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Loulé classifica duas novas áreas protegidas

04.02.2026
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Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro. Foto: António Luís Campos

A Reserva Natural Local da Nave do Barão e o Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro foram reconhecidas com a publicação oficial em Diário da República.

A classificação das duas novas áreas protegidas de âmbito local do concelho algarvio de Loulé foi publicada em Diário da República em janeiro e eleva para cinco as áreas protegidas daquele território.

“A criação da Reserva Natural Local da Nave do Barão e do Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro representa um contributo direto para a proteção do capital natural, para a valorização do território e para a construção de um modelo de desenvolvimento sustentável, em articulação com a comunidade científica, a população local e os proprietários dos terrenos abrangidos”, segundo um comunicado da autarquia enviado à Wilder a 3 de fevereiro.

A classificação da Reserva Natural Local da Nave do Barão foi publicada através do Aviso n.º 672/2026/2, em Diário da República, a 13 de janeiro de 2026, data que marca oficialmente a criação da área protegida. O respetivo regulamento foi aprovado pelo Regulamento n.º 22/2026 igualmente publicado em Diário da República, no mesmo dia.

No caso do Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro, a classificação foi publicada através do Aviso n.º 856/2026/2, em Diário da República, a 16 de janeiro de 2026.  O respetivo regulamento foi aprovado pelo Regulamento n.º 74/2026, a 22 de janeiro. 

A autarquia recorda que o processo que conduziu a estas classificações “foi participativo e alargado, incluindo a auscultação dos serviços internos da Câmara Municipal de Loulé, de entidades externas, e a realização de sessões públicas de esclarecimento, permitindo o contributo da comunidade, especialistas e instituições com intervenção no território”.

Ao atribuir estatuto legal à Nave do Barão e à Gruta de Vale Telheiro, o Município de Loulé passa a dispor de instrumentos jurídicos que permitem definir zonas de proteção, limitar atividades com impacto ambiental e estabelecer regras claras de conservação.

Na prática, estas classificações garantem maior proteção contra a exploração intensiva dos recursos naturais e a degradação dos habitats, assegurando a salvaguarda de ecossistemas frágeis e únicos a longo prazo.

Nave do Barão: um ecossistema raro

Localizada nas freguesias de Salir e de Tôr, a Reserva Natural Local da Nave do Barão tem 788 hectares e integra a Rede Natura 2000 – Zona Especial de Conservação (ZEC) “Barrocal” -, inserindo-se também no território do Geoparque Algarvensis.

Nave do Barão. Foto: Município de Loulé

A Nave do Barão corresponde a um polje (grande depressão fechada típica de relevos cársicos) de importância geológica nacional, caracterizado por uma notável diversidade biológica. “A área alberga, pelo menos, nove habitats classificados, quatro dos quais prioritários para conservação”. Entre estes estão charcos temporários mediterrânicos, prados rupícolas calcários, prados secos seminaturais e subestepes de gramíneas, bem como centenas de espécies de flora e fauna, entre as quais se destacam endemismos ibéricos e espécies ameaçadas.

Por exemplo, a Lagoa da Nave do Barão é um dos maiores charcos temporários mediterrânicos de Portugal, considerado habitat prioritário ao abrigo da Diretiva Habitats.

Na área da nova reserva natural local estão registadas 272 espécies de flora, das quais 25 % são consideradas de interesse de conservação. Na área do charco temporário encontra-se a maior população portuguesa conhecida de cardo-azul-dos-charcos (Eryngium galioides), um endemismo ibérico. Nos habitats de matos e afloramentos calcários da área ocorre o junquilho-marreco (Narcissus gaditanus), outro endemismo ibérico. Nas clareiras dos alfarrobais regista-se a rara erva-dos-moinhos-anã (Micropus supinus).

Em relação à fauna registam-se 407 espécies, como a pulga-de-água (Daphnia magna), classificada como Vulnerável no Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental.

Gruta de Vale Telheiro: Hotspot mundial subterrâneo

Situado na freguesia de São Sebastião, o Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro abrange uma área de 78,52 hectares, estando também integrado na Rede Natura 2000 e no Geoparque Algarvensis.

Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro. Foto: António Luís Campos

A gruta é reconhecida como a única em Portugal considerada como um hotspot mundial de biodiversidade cavernícola, concentrando mais de 25 espécies exclusivamente adaptadas à vida subterrânea, incluindo espécies que apenas existem neste local à escala global.

Nesta área destacam-se, pela sua importância, os matos termomediterrânicos e as grutas não exploradas pelo turismo, onde se inclui a Gruta de Vale Telheiro. 

Para a autarquia, “a classificação da Reserva Natural Local da Nave do Barão e do Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro constitui apenas o primeiro passo de um processo mais amplo e continuado de proteção e valorização dos valores naturais do concelho de Loulé”. 

“Com o envolvimento dos órgãos de gestão das áreas, designadamente a Comissão Diretiva, o Conselho Consultivo e o Conselho Científico, bem como dos recursos humanos da Câmara Municipal, que asseguram o apoio à gestão das áreas protegidas e daqueles que usufruem das mesmas, pretende-se estabelecer uma colaboração de forma a garantir a conservação futura do espólio natural que caracteriza o território.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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