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O que nos provoca medo, fascínio ou nojo numa cobra?

28.10.2026
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Víbora-de-seoane. Foto: Hugotxikipedia/Wiki Commons

Novo estudo analisou as reações emocionais de 377 pessoas em Portugal e no Brasil, quando confrontadas com imagens de diferentes espécies de serpentes.

O que nos leva a ter medo de uma determinada espécie de serpente, em detrimento de outras que nos provocam admiração ou, pelo contrário, nos causam repulsa?

Cabeça triangular, corpo robusto, escamas salientes ou padrões visuais muito marcados são algumas das características que provocam receio em quem as observa, mesmo quando estão em causa espécies inofensivas, concluiu um estudo da Universidade de Aveiro (UA) que analisou as reações emocionais de 377 pessoas, em Portugal e no Brasil, perante imagens de 92 espécies de serpentes.

Os investigadores tentaram perceber “de que forma a aparência das cobras influencia emoções como medo, repulsa, beleza e excitação”, descreve uma nota de imprensa da UA. Para isso, foram realizados inquéritos online a participantes provenientes de Portugal e do Brasil, países que são muito diferentes a este nível: enquanto que no primeiro existem apenas 10 espécies de serpentes, o território brasileiro tem uma diversidade muito maior desses répteis.

A escolha das serpentes como objeto de estudo não foi casual. Estes animais constituem um modelo particularmente interessante para investigar como ameaças recorrentes ao longo da história evolutiva podem ter contribuído para moldar mecanismos de perceção, respostas emocionais e comportamentos que observamos atualmente. O medo, neste contexto, desempenha uma função adaptativa fundamental, preparando o organismo para reagir a potenciais perigos e aumentando as suas possibilidades de sobrevivência. Esta perspetiva pode ajudar a compreender não apenas o medo das cobras, mas também processos mais gerais envolvidos na forma como os seres humanos percebem e reagem ao ambiente.

Jibóia-constritora, uma das espécies mais conhecidas de boas. Foto: Manugirard

As respostas obtidas levaram à identificação de três grupos de cobras que provocam respostas emocionais distintas, que se repetiram nos dois países. Um primeiro grupo está associado a níveis elevados de medo e inclui sobretudo víboras (altamente venenosas) e boas (grandes constritoras), mas também muitas espécies que imitam as características de serpentes potencialmente perigosas. Isso acontece por exemplo com as cobras da família Tropidophiidae, também conhecidas como jibóias-anãs, que “apesar de pequenas e inofensivas partilham traços com víboras e jibóias, o que provavelmente explica a sua surpreendente inclusão nesse grupo”, afirma o artigo científico, publicado esta semana pela The Royal Society.

Desta forma, cobras com a cabeça triangular ou larga, independentemente da espécie, parecem sinalizar perigo aos humanos que as observam, ainda que essa característica possa ter funções diferentes. “Nos viperídeos (víboras), as cabeças largas acomodam grandes musculaturas e glândulas de veneno, para que haja uma entrega eficiente de toxinas, enquanto que nas jibóias, a musculatura mandibular e a estrutura craniana robustas facilitam a captura e a ingestão de grandes presas”, acrescenta a equipa.

Um segundo grupo de cobras é caracterizado por valências mais positivas, reunindo sobretudo espécies inofensivas, como várias espécies das famílias Colubridae e Dipsadidae. Em Portugal, ocorrem várias espécies de Colubridae, como a cobra-lisa-bordalesa (Coronella girondica) ou a cobra-de-água-viperina (Natrix maura) Foi ainda identificado um grupo com menos espécies, associadas a níveis elevados de nojo e repulsa, constituído principalmente por répteis fossoriais ou sem membros.

A cobra-de-água-viperina, apesar do nome, não é venenosa nem pertence ao grupo das víboras. Esta é uma das espécies de serpentes que ocorrem em Portugal. Foto: gailhampshire/Wiki Commons

Assinado por Luiz Biondi, Fábio Silva e Sandra Soares, do Centro de Investigação William James da UA, e por Samuel Silva, do Instituto de Engenharia Eletrónica e Informática de Aveiro (IEETA), com a colaboração da Universidade de Brasília (Brasil), o estudo foi publicado pela The Royal Society.

Reconhecer sinais de ameaça

Apesar das diferenças entre Portugal e Brasil na biodiversidade de serpentes e na possibilidade de contacto com estes animais, “a pertença das espécies aos diferentes grupos emocionais manteve-se semelhante nos dois países”, realça a Universidade de Aveiro. Os resultados apontam, assim, para a existência de mecanismos de avaliação visual que parecem ser partilhados entre diferentes contextos culturais.

Entre as características associadas às espécies que provocaram mais medo destacou-se uma maior densidade de contornos e padrões visuais. Cabeças triangulares, escamas carenadas e corpos robustos também parecem funcionar como pistas visuais de perigo. Estas características podem influenciar a perceção de ameaça mesmo quando a espécie em causa não representa um perigo real para os seres humanos.

Ou seja, perante um estímulo potencialmente ameaçador, como uma cobra, o cérebro poderá privilegiar a avaliação de sinais de perigo em vez da identificação precisa do estímulo: “Isto parece perigoso?”. A investigação sugere que estas “regras” visuais poderão ter sido moldadas ao longo da evolução, favorecendo a perceção de potenciais ameaças em vez de uma identificação taxonómica rigorosa.

A experiência individual, contudo, também parece desempenhar um papel importante. Os participantes que referiram maior contacto com cobras, sobretudo em ambientes naturais, apresentaram níveis mais baixos de medo, medidos através do Snake Fear Questionnaire.

Os resultados mostram, assim, que a perceção humana das cobras resulta da interação entre características visuais muito salientes e diferenças individuais. A morfologia ajuda a estruturar a perceção de ameaça, enquanto a experiência e as predisposições de cada pessoa parecem influenciar a intensidade da resposta emocional.

A combinação entre características estruturais e padrões de cor particularmente evidentes parece ainda potenciar a excitação emocional provocada pelas imagens. Para os investigadores, “estes resultados são compatíveis com a hipótese de que a relação evolutiva entre serpentes e primatas terá contribuído para moldar mecanismos do sistema visual humano, favorecendo a deteção rápida de potenciais ameaças”.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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