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Mudar de parceiro aumenta o êxito reprodutor dos papa-moscas-pretos

13.03.2026
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Papa-moscas-preto em Sussex, no Reino Unido. Foto: Ron Knight / Wiki Commons

Os papa-moscas-pretos (Ficedula hypoleuca) conseguem ter mais descendência quando mudam de parceiro em relação à época reprodutora anterior, revela um estudo liderado pelo Museu Nacional espanhol de Ciências Naturais (MNCN).

Graças a quase 40 anos de acompanhamento contínuo de uma população desta espécie na serra norte de Madrid, os investigadores verificaram que apenas 3,5% das aves permaneceram juntas entre épocas reprodutoras.

Os indivíduos que se reproduziram com um novo parceiro conseguiram, em média, mais crias voadoras.

O estudo, publicado a 11 de fevereiro na revista científica Ibis, revela padrões muito diferentes dos observados em aves mais longevas, nas quais os vínculos de casal tendem a ser mais duradouros e vantajosos.

O papa-moscas-preto é uma pequena ave migradora que nidifica nas florestas temperadas da Eurásia e passa o inverno em África. Trata-se de uma espécie de vida curta — a maioria dos indivíduos vive cerca de três anos — e o acompanhamento desta população permitiu determinar com precisão a sua dinâmica populacional e reprodutiva.

Desde 1987, os investigadores têm analisado aspetos como a data de início da postura de cada casal, o tamanho das posturas ou o número de crias que conseguem voar do ninho.

“Os resultados indicam que tanto os machos como as fêmeas que mudaram de parceiro conseguiram criar mais crias do que na época anterior, independentemente da idade dos indivíduos ou do tipo de habitat onde se reproduziram”, explicou, em comunicado, o investigador do MNCN David Canal.

“O desafio agora é perceber se as vantagens do ‘divórcio’ se mantêm a longo prazo, por exemplo na sobrevivência dos adultos ou no sucesso reprodutor da descendência”, acrescentou Daniel R. Rodríguez-Solís, também investigador do MNCN.

Nas espécies migradoras de vida curta, em que cada época de reprodução é crucial, o risco de não reencontrar o mesmo parceiro na época seguinte pesa mais do que os benefícios da familiaridade ou de uma melhor coordenação parental que poderiam resultar de reproduzir-se com o mesmo indivíduo. “Os resultados sugerem que o divórcio pode ser uma estratégia adaptativa neste tipo de aves”, acrescentou Canal.

Além de aumentar o número de crias, mudar de parceiro pode também permitir melhorar a compatibilidade entre indivíduos, aceder a territórios de reprodução de maior qualidade ou emparelhar com parceiros com maior sucesso reprodutor.

A equipa conseguiu determinar se os casais se voltavam a reunir ou não graças à anilhagem e ao acompanhamento anual detalhado da população. “Cada ave tem uma anilha com um código individual — é como se levasse sempre consigo o seu cartão de identificação — e isso permite-nos reconhecê-la quando regressa para se reproduzir”, explicou Rodríguez-Solís.

Em cada época reprodutora são marcados todos os indivíduos associados às cerca de 250 caixas-ninho utilizadas por esta população. Todos os anos são anilhadas as crias que nelas nascem e capturados os adultos em reprodução.

“Tendo em conta que normalmente nascem entre quatro e seis crias por caixa, estamos a falar de mais de mil crias anilhadas por ano, além dos adultos reprodutores que são capturados e marcados caso ainda não estejam identificados”, explicou a investigadora do MNCN Iraida Redondo.

Este acompanhamento permite reconstruir a história reprodutiva de cada indivíduo e criar uma boa base de dados sobre a forma como as populações mudam ao longo do tempo.

“O grande valor dos estudos de longo prazo é permitir-nos compreender como as pressões evolutivas atuam sobre os indivíduos e como esses efeitos se traduzem em mudanças nas populações”, concluiu Canal.

“Só com este acompanhamento anual e individualizado é possível revelar processos subtis mas decisivos, como a adaptação a alterações ambientais ou a resposta das populações às mudanças no habitat ou na disponibilidade de recursos.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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