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Novo inventário revela que Portugal tem 231 espécies marinhas exóticas

03.09.2026
leitura de 3 minutos
Foto: Pexels/Pixabay

Mais de 30 investigadores atualizaram para 231 o número de espécies marinhas exóticas que passaram a viver em águas portuguesas. A principal porta de entrada é o transporte marítimo.

Onze anos depois, a Ciência portuguesa reuniu-se para atualizar o inventário nacional de espécies marinhas não indígenas. São agora 231, confirmadas em Portugal continental, nos Açores e na Madeira, incluindo cinco espécies nunca antes registadas no país.

O trabalho, publicado num artigo na revista Marine Pollution Bulletin, reuniu 31 investigadores de 11 universidades portuguesas, três entidades públicas nacionais e diversos institutos de investigação, e foi liderado por investigadores do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, e do ARNET – Rede de Investigação Aquática.

Das 231 espécies confirmadas, 159 ocorrem em Portugal continental, 81 nos Açores e 62 na Madeira.

As cinco novas espécies foram identificadas na costa sudoeste do continente, junto ao Porto de Sines, através de um programa de monitorização ambiental de longo prazo que acompanha aquela área geográfica, desde 1997. 

Duas rotas de invasão diferentes

O estudo revela um padrão geográfico claro sobre a origem destas espécies marinhas invasoras. “Em Portugal continental, 39% das espécies não indígenas são originárias do oceano temperado do Pacífico Norte, seguidas de 24% com origem no Atlântico Norte”, segundo um comunicado do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.

“Nos arquipélagos, o padrão inverte-se: na Madeira, 27% das espécies têm origem no Atlântico Norte e 24% no Atlântico Tropical, enquanto nos Açores, 37% provêm do Atlântico Norte e 19% do Pacífico Norte, um perfil mais próximo do observado no continente.”

Em todo o país, o transporte marítimo, sobretudo através da água de lastro e da bioincrustação nos cascos dos navios, é a principal via de introdução destas espécies, com a aquacultura a ter um peso particularmente relevante no continente.

O Porto de Sines, o maior e mais ocidental porto de águas profundas da Europa continental, surge no estudo como um ponto estratégico de entrada, dada a sua localização no cruzamento de rotas marítimas que ligam a Ásia, o Mediterrâneo, os Estados Unidos e África.

O ADN como sistema de alerta precoce

Além da checklist morfológica, a equipa desenvolveu uma lista de vigilância pioneira com 22 espécies detetadas exclusivamente por métodos moleculares, como o ADN ambiental, ainda sem confirmação física da sua existência. “Este mecanismo funciona como um sistema de alerta precoce, capaz de sinalizar potenciais invasores antes de serem visualmente identificados no terreno.”

O estudo identificou também que, apesar de 71% das espécies catalogadas já estarem representadas em bases de dados genéticas internacionais, só 12,5% têm sequências obtidas a partir de espécimes recolhidos especificamente em águas portuguesas.

“Isto significa que, na prática, a maioria das ‘referências genéticas’ usadas para identificar estas espécies em Portugal vem de populações de outras partes do mundo, o que pode reduzir a fiabilidade de ferramentas de deteção rápida como o ADN ambiental, e dificultar a distinção entre espécies muito semelhantes geneticamente”, nota aquele comunicado.

Por isso, os autores desta atualização defendem um reforço da recolha de amostras em Portugal e acreditam que é uma “prioridade para tornar a vigilância genética mais precisa e rápida”.

“As invasões marinhas são um fenómeno dinâmico e transfronteiriço, e compreendê-las exige uma ciência capaz de trabalhar à mesma escala”, comentou Romeu Ribeiro, investigador do MARE, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e primeiro autor do estudo. “Este estudo permitiu-nos ir muito além de uma simples atualização do número de espécies, revelando padrões de introdução, lacunas no conhecimento genético e prioridades para a monitorização futura”, acrescentou.

Este trabalho resulta de uma colaboração nacional coordenada pela investigadora Paula Chainho do MARE na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (MARE-ULisboa), que envolveu a Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM), o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), além de investigadores de 11 universidades portuguesas, e é financiado, entre outros, pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), através da Agenda NEXUS, e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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