A araponga-comum e a seriema estão entre mais de uma centena de chamamentos gravados e analisados por dois investigadores ligados à Universidade de Massachusetts Amherst.
Jeff Podos, investigador na Universidade de Massachusetts Amherst, e João Menezes, que foi doutorando do primeiro, encontraram duas aves que concorrem pelo lugar de mais barulhenta do mundo: a araponga-comum (Procnia nudicollis) e a seriema (Cariama cristata).
Os sons destas duas espécies, que ocorrem no Brasil, foram gravados pelos dois cientistas durante a realização de um estudo sobre os motivos que fazem com que umas aves sejam mais barulhentas do que outras. Os resultados da investigação foram publicados esta quarta-feira na revista científica Evolution.
Antes desta nova investigação, em 2019, Jeff Podos tinha classificado uma outra ave tropical, a araponga-da-amazónia (Procnias albus), como a que tem o chamamento mais sonoro do mundo. Os sons emitidos por esta ave são mais altos do que o barulho de uma moto-serra em aceleração.
A descoberta mais recente sobre o volume alcançado pelos chamamentos da araponga-comum e da seriema deu-se no âmbito de uma investigação científica sobre as características físicas que podem ajudar a prever se uma determinada ave emite sons mais elevados do que outras se isso estará relacionado com o nicho ecológico e a organização social de uma determinada espécie, explica um comunicado divulgado esta semana pela Universidade de Massachusetts Amherst.
“Descobrir a que ponto é alto o chamamento de uma ave deveria ser bastante fácil de fazer em laboratório”, diz João Menezes, que acrescenta que todavia, até agora, “isso tem sido muito desafiador no campo, e existem muitos poucos dados que se possam aproveitar.”
Isto acontece porque o volume, ou amplitude, dependem fundamentalmente da distância a que se conseguem fazer ouvir, explica a equipa: um grito pode ferir-nos os ouvidos a curta distância, mas mesmo assim já quase não se ouvir a poucas centenas de metros.

Durante este novo estudo, os dois cientistas foram para o terreno e dedicaram-se a medir o volume dos sons de 123 aves nas áreas em redor de Amherst, Massachussets, e também um pouco por todo o Brasil.
Chegaram à conclusão de que existe uma enorme variabilidade no volume dos chamamentos de diferentes espécies: desde o beija-flor, com 64 decibéis – o volume de uma conversa – até à araponga-comum e à seriema, que chegam acima dos 120 decibéis, ou seja, mais alto do que os sons de uma moto-serra ou de um martelo pneumático a trabalhar.
Ambos perceberam também, como já era esperado, que as ave maiores, com músculos grandes e bicos que conseguem realizar grandes aberturas, tendem a emitir sons mais elevados, com uma maior amplitude.
No entanto, para já, os dois cientistas não conseguiram ainda respostas sobre os porquês dessas diferenças. “Sabemos agora algumas coisas sobre o como: corpos maiores e bicos mais abertos”, comentou Menezes. “Mas ainda temos de descobrir os porquês, e para isso necessitamos provavelmente de muitos mais dados sobre muitas mais espécies, para conseguirmos descortinar o que se passa nas frentes ecológica e evolucionária.”