O leitor Luís Custódia tem passado grande parte da vida na companhia dos documentários de David Attenborough, que esta sexta-feira, 8 de Maio, celebra uns espantosos 100 anos de vida – sempre em atividade. Fique a conhecer os primeiros tempos da carreira deste famoso naturalista britânico.

David Attenborough, o mítico apresentador dos documentários de vida selvagem, atinge esta sexta-feira a incrível marca de um século de vida, e continua a fazer o que mais gosta: apresentar o mundo natural aos seres humanos.
As suas séries, apresentadas ao longo de décadas num estilo e voz inconfundíveis, entusiasmaram gerações, tornando-o no grande ídolo e patrono de inúmeros percursos académicos e profissionais ligados à biologia, conservação da natureza, comunicação de ciência e outros.
O filme da vida de David Attenborough assemelha-se a uma longa fita que foi crescendo ao longo do tempo, acumulando inúmeras memórias de passagens por lugares incríveis e de infindáveis manifestações da vida selvagem. É possível que as gerações nascidas por volta do início da década de 1970 ainda guardem na memória momentos da série A Vida na Terra, exibida em Portugal perto de 1980. Foi a primeira grande série de documentários sobre história natural apresentada por Attenborough, que na altura já contava com 53 anos de idade. Neste texto sobre os 100 de Attenborough, relembramos os primeiros tempos do naturalista a partir da entrada na BBC, no período de mais de duas décadas que antecedeu a épica A Vida na Terra.

Os primeiros passos
Para quem conhece a obra de Attenborough através da sua autobiografia Life on Air, é fascinante acompanhar o seu percurso após a entrada na BBC. Um jovem obcecado pelo mundo natural, que soube aproveitar as oportunidades e cultivar relações de trabalho que se transformaram em ideias e projetos de sucesso.
Rolamos a fita do filme da vida de Attenborough recuando no tempo até à sua entrada na BBC, em 1952. Formado em Ciências Naturais por Cambridge, Attenborough foi rejeitado inicialmente para a BBC Radio. Mais tarde, recebeu um telefonema a dizer que, apesar de não servir para a rádio, havia algo novo e mais adequado para ele: televisão! Foi colocado como assistente no departamento (Talks Departments) responsável pela produção de programas de televisão em estúdio, ainda a preto e branco.
Uma nova ideia para programas de animais
Já pertencente ao staff da BBC, realizou o programa “Os Padrões dos Animais” com exemplares do Zoo de Londres. Este programa promoveu a proximidade de Attenborough ao naturalista Jack Lester, que era o curador dos répteis do zoo. Dessa amizade, nasceu uma ideia inovadora para a televisão: filmar vida selvagem. O projeto assentava numa expedição a um destino exótico para captura de animais para o zoo, filmando-se o momento da captura, assim como os animais no habitat natural e os povos locais. Já no estúdio da BBC mantinha-se a apresentação original, mas passavam-se a incluir as filmagens obtidas no terreno.
Ultrapassado o obstáculo em convencer as chefias, a expedição avançou para a Serra Leoa, o destino escolhido devido ao conhecimento prévio de Jack Lester, que tinha trabalhado por lá, num banco.
Na lista das espécies desejadas constavam criaturas pouco conhecidas, não observadas em zoos e com um certo grau de perigosidade para os humanos, como algumas serpentes. Contudo, Jack citou uma espécie de ave, algo mítica, que habitava as florestas da Serra Leoa, praticamente desconhecida da lente humana, o Picatartes-de-pescoço-branco Picathartes gymnocephalus, que seria o protagonista principal desta expedição. Por curiosidade, hoje em dia, esta preciosidade ornitológica é algo muito desejado no mundo dos observadores de aves.
Decidiram chamar a esta expedição “Zoo Quest”.

Assim, num dia do início de setembro de 1954, os quatro elementos da equipa de Zoo Quest reuniram-se no aeroporto de Hampshire com destino à Serra Leoa. Eram eles: Jack Lester, Alf Woods (curador das aves do zoo de Londres), o operador de câmara Charles Lagus e David Attenborough. Era o tão desejado início de uma viagem para uma expedição zoológica. Seria a primeira das primeiras de todas as viagens que viria a realizar.
A equipa esteve dois meses no terreno, tendo conseguido vários exemplares zoológicos, incluindo o tão desejado picatartes e a perigosa víbora-do-Gabão, e obtido filmagens suficientes para uma série de seis episódios.
As exibições do primeiro Zoo Quest foram um grande sucesso de audiências, que motivou a aceitação para uma segunda expedição. A equipa voltou-se para o outro lado do Atlântico, escolhendo a Guiana Inglesa, que na altura ainda não era independente. Apesar de novo sucesso à vista, com uma nova coleção de filmagens e animais neotropicais, esta expedição teve um revés trágico para a equipa. Jack tinha adoecido gravemente ficando impossibilitado de vir a apresentar o programa em estúdio, tendo Attenborough avançado para o seu lugar. Conforme ele cita em Life on Air: “eu tinha apresentado o programa, enquanto ele (Jack) via-o na TV a partir da cama no hospital…vindo a falecer meses depois”.
Já na expedição seguinte, à Indonésia, Attenborough assumiu de novo as funções do falecido Jack, desta vez na captura dos exemplares zoológicos, uma vez que o zoo de Londres não tinha conseguido atempadamente arranjar um substituto.
Como Attenborough referiu na entrevista dos seus 90 anos: “Fui apresentador por acidente!”
Agora, a equipa era composta apenas por Attenborough e o operador de câmara Charles Lagus. Sucesso após sucesso, Zoo Quest voou até outras paragens como a Nova-Guiné, o Paraguai e Madagáscar. Também viajaram até à Austrália para uma abordagem diferente, filmando apenas vida selvagem e os aborígenes. À medida que os programas eram exibidos, também eram publicados os respetivos livros, como complemento aos episódios na TV.
O projeto Zoo Quest tinha acabado, tendo Attenborough atingido o topo da carreira como produtor de programas. Como ele refere: “Atingi o topo da escada e gostaria de começar a subir outra”. O contacto com os povos aborígenes na Austrália despertou-lhe o interesse pela antropologia, tendo frequentado uma pós-graduação numa Faculdade de Economia em Londres. Em simultâneo ia fazendo alguns programas de televisão como produtor freelancer, que o levaram a outras paragens longínquas.
Sentado à secretária e viajar!
Em março de 1965, iniciou uma nova etapa da sua carreira em funções administrativas na BBC, tornando-se controlador de programas da BBC2. Mas com a condição de que, de tempos a tempos, teria de interromper a sua vida à secretária por breves períodos para viajar até outras geografias, fazendo aquilo de que mais gosta: fazer documentários, mantendo-se a par da evolução tecnológica.
Nos estúdios da BBC2, viveu momentos áureos, como a introdução da televisão a cores, que pela primeira vez era emitida na Europa, e produziu documentários sobre arte, como A Civilização, e sobre vida selvagem, como O Mundo à Nossa Volta.
Já em 1969, acumulou com o cargo de diretor de programas da BBC. Essa seria uma promoção que o viria arrastar para um mundo que não era o seu.
Assim, no final de 1972, quis pôr um ponto final a esse cargo. Como a decisão não foi fácil, a melhor forma de a concretizar foi agendar uma expedição como produtor freelancer. Em fevereiro do ano seguinte, integrou uma equipa da Unidade de História Natural da BBC (UHN) para visitar novamente a Indonésia. Entretanto, estava em latente formação um novo projeto para televisão, que viria a aparecer como um vulcão na história dos documentários sobre natureza.
E surge A Vida na Terra
A BBC, pretendendo dar continuidade ao padrão das grandes séries que vinha a exibir, como A Civilização e Ascensão do Homem, procurava novas ideias para uma próxima grande produção, com a História Natural a ganhar peso como tema. Attenborough, quando teve conhecimento dessas pretensões, ainda era diretor de programas e, como refere, ainda estava “preso à secretária”. Por isso, sentiu-se algo ansioso, temendo que alguém se antecipasse e ocupasse o lugar que ele tanto desejava, sendo o mentor e apresentador da nova grande série sobre história natural.
Demitiu-se do cargo de diretor de programas e tornou-se novamente freelancer, ficando livre para abraçar o novo grande projeto sobre história natural. Isto é, arriscou!

Após ser contactado pela UHN, Attenborough compôs e apresentou uma proposta para uma grande série. Uma apresentação da história da evolução da vida, traçando o percurso desde as formas mais simples, como seres unicelulares, até às mais complexas. Percorrendo os grupos de animais e plantas, abordando igualmente as suas formas ancestrais através de fósseis.
O projeto foi aceite. A série chamar-se-ia A Vida na Terra e seria exibida ao longo de 13 episódios de 50 minutos cada. O tempo previsto para a série ficar pronta seriam três anos.
Em janeiro de 1979, A Vida na Terra foi exibida. Foi um êxito estrondoso, sendo visualizada por 500 milhões de pessoas – mais de 10% da população mundial, naquela data. O livro da série vendeu milhões de cópias.

O legado
Quando Attenborough, nos primeiros instantes de A Vida na Terra, surgia a bordo de um veleiro observando com binóculos a paisagem das Ilhas Galápagos há quase 50 anos, já não era um simples estreante nestas andanças. Trazia na mochila um currículo preenchido de expedições magníficas pelo mundo natural.
Na carreira deste grande naturalista e apresentador, A Vida na Terra é o grande ponto de partida da sua longa expedição ao mundo natural, preenchida pelos sucessivos programas que nos maravilharam ao longo de décadas até ao dia de hoje, 8 de maio de 2026. No dia em que completa um século de vida, celebramos o homem que ao longo da sua vida apresentou no seu estilo único o mundo natural à humanidade, ensinando-nos a amá-lo e a protegê-lo!
Sir David Attenborough, Parabéns!
