Os pauis e zonas húmidas do país são uma das melhores soluções para as povoações se protegerem de episódios de chuvas intensas e prolongadas. Conheça o exemplo do Paul de Tornada que está a proteger a vila de Tornada, no concelho das Caldas da Rainha, com a ajuda de Sara Moreira, do Centro Ecológico Educativo deste paul.
Basta percorrer apenas cinco quilómetros desde a cidade das Caldas da Rainha (Leiria) para chegarmos aos 45 hectares do Paul de Tornada. A Reserva Natural Local do Paul de Tornada, nas Caldas da Rainha, é uma zona húmida de importância internacional – sítio Ramsar desde 2001 – onde vivem mais de 140 espécies de animais. Tem cerca de 45 hectares, 25 dos quais permanentemente alagados e um sistema de valas de drenagem que conflui no rio Tornada.

WILDER: De que forma está esta zona húmida a proteger a vila de Tornada?
Sara Moreira: A Reserva Natural Local do Paul de Tornada funciona, na prática, como uma esponja gigante e um amortecedor natural. A sua importância é reconhecida internacionalmente pela Convenção de Ramsar (classificado como Sítio Ramsar desde 2001), precisamente pela sua capacidade de prestar múltiplos Serviços de Ecossistemas vitais, como a atenuação do impacto de cheias e tempestades.
O Paul de Tornada funciona como uma bacia de retenção natural. Quando a água vinda das várias linhas de água da cidade das Caldas da Rainha, em especial durante cheias e tempestades, chega ao Paul de Tornada, a sua velocidade diminui graças à presença de vegetação ripícola e grande parte desta fica armazenada e escoa em muito menor quantidade e velocidade em direção ao rio Tornada.
A vegetação densa e as plantas ripícolas típicas de zonas húmidas criam uma “barreira de fricção”. Esta vegetação abranda a velocidade da água à medida que esta entra no ecossistema, retirando-lhe o poder destrutivo que teria se corresse livremente por canais artificiais ou terrenos impermeabilizados. Após o pico da tempestade, o Paul liberta a água de forma muito mais lenta e controlada em direção ao rio Tornada e à baía de São Martinho do Porto.

Se o Paul de Tornada não existisse, a massa de água que alagou por completo os trilhos deste ecossistema teria atravessado a vila de Tornada e as terras circundantes com uma velocidade e volume muito superiores, transformando-se num desastre com danos materiais e humanos muito mais acentuados.
W: Este volume de água retido agora no paul já tem sido registado noutros anos? Ou é algo raro?
Sara Moreira: Embora o cenário atual impressione pela sua magnitude, a memória coletiva da região guarda recordações de episódios semelhantes. Relatos de populares indicam que, há cerca de cinco ou seis décadas, o Paul de Tornada apresentava níveis de alagamento semelhantes aos atuais, num ciclo de cheias que era encarado com maior naturalidade e frequência pela comunidade local. Contudo, este padrão parece ter sofrido ao longo tempo, uma vez que, desde o início do trabalho da Associação PATO no ecossistema, no final dos anos 80, não existia registo de inundações frequentes, muito menos com estas dimensões.

Esta realidade mudou em especial nos últimos cinco anos. Desde 2021, temos testemunhado cheias cada vez mais intensas e regulares, que tornam a circulação pelos trilhos da Reserva frequentemente impossível. Ainda assim, o volume de água retido resultante destas últimas tempestades destaca-se como o mais elevado de que temos memória nas últimas décadas, representando uma surpresa mesmo para a equipa do Centro Ecológico Educativo do Paul de Tornada (Associação PATO e GEOTA), que acompanha diariamente a dinâmica deste Sítio Ramsar. Este fenómeno recente sugere que estamos a entrar num novo ciclo de eventos extremos, onde a função amortecedora do Paul de Tornada se torna mais vital do que nunca.
W: Estas chuvas terão algum impacto negativo nas importantes populações de cágados, nomeadamente do cágado-de-carapaça-estriada, do paul?
Sara Moreira: À partida, estas chuvas não terão qualquer impacto negativo no ciclo de vida das duas espécies de cágados nativos presentes no Paul de Tornada, o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) e o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa). Este cenário justifica-se pelo facto de nos encontrarmos na época em que estes animais estão em brumação, um estado de dormência em que o metabolismo é reduzido ao mínimo para conservar energia durante o inverno. Durante este período, os cágados permanecem inativos, frequentemente abrigados no fundo da massa de água ou enterrados no lodo, pelo que a sua atividade é quase nula e a necessidade de alimentação é praticamente inexistente.
W: E pode esta inundação ser benéfica para os ecossistemas e vida selvagem do paul? Se sim, de que forma?
Sara Moreira: Os ecossistemas e a vida selvagem estão adaptados e preparados para este tipo de eventos climáticos e intempéries. Naturalmente, terá existido a destruição de ninhos de aves que estavam a iniciar a sua construção, nomeadamente de garças-reais. No entanto, as mesmas ainda não teriam feito as suas posturas e por isso, irão construir novos ninhos, não pondo em causa a época de reprodução destas espécies.

Além disso, a entrada de uma grande massa de água que transbordou para os trilhos e para as valas e terrenos laterais que circundam este ecossistema, contribui para a renovação de sedimentos e matéria orgânica que funcionam como uma fertilização natural. Com estas cheias, criaram-se também múltiplos charcos temporários de profundidades variáveis dos quais espécies de anfíbios e invertebrados farão uso para a reprodução.
Saiba aqui por que é este paul tão importante para as duas únicas espécies portuguesas de cágados selvagens.