PUB

Lista Vermelha: três em cada cinco aves em declínio, mas também há boas notícias

10.10.2025
leitura de 5 minutos
Filepita-de-schlegel (Philepitta schlegeli). Foto: Лариса Артемьева/Wiki Commons

A União Internacional para a Conservação da Natureza publicou esta sexta-feira uma nova atualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, que avalia o risco de extinção de 172.620 espécies por todo o mundo.

Dos animais, plantas e fungos que foram até agora avaliados pelos cientistas envolvidos no trabalho da IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza, uma fatia de 48.646 – mais de 28% do total – estão atualmente ameaçados de extinção. Ou seja, têm o estatuto de Vulnerável, Em Perigo ou Criticamente em Perigo, este último o mais elevado de todos antes da extinção.

Os números foram anunciados durante o Congresso de Conservação Mundial da IUCN, em Abu Dhabi, lançando “uma luz sobre os desafios urgentes e as possibilidades poderosas que se apresentam perante nós”, referiu Grethel Aguilar, diretora-geral da organização. “Enquanto que espécies como as focas do Ártico e muitas aves enfrentam ameaças crescentes, a recuperação da tartaruga-verde lembra-nos que a conservação funciona quando agimos com determinação e unidade”, acrescentou, citada numa nota de imprensa sobre a revisão da Lista Vermelha.

Contas feitas, uma fatia de 11,5% (1256) das 11.185 espécies de aves já avaliadas a nível mundial estão hoje ameaçadas de extinção, mas o número de espécies com populações que têm vindo a diminuir é bastante maior. São 61% as espécies de aves que estão agora com populações em declínio, o que representa uma subida significativa face aos 44% que se encontravam assim em 2016. Esta atualização resultou de um trabalho coordenado pela Birdlife International e que se prolongou por nove anos, “envolvendo milhares de especialistas”, indica a IUCN.

Na origem da situação preocupante de muitas aves, está principalmente a perda e degradação dos habitats dessas espécies, “provocadas em especial pela expansão e intensificação agrícolas e pelo corte de árvores”, que são apontadas como as maiores ameaças.

O sisão (Tetrax tetrax) é uma das muitas espécies de aves que estão hoje em declínio, a nível mundial. Foto: Pierre Dalous/Wiki Commons

A desflorestação é especialmente ameaçadora em Madagáscar, na África Ocidental e na América Central, onde se tem vindo a perder floresta tropical. Em Madagáscar, por exemplo, 14 espécies endémicas, que são exclusivas de florestas nesta ilha, são agora consideradas Quase Ameaçadas, e outras três encontram-se em situação Vulnerável. Entre estas últimas, está a filepita-de-schlegel (Philepitta schlegeli), cujos machos exibem uma face de cores vibrantes, azuis e verdes.

“Que três em cinco das espécies de aves do mundo tenham populações em declínio mostra quão profunda se tonou a crise da biodiversidade e como é urgente os governos agirem de forma como se comprometeram, em múltiplas convenções e acordos”, sublinhou o coordenador científico da Birdlife, Ian Burfield, que também coordena a Lista Vermelha das Aves na IUCN. “O restauro de habitat de floresta nativa na ilha de Rodrigues (arquipélago das Maurícias), facilitando a recuperação bem sucedida da endémica felosa-de-rodrigues (Acrocephalus rodericanus) de Criticamente em Perigo, em 1996, para Pouco Preocupante nos dias de hoje, mostra o que é possível através de parcerias e perseverança”, afirmou.

O que se passa com as focas no Ártico?

Nesta região, onde o aquecimento global está a ser quatro vezes mais forte do que no resto do globo, as superfícies de gelo estão a retroceder, o que se reflete nas populações de várias espécies de focas dependentes deste habitat, adverte a IUCN. Estas focas dependem do gelo marinho para se reproduzirem, descansar e encontrarem alimento, e a situação preocupante que atravessam tem impactos nos animais e também nos habitantes locais que delas dependem, nota a organização.

“[Estas focas] têm um papel central na cadeia alimentar, consumindo peixe e invertebrados e reciclando nutrientes. O seu impacto desproporcionado no ecossistema torna-as ‘espécies-chave’, o que significa que a saúde de todo o ambiente marinho está ligado à sua sobrevivência.”

A foca-de-capuz é uma das espécies em risco, devido ao degelo no Ártico. Na foto, uma cria desta espécie na costa dos Países Baixos. Foto: Michael Bakker Paiva/Wiki Commons

Tartaruga-verde a recuperar

Mas nem tudo são más notícias. Graças a várias décadas de investimento em conservação, a tartaruga-verde (Chelonia mydas) passou de Em Perigo para Pouco Preocupante. A população desta tartaruga marinha, habitante de águas tropicais e subtropicais, aumentou cerca de 28% desde os anos 1970. Na ilha da Madeira, por exemplo, foi registada em 2022 uma pequena população residente desta espécie, que até então era uma visitante ocasional do arquipélago.

“Os esforços de conservação têm-se concentrado em proteger as fêmeas nidificantes e os seus ovos nas praias, expandir iniciativas baseadas em comunidades locais e reduzir a apanha não sustentável de tartarugas e dos seus ovos para consumo humano, combater o tráfico, e utilizar aparelhos e outras medidas que reduzem a captura acidental de tartarugas em artes de pesca”, descreve a IUCN.

As populações de tartaruga-verde (Chelonia mydas) estão a recuperar. Foto: Anna Varona/Wiki Commons

Assim, tem sido na ilha de Ascenção (Atlântico Sul), Brasil, México e Hawai que os esforços de recuperação da espécie têm tido mais sucesso, com o regresso dos números de tartarugas-verdes aos níveis anteriores à exploração comercial deste animal marinho, nalguns locais.

Ainda assim, ainda há muito a fazer, avisa a organização, que explica que apesar da melhoria global, os números de tartarugas-verdes mantêm-se “significativamente baixos” face às populações que existiam no planeta antes da colonização europeia e do uso e comércio insustentáveis desta espécie.

“Os esforços de conservação devem focar-se não só nas tartarugas, mas em manter os seus habitats saudáveis e as suas funções ecológicas intactas”, afirma Roderic Mast, do Grupo de Especialistas em Tartarugas Marinhas ligado à IUCN. “As tartarugas marinhas não conseguem sobreviver sem oceanos e zonas costeiras saudáveis, e os humanos também não. Esforços sustentáveis de conservação são cruciais para assegurar que esta recuperação perdura.”

Seis espécies com extinção confirmada

A atualização da Lista Vermelha inclui ainda a passagem de seis espécies à categoria de Extinta, o que significa que já não poderão ser encontradas em nenhum lugar do mundo. Em causa estão por exemplo o musaranho-da-ilha-de-natal (Crocidura trichura) e uma espécie de caracol, a Conus lugubris, que se terão extinguido no final dos anos 1980, o que agora foi oficialmente confirmado. Na lista de espécies desaparecidas do planeta figura agora também um maçarico migrador que foi pela última vez avistado em Marrocos, em 1995, o Numenius tenuirostris, e as árvores da espécie Diospyros angulata, cujo último registo aconteceu ainda no século XIX, no início dos anos 1850.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

Não perca