A prevenção de cheias, derrocadas e enxurradas, é apenas um dos serviços prestados pela turfeira dos Graminhais, na ilha de São Miguel. Conheça o trabalho da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) que há anos cuida desta verdadeira “esponja” natural.
A turfeira dos Graminhais “esconde-se” a cerca de 900 metros de altitude no bordo norte da caldeira do vulcão da Povoação, concelho do Nordeste, na ilha açoriana de São Miguel.

A SPEA conhece-a bem. Há mais de 20 anos que trabalha para conservar esta esponja natural. E a expressão assenta como uma luva.
Na verdade, um dos seus muitos predicados é ajudar a prevenir as cheias rápidas, muito frequentes nos Açores.
“Graças à vegetação característica, maioritariamente musgos do género Sphagnum, esta turfeira tem um efeito de retenção de água”, explicou à Wilder Tarso Costa, técnico da SPEA Açores.
O que acontece é que estes musgos, como o musgão, têm uma grande capacidade de armazenar a água das chuvas até atingir o seu ponto de saturação. Depois, libertam a água, mas muito lentamente. “Em casos de chuvas fortes, estes musgos absorvem a água que, sem eles, seria levada directamente para o rio. Assim, esta vegetação nativa ajuda a reduzir o volume e a velocidade da água nos rios”, acrescentou.
Além disso, as turfeiras como a do Planalto dos Graminhais ajudam a promover a infiltração da água nos solos, recuperando assim os lençóis freáticos.

Internacionalmente, as turfeiras são reconhecidas como um dos principais aliados naturais contra as alterações climáticas. A sua importância sente-se em várias frentes.
O trabalho da SPEA no restauro da turfeira do Planalto dos Graminhais começou em 2009 com o LIFE Laurissilva (2009–2013), foi reforçado a partir de 2021 com o LIFE IP Azores Natura e, atualmente, decorre no âmbito do SpongeBoost. Este projeto europeu de investigação e inovação colaborativa – que decorre de Janeiro de 2024 a Dezembro de 2027 e é financiado pelo programa Horizon Europe – inclui os Graminhais como um dos sete estudos de caso na Europa.
Além da turfeira em São Miguel, o projeto selecionou turfeiras em Espanha, Bélgica, Alemanha e Estónia. A ideia é comparar o antes e o depois das intervenções, monitorizar os efeitos do restauro das turfeiras e testar soluções baseadas na natureza com potencial de replicação noutras turfeiras europeias.
Medidas de restauro
Uma das coisas que tem sido feita para recuperar esta turfeira e a vegetação natural local é a remoção de espécies invasoras ou que não são as mais indicadas, como é o caso da silva-brava, do capim, do junco e da criptoméria (Cryptomeria japonica), espécie nativa do Japão e da China, plantada há décadas junto às linhas de água. Estas, por exemplo, formam muito ensombramento o que não permite o desenvolvimento das plantas nativas.
Outra espécie exótica, a gigante (Gunnera tinctoria) é, segundo Tarso Costa, uma das mais problemáticas para a turfeira e todos os anos são retiradas muitas dezenas de quilos desta espécie.
No lugar destas espécies estão a ser plantadas espécies nativas, mais favoráveis à promoção da infiltração das águas nos solos, por exemplo.
Outra medida é a criação de diques, ou seja, pequenas barreiras no leito de rios e ribeiras da região. Estes retêm a água e os sedimentos, ajudando a reduzir a velocidade da água.

A equipa tem transplantado pequenas bolsas de musgo nativo que, depois, vai proliferar e reforçar o papel das turfeiras.
Todo este trabalho tem impactos também no turismo local. “A maioria das pessoas que vem a São Miguel vem pelo turismo de natureza e hoje há mais de cem empresas na região ligadas ao turismo”, lembrou Tarso Costa. A economia local do Nordeste beneficia também das acções de restauro da turfeira, que envolvem 16 pessoas actualmente.
Ainda assim, acrescentou o especialista, o restauro ecológico que está a acontecer na região, mais perto das nascentes, deveria ser feito também mais a jusante para ter um maior impacto na prevenção das cheias. E deveria acontecer em outras zonas húmidas dos Açores, como na zona das Sete Cidades.
De momento, a SPEA também está a trabalhar no restauro de outra micro bacia hídrica com cerca de 30 hectares na Mata dos Bispos, em Povoação.

Tarso Costa enumera as medidas de restauro que ainda tem por fazer a curto prazo. “Estamos a implementar medidas de engenharia natural, como a instalação de diques no leito da linha de água, para reter águas e sedimentos, desacelerar a rapidez da água e criar um meio para a vegetação natural. Além disso temos de instalar paliçadas nas margens dos rios e ribeiras para reduzir a erosão e acelerar a transplantação de musgo e conseguir a plantação de entre 10 a 15 mil árvores nativas dos Açores.”
O mau tempo é que não tem ajudado. “A equipa não tem conseguido ir para o terreno. Temos dois diques para construir e plantações para fazer. Mas é preciso esperar por condições meteorológicas mais favoráveis.”
O que já se sabe
Em março realiza-se nos Açores o encontro anual do projeto SpongeBoost. Até lá, ainda há muito para fazer. Mas já há dados para mostrar.
Há mais de quatro anos que a SPEA mantém na turfeira do Planalto dos Graminhais um sistema de monitorização hidrológica com sensores. Estes medem a precipitação, a água armazenada e o caudal da Ribeira da Achada, recolhendo dados para compreender como a turfeira responde aos eventos extremos de chuva.
Esta informação já deu origem a uma dissertação de mestrado (pela Universidade Técnica da Renânia do Norte-Vestfália em Aachen, Alemanha) que demonstrou que o restauro permite reter mais água, libertá-la de forma mais gradual e reduzir o risco de cheias a jusante, reforçando a adaptação às alterações climáticas.
“Após anos a monitorizar o funcionamento das turfeiras, já temos dados científicos que reforçam a importância da turfeira na redução dos riscos de cheias e que nos dizem que as turfeiras são verdadeiras ‘esponjas’ da paisagem e importantes reservatórios de carbono e água, essenciais para enfrentar um clima cada vez mais instável”, salientou Tarso Costa.