As Zonas Especiais de Conservação (ZEC) da Rede Natura 2000 registaram, entre 2021 e 2025, uma proporção de área ardida cerca de duas vezes inferior à observada no restante território continental, revela um novo relatório da WWF Portugal divulgado nesta quarta-feira.
Para chegar a esta conclusão, a WWF Portugal cruzou dados oficiais de incêndios com cartografia de uso do solo e habitats naturais, utilizando sistemas de informação geográfica.
Uma das principais conclusões do relatório “Natureza e Incêndios: áreas e habitats mais afetados em Portugal” é a de que, “nos últimos cinco anos, as áreas classificadas da Rede Natura 2000 não registaram uma incidência proporcionalmente superior de incêndios relativamente ao restante território continental, contrariando uma perceção presente recentemente no debate público”, segundo um comunicado da organização.
Segundo os dados compilados pela WWF, entre 2021 e 2025, ardeu cerca de 6,1% da área fora das ZEC (áreas criadas ao abrigo da Diretiva Habitats, com o objetivo de contribuir para assegurar a biodiversidade), face a apenas 2,9% dentro destas áreas. Ainda assim, as áreas protegidas não estão imunes aos incêndios. A organização lembrou que cerca de um quarto da área ardida neste período ocorreu dentro destas zonas.
A WWF Portugal salientou também que, além das florestas, também ardem matos e arbustos, figuras não menos importantes para o equilíbrio do mundo natural. “Este tipo de vegetação desempenha um papel ecológico relevante, mas continua a não ser tido em conta na gestão do território, representando a maior parte da área ardida tanto dentro como fora das áreas de conservação.”
“Os resultados mostram que a conservação da natureza não é incompatível com a prevenção de incêndios. Pelo contrário, as áreas classificadas analisadas registaram uma incidência proporcionalmente menor de área ardida do que o restante território, o que demonstra a importância de olhar para os incêndios de forma holística e integrando perceções não só dos setores florestal e da proteção civil, mas também da conservação da natureza”, comentou Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal.
Na sua opinião, “só com base em mais e melhor conhecimento sobre onde e o que arde no território conseguimos desenhar soluções mais eficazes que protejam simultaneamente as pessoas, as áreas florestais e os nossos ecossistemas naturais”.
Para Catarina Grilo, “integrar prevenção de incêndios e conservação da natureza não é apenas possível, é indispensável”.
A WWF Portugal pede “atenção redobrada” e medidas de gestão e conservação específicas para habitats classificados a nível europeu como charnecas, zonas rochosas e determinadas formações florestais especialmente afetadas pelo fogo.
De uma forma geral, a organização entende que a prevenção dos incêndios só pode ser resolvida com uma abordagem que integre também a conservação da natureza.
Apesar das conclusões fundamentadas, a WWF Portugal alertou para a necessidade de aprofundar este tipo de análises com séries temporais mais longas e que incluam outros fatores, como o tipo de gestão da vegetação.
Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), de 1 de janeiro a 24 de junho arderam em Portugal 12898 hectares de espaços rurais, num total de quase 4000 ocorrências.