Um relatório de atualização sobre o Estado das Espécies Migratórias do Mundo, publicado esta quinta-feira, alerta para uma pior situação deste grupo, em especial das aves limícolas. Mas também há algumas (poucas) boas notícias.
Das aves aos mamíferos marinhos e aos antílopes, estão atualmente em declínio praticamente metade (49%) das populações de espécies migratórias abrangidas pela Convenção para a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens, um tratado internacional criado em 1979 no âmbito da ONU, também conhecido como Convenção de Bona. No total, 24% das espécies migratórias correm hoje risco de extinção em toda a sua área de distribuição.
Estes alertas foram lançados esta quinta-feira por um relatório interino que atualiza os dados que em fevereiro de 2024 foram divulgados pelo primeiro relatório sobre o Estado das Espécies Migratórias do Mundo, durante a 14ª Conferência das Partes deste tratado internacional, que visa assegurar a sobrevivência a longo prazo desses animais e dos habitats de que dependem. Esse primeiro documento revelou que o risco de extinção de muitas dessas espécies tem vindo a crescer por força do aumento da pressão humana.
O novo relatório vai ser analisado dentro de poucas semanas durante a 15ª conferência da convenção internacional, que se realiza no Brasil, em Campo Grande, de 23 a 29 de março. Entre os dados que foram atualizados, está a lista de espécies cujo risco de extinção piorou face aos dados conhecidos em 2024, no âmbito dos estudos que foram entretanto realizados pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
“Milhares de milhões de animais selvagens aquáticos, aviários e terrestres migram através da superfície terrestre, lagos, rios, oceanos e céus”, indica um comunicado sobre o novo documento. “[Estes animais] são essenciais para o bom funcionamento da natureza e o bem estar humano, para a polinização das plantas, o transporte de nutrientes, a regulação de ecossistemas, o controlo de pestes, o armazenamento de carbono e o sustento de modos de vida e de culturas por todo o mundo.”
“O primeiro relatório foi um primeiro alerta”, comentou a secretária-executiva da Convenção de Bona, Amy Fraenkel. “Esta atualização interina mostra que o alarme continua a soar. Algumas espécies estão a responder aos esforços concertados de conservação, mas demasiadas continuam a enfrentar pressões crescentes ao longo das rotas de migração. Devemos responder a essa evidência com uma ação internacional coordenada e efetiva.”
Há 26 espécies agora mais ameaçadas
Contas feitas, segundo os dados agora conhecidos, desde 2022 houve mais 26 espécies migradoras que passaram para uma situação mais ameaçada, ficando assim mais perto de uma possível extinção, incluindo 18 aves limícolas.
Dentro do mesmo grupo, destacam-se 19 espécies migratórias que passaram para as três categorias mais graves de ameaça, definidas pela UICN: Vulnerável, Em Perigo e Criticamente em Perigo.
Na lista de migradores cuja situação global está agora pior encontram-se pelo menos cinco aves que ocorrem em Portugal: abetarda (Otis tarda, que no território português é sobretudo residente), rola-do-mar (Arenaria interprens), pilrito-comum (Calidris alpina), pilrito-de-bico-comprido (Calidris ferruginea, habitualmente migrador de passagem), tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola).
Em contrapartida, outras sete espécies migratórias enfrentam agora um menor risco, incluindo a foca-monge (Monachus monachus). Este mamífero marinho tem uma população residente nos mares do arquipélago da Madeira, ao contrário de outros grupos dessa espécie que são migradores.
Foram tambem identificadas 9372 áreas-chave para a biodiversidade que são importantes para as espécies listadas pela convenção. Todavia, quase metade (47%) não estão cobertas por áreas protegidas ou dedicadas à conservação.
Por outro lado, o conhecimento científico sobre as espécies migratórias e as rotas que percorrem, tal como as áreas importantes ao longo do percurso, são cada vez melhor conhecidas, sustenta também o mesmo relatório. Em causa está o aumento da informação científica relativa a habitats e rotas de migração importantes para tubarões e raias e também para mamíferos marinhos, e ainda novas iniciativas lançadas que têm como objetivo a identificação de áreas para as tartarugas marinhas.