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Primeira lista dos líquenes de Portugal tem mais de 2.000 espécies mas muitas continuam por descobrir

31.07.2026
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Líquenes. Foto: Wilder/arquivo

Portugal continental alberga, pelo menos, 2012 espécies de líquenes e fungos liquenícolas, revela a primeira lista exaustiva que reúne mais de dois séculos de observações.

Os líquenes são associações simbióticas entre fungos e algas, em que os fungos obtêm o açúcar produzido pelas algas no processo de fotossíntese e estas ficam protegidas ao longo do ano todo.

A 23 de julho foi publicada a primeira lista de líquenes de Portugal Continental, num artigo na revista científica Journal of Fungi, um trabalho coordenado por Palmira Carvalho, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Segundo os autores deste estudo, “os inventários de espécies são ferramentas fundamentais para a investigação e a conservação da biodiversidade”. Isto porque permitem conhecer a distribuição das espécies, identificar as mais raras ou ameaçadas e apoiar programas de monitorização e de gestão da natureza.

No entanto, apesar de os líquenes representarem cerca de um quinto de todas as espécies de fungos descritas no mundo, Portugal continental nunca tinha tido uma lista de referência.

Para colmatar essa ausência, uma equipa de cinco investigadores compilou e reviu todos os registos publicados entre 1788 e 2021, reunindo informação dispersa por artigos científicos, monografias e outros trabalhos.

Portugal tem uma grande riqueza taxonómica

O inventário documenta a ocorrência de 2012 espécies distribuídas por 483 géneros, 127 famílias e 56 ordens, pertencentes a 11 classes de fungos, sendo a classe Lecanoromycetes a mais representada.

Os autores salientam que este número coloca Portugal entre os países europeus com maior diversidade de líquenes. A título de comparação, a Alemanha, cuja área é cerca de quatro vezes superior à portuguesa, regista aproximadamente 2600 espécies, enquanto Itália, com cerca de três vezes a área de Portugal continental, alberga cerca de 2800 espécies.

Segundo os investigadores, esta riqueza poderá estar relacionada com a posição geográfica de Portugal, situado no extremo sudoeste da Europa, onde convergem influências climáticas atlânticas, mediterrânicas e continentais. A diversidade de habitats e a complexidade do relevo contribuem também para criar condições favoráveis a uma flora liquénica particularmente diversa.

Entre as espécies mais frequentemente registadas encontram-se Collema furfuraceum, com 595 ocorrências, Ramalina farinaceaLobaria pulmonaria e Evernia prunastri, cada uma com mais de 350 registos.

No extremo oposto, 388 espécies foram registadas apenas uma única vez, o que poderá refletir tanto a sua raridade como a escassez de estudos em determinadas regiões.

Também a distribuição dos géneros revela uma elevada diversidade: três géneros — LecanoraCladonia e Lecidea — incluem mais de 60 espécies cada, enquanto 219 géneros estão representados por apenas uma espécie.

Um conhecimento muito desigual

A nova lista revela ainda que o conhecimento sobre os líquenes portugueses está longe de ser uniforme.

A antiga província da Estremadura concentra o maior número de registos publicados (7860) e a maior riqueza taxonómica, com 1077 táxones, correspondendo a mais de metade de todas as espécies conhecidas em Portugal continental. Seguem-se o Minho, com 6160 registos, e o Algarve, com 5454.

Curiosamente, embora o Minho tenha mais observações publicadas do que o Algarve, este último regista uma maior riqueza de espécies (872 táxones, contra 690), sugerindo que poderá albergar uma diversidade particularmente elevada.

No entanto, os autores alertam que estes padrões refletem, em grande medida, onde os investigadores procuraram líquenes ao longo dos últimos dois séculos. A distribuição dos registos apresenta um forte enviesamento geográfico, deixando vastas regiões do país pouco estudadas, admitem.

Por essa razão, os investigadores defendem que esta lista deve ser encarada como um ponto de partida e não como um retrato definitivo da diversidade de líquenes em Portugal.

As prioridades futuras passam por realizar levantamentos sistemáticos nas regiões menos estudadas, sobretudo em áreas protegidas, como parques nacionais e reservas naturais, onde a diversidade de habitats e de microclimas poderá esconder numerosas espécies ainda não documentadas.

Os autores defendem também uma maior integração entre os dados dos herbários, novos estudos florísticos e programas de biomonitorização ambiental, permitindo acompanhar eventuais alterações na distribuição dos líquenes provocadas pelas mudanças climáticas e pelas transformações do uso do solo.

É mesmo possível, concluem, que a biodiversidade de líquenes em Portugal esteja atualmente subestimada. Só um esforço continuado de inventariação permitirá conhecer verdadeiramente a riqueza destes organismos, que desempenham um papel fundamental nos ecossistemas e são importantes indicadores da qualidade ambiental.

Entretanto foi lançado este ano o projeto “Líquenes à Moda do Norte” que está a estudar o potencial de utilização destes fungos especiais no restauro ecológico, na certificação florestal e na economia do Nordeste Transmontano. Esta iniciativa – desenvolvida pela Associação BIOPOLIS e que conta com vários parceiros, incluindo a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural – quer “valorizar e diversificar a utilização destes organismos, beneficiando quer o habitat onde se desenvolvem, nomeadamente os carvalhais do interior Norte do país, quer as comunidades humanas, através da valorização económica de produtos.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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