Como explicar um incêndio tão devastador como o que há dias varreu a serra Amarela, no interior do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG)?
Primeiro porque alguém pegou fogo, com um à-vontade que se consente. Dias de “grande risco de incêndio” por si só (ainda) não deflagram as chamas. Depois, porque levou tempo a iniciar-se o combate, com meios que por esse facto se tornaram rapidamente insuficientes face à dimensão com que as chamas, previsivelmente, progrediram. Quando os bombeiros chegaram em força, face ao desespero das populações, exposto nas televisões, já nada havia a fazer para evitar que a serra voltasse a arder, praticamente de uma ponta à outra.
Tem sido sempre assim. Fogos que duram em média uma semana. Desta vez não ardeu a Mata do Cabril graças ao empenho das forças no terreno, técnicos do Parque Nacional e forças especiais da GNR incluídos e dos meios aéreos que, num momento crucial, evitaram o pior devido à inevitável falta de acessos. Sim porque aqui os acessos não são possíveis. Face à natureza do terreno, face à Natureza que se quer preservar e face ao caminho que esses eventuais acessos facilitariam a todo o tipo de usufruições e condutas não recomendáveis, se com eles se esventrasse a serra. Apesar desta evidência ainda há quem, com responsabilidade, os continue a reclamar!
Não obstante o esforço, a Área de Ambiente Natural que envolve a Mata de Albergaria ainda foi tocada pelo fogo.
É um erro pensar que o problema dos grandes incêndios tem origem principalmente no êxodo rural. Não. É muito anterior, explica-se melhor com a situação em que se encontrava o território quando este êxodo se deu.
A floresta, a verdadeira floresta, há muito que se foi perdendo em Portugal. Para contrariar o que deste recuo arbóreo emergiu, uma imensidão de matos altamente combustíveis, foi-se queimando, sempre mais, também o arvoredo sobrevivente, cada vez mais isolado.
Perante o cenário atual, há quem advogue que a solução está em insistir nessa política de terra queimada, com umas cabras-bombeiras à mistura. Se em termos nacionais tal estratégia seria lamentável, por ignorar o potencial que Portugal tem em manter e explorar uma verdadeira floresta, fazendo-a regressar e, por esta via, melhor enfrentar o cenário negro que temos pela frente com o agravamento das alterações climáticas, nas áreas protegidas seria inaceitável, porque tal implicaria o desaparecimento dos últimos redutos de vegetação arbórea nativa e de outros tipos de habitat que não sobrevivem ao fogo, mas são os únicos capazes de sustentar uma biodiversidade de flora e fauna, a principal razão para que foram criadas estas áreas classificadas.
Em cada um destes fogos medonhos, perdemos mais um pequeno bosquete de carvalhos, isolado numa corga, outro de azevinhos perdido mais adiante.
Esta triste realidade não figura nos noticiários, não é tornada pública em relatórios. Fica retida na memória de quem, amargurado, há décadas percorre os mesmos redutos de um parque nacional que continua por concretizar.
Essa ideia de que a natureza mediterrânica há muito convive bem com o “fogo humano” e dele necessita, é profundamente errada, e insiste em passar a mensagem, egocêntrica, de que sem a mão do homem a natureza não sobrevive. Sim, isso até é, infelizmente, uma verdade, mas em territórios onde o homem destruiu por completo o equilíbrio natural dos ecossistemas. Uma realidade facilmente constatável de norte a sul do país.

É neste contexto que importa dizer algo politicamente incorreto. As populações que residem no interior, concretamente quem possui gado nas serras, têm que ser parte da solução e não do problema. Não estou a falar da limpeza do mato em torno das habitações. Refiro-me à forma como se gerem os recursos naturais, como se desbrava o mato, como se requer mais fogo para abrir pastagens, não poupando um metro quadrado de território que seja, ignorando um plano de ordenamento, suportado num zonamento que não se respeita.
Num futuro próximo não vamos conseguir extinguir os fogos, mas podemos mitigá-los, reduzindo-os a uma dimensão aceitável, se formos implicáveis com quem criminosamente lança fogo nos piores dias, se passarmos a ter uma vigilância permanente, principalmente nas áreas criticas e se começarmos a empreender essa verdadeira revolução que os nossos montes há muito reclamam.
Limpar as florestas não é varrê-las, ou limpar faixas combustíveis indiscriminadamente. É ajudar a que seja a natureza a fazê-lo da forma mais natural e eficaz. Semear árvores nativas e dar-lhes tempo para que sejam elas, distribuídas em mosaicos alternados, a eliminar os matos que tomaram conta das nossas áreas protegidas de montanha. Não me canso de dizê-lo, porque sempre acreditei que é por aí que se resolve este gigantesco problema estrutural. Há quem continue a pensar o contrário, mas vejo também quem, discretamente esteja a mudar de opinião e a aproximar-se desta visão contra a qual se opôs durante muitos anos.
Não me conformo com este sentimento de inevitabilidade que se vive, com o espetáculo triste e deprimente da “época dos incêndios”. Como é possível não impedir que um simples cidadão, alcoolizado, desejoso de vingança, de um familiar ou de um vizinho, ou de ver aviões e bombeiros na serra a combater as chamas, ou ainda movido por outros interesses ainda mais obscuros, dele, ou de outros que dele se servem, seja o responsável por um incêndio em que se queima uma serra quase inteira?
Esta questão leva-nos a outras aonde quero chegar. Porque não há dinheiro para colocar vigilantes, principalmente em áreas que ardem sistematicamente? De que servem os alertas amarelos, laranjas ou vermelhos se o território está, dia e noite, completamente à mercê de um tresloucado?
Prevenir, vigiar, recuperar, requer financiamentos avultados? Quanto custou a semana do combate ao fogo em Ponte da Barca? É muito importante sabê-lo. E se se disser que esta é a verba que se gasta a cada 5 a 10 anos, só no PNPG, em combates que não evitam a destruição da natureza? Custos a que se juntam os prejuízos de quem perdeu bens, ou os encargos que o Estado vai assumir em reparações e compensações.
Cabe-nos a todos participar, contribuir para ultrapassar um período obrigatoriamente longo, até que os resultados se possam revelar.
Ora é aqui que entram os governos, as autarquias e as oposições. Deixem de pensar no curto prazo, nas eleições que se seguem. Entendam-se para empreendermos uma tarefa conjunta para os próximos 50 anos. Esta é sem dúvida a questão que mais impõe um grande pacto de regime. Decerto que não serão questões ideológicas que impedem a sua concretização.
Miguel Dantas da Gama, membro do Conselho Estratégico do Parque Nacional da Peneda-Gerês