Nos dias mais quentes do verão, quando os termómetros ultrapassam os 40°C, há um som que parece nunca desaparecer: o canto das cigarras. Mas como conseguem estes insetos suportar temperaturas tão elevadas? E será que o calor extremo lhes faz bem ou também tem limites?
A resposta curta é que as cigarras são animais adaptados ao calor, mas nem elas são imunes às temperaturas extremas. Quando o ambiente aquece demasiado, têm de recorrer a estratégias muito específicas para evitar o sobre-aquecimento.
Segundo Gonçalo J. Costa, investigador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), a cigarra-comum (Cicada orni), a espécie mais característica do verão português, especialmente no litoral e nas cidades costeiras, depende do calor para estar ativa. “O calor é um dos sinais que desencadeia a emergência das cigarras depois de anos passados debaixo da terra”, explicou à Wilder.
Na verdade, as temperaturas elevadas são indispensáveis para que consigam cantar. “Abaixo dos 25°C é raro ouvi-las”, salientou o investigador. Por isso, nas primeiras horas da manhã, é comum procurarem locais expostos ao sol para aquecerem o corpo e conseguirem começar o seu canto.
O problema é que ao cantar, a cigarra produz bastante calor. É preciso dissipar esse calor de alguma maneira. Gonçalo J. Costa lembrou que “havia a lenda que as cigarras cantavam até rebentar, o que não é verdade, o que as pessoas viam eram as exúvias”.
Nos machos da cigarra-comum, a produção contínua do característico “tcheck-tcheck-tcheck” faz com que a temperatura corporal possa ficar cerca de 5°C acima da temperatura ambiente. Isso significa que, quando o ar se aproxima dos 35 ou 36°C, o risco de sobreaquecimento torna-se real.
Em vez de deixarem de cantar, as cigarras recorrem a comportamentos para controlar a temperatura corporal. Procuram zonas de sombra, escolhem locais mais frescos e alteram o próprio ritmo do canto.
Mas “parar de cantar para o macho da cigarra-comum é que não pode ser”, explicou Gonçalo J. Costa. “A sua vida acima da terra é relativamente curta então ela tem de cantar para atrair a atenção das fêmeas para acasalamento.”
Quando o calor aperta, a cigarra aumenta o intervalo entre cada sequência do seu canto. O habitual “tcheck-tcheck-tcheck” passa a ser mais espaçado, para não sobre-aquecer.
Mas esta estratégia também tem um limite.
Se os intervalos forem demasiado longos, a canção pode deixar de ser reconhecida pelas fêmeas da mesma espécie, diminuindo as probabilidades de acasalamento.
Este equilíbrio entre evitar o sobreaquecimento e continuar suficientemente atrativa torna as cigarras um modelo muito interessante para estudar a forma como a evolução concilia duas forças distintas: a seleção natural, que favorece a sobrevivência, e a seleção sexual, que favorece o sucesso reprodutivo.
O calor faz bem às cigarras ou tem impactos negativos?
As cigarras são insetos termófilos, ou seja, apreciam temperaturas elevadas e dependem delas para realizar grande parte da sua atividade.
De facto, explicou o investigador, “o calor é um dos triggers que diz às cigarras que podem emergir de debaixo da terra. Dependendo da espécie, há umas que emergem mais cedo (como o caso da Euryphara contentei ou a Hilaphura varipes) e outras mais tarde, como a C. orni ou as Tibicinas“.
Quanto mais tempo conseguirem cantar ao longo do dia, maiores serão, em princípio, as suas hipóteses de reprodução.
No entanto, existe um limite fisiológico. Quando as temperaturas se aproximam dos 35 ou 36°C, a cigarra-comum passa a privilegiar a termo-regulação, procurando reduzir o risco de sobre-aquecimento.
Nem todas as espécies respondem da mesma forma. Algumas, como Hilaphura varipes, interrompem a atividade durante as horas de maior calor e deixam de cantar a partir do meio-dia ou do início da tarde. Esta espécie “opta por se resguardar e ficar caladinha até ao dia seguinte”. Outras, como a cigarra-comum, conseguem prolongar o canto até ao pôr do sol, desde que encontrem formas de dissipar o calor.
Actualmente estão descritas 13 espécies de cigarras em Portugal.