As lagartas da Phyllonorycter berberidella alimentam-se exclusivamente de uma giesta endémica do Noroeste Peninsular, ameaçada de extinção. Mas as surpresas não ficaram por aqui. À boleia deste lepidóptero, foi encontrado ainda outro novo inseto.
Foi na zona de Valongo, distrito do Porto, que João Nunes, coordenador da Rede de Estações de Borboletas Noturnas (REBN), encontrou a borboleta que foi agora descrita cientificamente. A Phyllonorycter berberidella, como ficou batizada, é minúscula: a distância entre as asas abertas, de uma ponta à outra, é de cerca de meio centímetro; ou, dito de forma mais rigorosa, possui uma envergadura de asas entre 4,5 a 6 milímetros.
João Nunes descreve-a num artigo agora publicado pela revista científica Zootaxa, em conjunto com os irmãos e cientistas checos Aleš Laštůvka e Zdeněk Laštůvka, considerados as autoridades europeias no género a que pertence esta borboleta.

O tamanho da Phyllonorycter berberidella tem uma razão de ser, explica o mesmo responsável. Tanto a nova espécie como outras do mesmo género taxonómico, Phyllonorycter, pertencem a um grupo de borboletas noturnas conhecidas como “mineiras”, assim chamadas porque na fase de lagartas vivem dentro dos tecidos vegetais de que se alimentam – por exemplo, no interior das folhas ou do caule de plantas. E por isso, estas borboletas são em regra “extremamente pequenas”.
No caso da nova espécie, as suas lagartas desenvolvem-se no interior das folhas de uma espécie de giesta, a Genista berberidea, um nome que inspirou aliás o epíteto específico – berberidella – com que a borboleta foi batizada.

Conhecida pelo nome comum de arranha-lobos, a Genista berberidea é um arbusto espinhoso de flores amarelas exclusivo da região espanhola da Galiza e de uma faixa litoral em território português, que se prolonga da Serra de Arga (distrito de Viana do Castelo) até à Serra do Caramulo (distrito de Viseu), informa o portal Flora-On, coordenado pela Sociedade Portuguesa de Botânica (SPBotânica).
Mas essa não foi a única surpresa. Algumas das lagartas da borboleta tinham no seu interior uma vespa parasitóide igualmente desconhecida para a ciência. João Nunes enviou alguns exemplares a um entomólogo sueco especialista nesse grupo de vespas, Christer Hansson, que descreve essa nova espécie no mesmo artigo científico. Hansson batizou-a com o nome científico Achrysocharoides genistae.
Ainda mais pequenas do que as lagartas que parasitam, estas vespas têm um comprimento máximo de 1,5 milímetros, no estado adulto, e desconhece-se ainda se parasitam também outras borboletas diferentes.

Completar os cromos
João Nunes, 26 anos, contou à Wilder que trabalha em dois mundos diferentes. De dia, é consultor ambiental na área da gestão de resíduos; no “turno da noite”, faz o inventário e monitorização de borboletas noturnas e outros insetos em várias áreas do país, trabalhando com diferentes projetos e autarquias.
Mas seja de dia ou de noite, tem um grande interesse pelas relações que se estabelecem entre as borboletas mineiras e as plantas de que dependem. Muitas dessas espécies de insetos especializam-se numa única espécie de planta hospedeira, talvez “por viverem dentro dela”, nota o coordenador da REBN.
“A relação entre plantas hospedeiras e as borboletas que delas dependem sempre me chamou a atenção. E quando existe uma potencial planta hospedeira, mas desconhece-se qual é o inseto a que está associada, é quase como se fosse um cromo da caderneta por descobrir. Tenho interesse em procurar a borboleta que depende dessa planta e que nunca tinha visto.”
Quanto às plantas hospedeiras, podem ser de espécies muito diferentes, incluindo vários tipos de herbáceas e diferentes árvores, ou ainda as plantas da tribo botânica Genisteae, que engloba de forma geral as giestas. Estas últimas têm uma relação muito forte com as borboletas do género Phyllonorycter, a que pertence a nova borboleta, destaca.
Por ser ainda desconhecida uma borboleta associada à arranha-lobos, desde há alguns anos que João Nunes tentava encontrar esse “cromo” em arbustos dessa planta que conhecia na zona de Valongo. Já estava a acreditar que não o iria encontrar, até porque algumas espécies de giestas não têm relação com insetos específicos, recorda. Finalmente, em 2024 teve sucesso nessa busca, resultado que repetiu em 2025.
Entretanto, não deu frutos a busca por esta nova espécie de borboleta no topo da Serra de Arga, onde se concentra o maior núcleo conhecido de arranha-lobos em Portugal, mas o coordenador da REBN promete que vai continuar à procura da Phyllonorycter berberidella noutros locais onde existe a sua planta hospedeira.
Planta hospedeira rara e ameaçada
“Descobrimos estas novas espécies de insetos ainda a tempo de assegurarmos a sua conservação”, sublinha João Nunes, que lembra que a giesta arranha-lobos está classificada como Vulnerável à extinção em território português. Atualmente, no país são conhecidos apenas cerca de oito núcleos desta planta rara típica de prados húmidos e de outras áreas de solos encharcados, da qual depende por sua vez a nova borboleta noturna agora descrita.

“Estão identificados declínios continuados na área de ocupação [da arranha-lobos], número de localizações, área e qualidade do seu habitat”, detalha um pequeno texto no portal Flora-On, que nomeia as principais pressões e ameaças sobre esta planta em Portugal: “a instalação e gestão de povoamentos florestais de eucalipto e a expansão das acácias e outras espécies exóticas invasoras”.
Essas ameaças estão presentes, por exemplo, na Paisagem Protegida Regional Parque das Serras do Porto, onde se pode encontrar a arranha-lobos, nota João Nunes. Nessa área protegida que se estende por 6000 hectares, abrangendo os concelhos de Valongo, Gondomar e Paredes, uma grande parte do território está ocupada por eucaliptais de produção, restando apenas algumas manchas de vegetação mais natural junto aos rios Ferreira e Sousa.
Para assegurar a sobrevivência desta giesta rara – e também agora dos insetos que dela dependem – no portal gerido pela SPBotânica sugerem-se algumas ações, desde logo “a implementação de medidas impeditivas da transformação do seu habitat em eucaliptais, incluindo a sensibilização dos gestores de espaços florestais e a criação de zonas tampão em redor dos núcleos conhecidos”. O mesmo portal propõe ainda “a realização de ações de controlo de espécies invasoras e a monitorização da população nacional”.
Saiba mais.
Acompanhe aqui uma sessão de monitorização realizada na Serra do Socorro, numa estação que pertence à Rede de Estações de Borboletas Noturnas, projeto de ciência cidadã coordenado por João Nunes.