Exigida concretização da proposta de criação desta nova área protegida no Algarve com mais de 400 hectares, que esteve em consulta pública no início de 2022 mas não avançou até hoje.
É urgente classificar a área da Lagoa dos Salgados como reserva natural de âmbito nacional, para possibilitar a gestão integrada desta zona húmida algarvia, apelaram esta terça-feira nove organizações não governamentais de ambiente (ONGA), lembrando que recentemente houve relatos de morte de peixes, aves e caranguejos na Ribeira de Alcantarilha.
“Mais uma vez, perante temperaturas elevadas e baixos níveis de água, assistimos às consequências da falta de uma gestão proativa de um dos mais importantes sistemas húmidos no litoral algarvio”, acusa uma nota de imprensa conjunta subscrita por estas associações portuguesas, que explica que as mortes ocorridas na ribeira de Alcantarilha se deveram a episódios de botulismo, um tipo de intoxicação que pode ocorrer em situações de muito calor e falta de água.
“Episódios semelhantes têm sido registados em zonas húmidas próximas, como a Lagoa dos Salgados, pelo que estes não podem continuar a ser encarados como problemas distintos”, acrescenta o mesmo documento, que alerta para “a necessidade de haver uma gestão integrada de todo este território”. A nota de imprensa é subscrita pela A Rocha, Almargem, WWF Portugal, Associação Vita Nativa, Liga para a Protecção da Natureza, Quercus, Sociedade Portuguesa de Botânica, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e ZERO.

A proposta de criação da futura Reserva Natural da Lagoa dos Salgados, que esteve em consulta pública entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021 – mas desde então não passou do papel – prevê uma área protegida com mais de 400 hectares, abarcando várias zonas húmidas situadas no concelho de Silves. Além da Lagoa dos Salgados, também estão incluídas a Ribeira de Alcantarilha, o sapal de Pêra-Alcantarilha e a ribeira de Espiche.

Segundo a proposta, a área em causa inclui 12 habitats naturais e semi-naturais, classificados como de interesse comunitário pela legislação portuguesa, entre os quais dois habitats prioritários, como é o caso das lagunas costeiras. Foram encontradas também 13 espécies de flora RELAPE (raras, endémicas, localizadas, ameaçadas ou em perigo de extinção), incluindo um grande povoamento de Linaria algarviana. Conhecida como “pombinhas do Algarve”, esta planta existe quase exclusivamente no Barlavento Algarvio, ou seja, na zona ocidental que vai de Vila do Bispo a Albufeira.

O local alberga também várias espécies de animais ameaçados de extinção em Portugal, como o zarro (Aythya ferina) e a garça-vermelha (Ardea purpurea) – que se reproduzem nesta zona algarvia – ou ainda a borboleta-monarca (Danaus plexippus), o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) e a osga-turca (Hemidactilus turcicus).

Mas embora a proposta em consulta pública tenha recebido mais de 800 participações, passados quatro anos “a reserva continua por criar e os problemas repetem-se”, sublinham as nove ONGA portuguesas.
“A classificação como Reserva Natural não impediria, por si só, todos os fenómenos associados a períodos de seca, temperaturas extremas ou baixos níveis de oxigénio. Mas permitiria fazer aquilo que hoje continua a faltar: prevenir, monitorizar e gerir o sistema como um todo”, defendem.
Além da criação “com urgência” da nova área protegida, estas organizações exigem outras medidas, como o estabelecimento de um modelo de gestão integrado, a monitorização regular dos níveis e qualidade da água, a definição de medidas de prevenção para situações de seca, de temperaturas extremas e níveis de oxigénio.
“A Lagoa dos Salgados não precisa de mais promessas. Precisa de proteção efetiva”, concluem.