se isso acontecer, ela pode continuar a migrar entre o Norte e o Sul. “Quando as aves migram, muitas vezes páram nos sítios que já conhecem. É como quando vamos de viagem e paramos sempre no mesmo restaurante porque sabemos que ali se come bem. E então imaginemos que ela volta para baixo e volta a parar em Aveiro. Já conhece o sítio.”

“Era giro que voltasse lá.” 


Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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