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França perdeu 18% das aves comuns em 25 anos, revela primeiro Barómetro da Avifauna

11.06.2026
leitura de 3 minutos
Andorinhão-preto (Apus apus). Foto: Alexis Lours/WikiCommons

Apesar do aumento do número de espécies nidificantes, as populações de aves comuns continuam a diminuir em França. O novo Barómetro da Avifauna, divulgado pela Liga francesa para a Protecção das Aves (LPO), mostra uma quebra de 18,2% em apenas 25 anos e pede mais políticas de conservação.

França perdeu quase um em cada cinco indivíduos das espécies de aves comuns nas últimas duas décadas e meia, segundo o primeiro Barómetro da Avifauna publicado a 5 de junho pela Liga para a Protecção das Aves (LPO).

Baseado em mais de 50 anos de monitorização e em dados recolhidos tanto por cientistas como por cidadãos, o relatório traça aquele que a organização considera ser o retrato mais completo alguma vez realizado das aves em França continental.

Embora o número de espécies nidificantes tenha aumentado, passando a incluir mais 45 espécies do que há meio século, a organização alerta que este aparente ganho esconde uma realidade menos favorável. Metade dessas novas espécies são introduzidas, como o ganso-do-Canadá (Branta canadensis) ou o periquito-de-colar (Psittacula krameri), enquanto quatro espécies nidificantes desapareceram. São elas a andorinha-do-mar-ártica (Sterna paradisaea), o mergulhão-de-pescoço-vermelho (Podiceps grisegena), o borrelho-ruivo (Eudromias morinellus) e o chasco-preto (Oenanthe leucura).

Para os autores do relatório, o indicador mais relevante é o número de indivíduos. E os dados revelam uma tendência clara: as populações de aves comuns diminuíram 18,2% nos últimos 25 anos. Os passeriformes – grupo que inclui andorinhas, chapins e cotovias – representam metade das 314 espécies nidificantes em França e cerca de 90% do total de indivíduos, mas continuam em declínio. Como o andorinhão-preto (Apus apus).

Segundo a LPO, as principais causas desta diminuição são conhecidas há décadas. Entre elas estão o uso intensivo de pesticidas, a simplificação das paisagens agrícolas e a artificialização dos espaços naturais. “Em cinquenta anos, perdemos quase uma em cada cinco aves comuns. Isto não é uma estatística abstracta: é o silêncio que se instala nos nossos campos, nos nossos jardins e sobre as nossas cidades”, afirma a organização em comunicado.

Conservação pode inverter tendências

O relatório destaca, contudo, vários exemplos de recuperação de espécies graças a medidas de conservação específicas.

Em 1974 restavam apenas 11 casais reprodutores de cegonha-branca em França. Através de programas de reintrodução, instalação de plataformas de nidificação, redução dos riscos associados às linhas eléctricas e protecção das zonas húmidas, a população aumentou para cerca de 6000 casais.

Também várias aves de rapina, que estavam à beira da extinção nos anos 1970, recuperaram graças às medidas introduzidas pela Lei da Protecção da Natureza de 10 de julho de 1976. Por exemplo, o falcão-peregrino (Falco peregrinus), o maior falcão que podemos encontrar em Portugal, voltou a ocupar praticamente todo o território francês.

Para a LPO, estes casos demonstram que a conservação direccionada produz resultados quando é aplicada de forma consistente. No entanto, a organização considera que ainda não foi possível travar o declínio generalizado provocado por pressões difusas e sistémicas sobre os ecossistemas.

Em comunicado, a organização manifesta preocupação com propostas de enfraquecimento da protecção das espécies, recuos nos objectivos da transição ecológica e tentativas de reintrodução de pesticidas anteriormente proibidos.

Entre as medidas mais criticadas está a nova lei de emergência agrícola, aprovada pela Assembleia Nacional francesa no passado dia 2 de junho. Segundo a LPO, esta legislação poderá facilitar a destruição de zonas húmidas e flexibilizar os abates de lobos, incluindo em reservas naturais e parques nacionais, medidas que a associação considera incompatíveis com os compromissos assumidos por França em matéria de conservação da natureza.

“Recuar nestas conquistas é pôr em causa décadas de esforços, quando é necessário ir mais longe”, sustenta a organização.

A LPO apela, por isso, a que a biodiversidade volte a ocupar um lugar central na agenda política francesa e afirma que pretende participar activamente no debate em torno das próximas eleições presidenciais, defendendo medidas que estejam à altura da crise da biodiversidade.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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