A gripe que afeta as aves selvagens na Europa durante as migrações do Outono está a preocupar as autoridades. A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) ajuda a compreender melhor o que se passa.
Por estes dias, a gripe aviária preocupa conservacionistas e autoridades em toda a Europa.
Na verdade, segundo a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), os focos de infeção por vírus da gripe aviária são mais elevados do que os dos anos anteriores.
Por isso, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) declara “Nível sem precedentes de gripe aviária altamente patogénica em aves selvagens na Europa durante a migração de aves no outono de 2025”.
A fim de salvaguardar a saúde das aves e a saúde pública, o Edital n.º 38 deu continuidade à ordem de confinamento das aves domésticas em todo o território do continente e a proibição da realização de eventos de exposição e concurso de aves em cativeiro, bem como a proibição de ajuntamentos de aves domésticas em feiras e mercados.
De momento não há há evidências de que a gripe aviária possa ser transmitida aos seres humanos através do consumo de alimentos.
Segundo a SPEA, “as maiores preocupações relativas à gripe aviária continuam a ser o impacto económico de eventuais surtos em aves de cativeiro e o impacto ecológico em espécies selvagens”. As mais vulneráveis são as que nidificam em colónias, como muitas espécies de aves marinhas e aquáticas, onde o vírus se pode espalhar rapidamente por um grande número de aves e comprometer a população.
“Surtos em anos consecutivos poderão agravar a situação de populações já ameaçadas.”
Em Portugal, as aves selvagens mais afetadas têm sido as gaivotas, com alguns casos confirmados também garças, patos, cegonhas e alcatrazes.
A SPEA explica que os “casos em aves selvagens tendem a concentrar-se nas zonas costeiras e estuários, onde existem grandes concentrações de aves marinhas, nomeadamente gaivotas, mas podem surgir focos de gripe aviária um pouco por todo o país”.
Passeios para observação de aves
Quem gosta de sair para observar aves pode ficar descansado. “As atividades de observação de aves e passeios de natureza mantêm-se seguras para quem segue as recomendações básicas: manter distância de qualquer ave selvagem, especialmente de aves doentes ou mortas, não lhes tocar e reportar situações anómalas”, garante a organização.
Os observadores de aves podem até mesmo ajudar. Se encontrar uma ave viva mas com sinais de doença – como movimentos descoordenados, tremores, torção do pescoço e apatia extrema – deve contactar as autoridades responsáveis, nomeadamente: o SEPNA/GNR: 808 200 520 (Portugal continental); a Rede SOS Vida Selvagem: 961957545 (Madeira); a Linha SOS Ambiente: 800292800 (Açores); o centro de recuperação mais próximo ou o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
Mas, sobretudo, não se deve aproximar das aves com sintomas.
Se encontrar uma ave morta, deve tirar a fotografia e registar a data e o local com a maior precisão possível para enviar àquelas entidades.
Estas acções são importantes para ajudar a sabermos mais sobre a gripe aviária que, em alguns casos, já é uma ameaça significativa para espécies em perigo.
“A mortalidade causada pela gripe aviária ao longo dos últimos anos já é significativa em algumas populações de aves marinhas, como o alcatraz e o garajau-de-bico-preto”, recorda a SPEA. “Ao somar-se aos impactos de outras ameaças – como a sobrepesca, as capturas acidentais e a poluição por plásticos – dificulta ainda mais a situação das aves marinhas, que já são um dos grupos animais mais ameaçados do mundo.”
Isto porque as aves marinhas demoram vários anos a atingir a maturidade sexual e têm geralmente poucas crias por ano. Portanto, uma colónia pode levar largos anos a recuperar de um surto que dizime os adultos reprodutores. A monitorização feita pela SPEA e parceiros nacionais e internacionais, em coordenação com as autoridades, é essencial para perceber a dimensão real deste impacto.
As equipas da SPEA e os seus parceiros e voluntários estão alerta para situações como a gripe aviária. Quando, no decurso dos seus trabalhos, as equipas SPEA detetam aves com suspeita de gripe aviária, os técnicos da SPEA reportam às autoridades competentes, seguindo os procedimentos aconselhados a todos os cidadãos.
“Ao monitorizar regularmente as populações de aves selvagens, a SPEA recolhe dados importantes para aferir o impacto de eventuais surtos nas diferentes espécies, permitindo, juntamente com parceiros nacionais e internacionais, identificar tendências populacionais e assim avaliar o grau de ameaça para a sobrevivência das espécies.”