Os cientistas de todo o mundo estão a descobrir espécies mais rapidamente do que nunca, com mais de 16.000 novas espécies identificadas por ano, de acordo com um novo estudo liderado pela Universidade do Arizona e publicado na revista Science Advances.
Há cerca de 300 anos, o naturalista sueco Carl Linnaeus lançou-se numa missão ousada: identificar e dar nome a todos os organismos vivos da Terra. Hoje celebrado como o pai da taxonomia moderna, desenvolveu o sistema de nomenclatura binomial e descreveu mais de 10.000 espécies de plantas e animais.
Desde então, os cientistas têm continuado a descrever novas espécies para desvendar a biodiversidade do planeta.
A equipa responsável por este estudo, publicado a 5 de dezembro na revista Science Advances, prevê que a biodiversidade de certos grupos — como plantas, fungos, aracnídeos, peixes e anfíbios — seja mais rica do que se pensava inicialmente.
“Alguns cientistas sugeriram que o ritmo de descrição de novas espécies diminuiu, o que indicaria que estamos a ficar sem espécies por descobrir, mas os nossos resultados mostram exatamente o contrário”, disse, em comunicado, John Wiens, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva na Faculdade de Ciências da Universidade do Arizona e autor sénior do artigo. “Na verdade, estamos a encontrar novas espécies a um ritmo mais rápido do que nunca.”
A equipa analisou as histórias taxonómicas de cerca de 2 milhões de espécies, abrangendo todos os grupos de organismos vivos.
Entre 2015 e 2020, o período mais recente com dados abrangentes, os investigadores documentaram uma média anual de mais de 16.000 novas espécies, incluindo mais de 10.000 animais (dominados por artrópodes e insetos), 2.500 plantas e 2.000 fungos. O número máximo foi registado em 2020, com a descrição de 17.044 novas espécies.
“A boa notícia é que esta taxa de descoberta de novas espécies ultrapassa largamente a taxa de extinção de espécies, que estimámos em cerca de 10 por ano”, afirmou Wiens, referindo-se a outro estudo por si liderado e publicado em outubro. “Estas milhares de espécies descobertas todos os anos não são apenas organismos microscópicos, mas incluem insetos, plantas, fungos e até centenas de novos vertebrados.”
Os cientistas estão a descrever mais espécies por ano do que em qualquer outro momento da história, concluíram Wiens e os seus coautores. A equipa analisou também as taxas de descrição de novas espécies ao longo do tempo para projetar quantas espécies poderão ser descobertas no futuro.
Por exemplo, estimaram que poderão existir até 115.000 espécies de peixes e 41.000 espécies de anfíbios, apesar de atualmente estarem descritas apenas cerca de 42.000 espécies de peixes e 9.000 de anfíbios. Projetaram ainda que o número final de espécies de plantas poderá ultrapassar o meio milhão.
“Como afirmou o famoso ecólogo Robert May, se visitantes alienígenas nos perguntassem quantas espécies vivem no nosso planeta, não teríamos uma resposta definitiva”, disse Wiens. “Neste momento, conhecemos cerca de 2,5 milhões de espécies, mas o número real poderá situar-se nas dezenas ou centenas de milhões, ou mesmo em alguns milhares de milhões.”
Por agora, os cientistas preveem que a taxa de descoberta de novos organismos vivos continue a aumentar.
“Neste momento, a maioria das novas espécies é identificada com base em características visíveis”, explicou Wiens. “Mas, à medida que as ferramentas moleculares melhoram, iremos descobrir cada vez mais espécies crípticas — organismos que só se distinguem ao nível genético. Isto é particularmente promissor para revelar uma maior diversidade de bactérias e fungos.”
Wiens acrescentou que “descobrir novas espécies é fundamental porque estas não podem ser protegidas até serem cientificamente descritas”. “A documentação é o primeiro passo para a conservação — não podemos proteger uma espécie da extinção se não soubermos que ela existe.”
Além disso, a descoberta de novas espécies contribui para a identificação de novos produtos naturais com benefícios para os seres humanos, nomeadamente para o tratamento do cancro.
“Ainda estamos apenas a arranhar a superfície do que estas espécies podem oferecer à humanidade”, afirmou Wiens.
No futuro, os investigadores pretendem mapear as regiões onde são descobertas mais frequentemente novas espécies, de modo a identificar hotspots geográficos de biodiversidade ainda desconhecida. Estão também interessados em saber quem está a fazer estas descobertas e a avaliar se houve uma mudança de um predomínio de cientistas europeus para investigadores que documentam novas espécies nos seus próprios países.
“Embora a missão de Linnaeus para identificar espécies tenha começado há 300 anos, 15% de todas as espécies atualmente conhecidas foram descobertas apenas nos últimos 20 anos”, concluiu Wiens. “Muito permanece desconhecido e cada nova descoberta aproxima-nos de compreender e proteger a extraordinária biodiversidade da vida no nosso planeta.”