Até agora pensava-se que os corvos seguiam os lobos para encontrar presas frescas. Um estudo com seguimento por GPS, publicado hoje na revista científica Science, revela uma estratégia de alimentação muito mais interessante.
Quando uma alcateia de lobos abate uma presa, muitas vezes os primeiros a chegar são os corvos. Mesmo antes de os predadores começarem a alimentar-se, os corvos já estão por perto, à espera de aproveitar os restos de carne que ficam disponíveis.
A rapidez com que estas aves necrófagas chegam aos locais onde os lobos fizeram uma presa é surpreendente. Durante muito tempo, pensou-se que a explicação era simples: os corvos seguiriam os lobos.

Mas um novo estudo que acompanhou corvos e lobos no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, durante dois anos e meio mostra que a estratégia dos corvos é muito mais sofisticada. Em vez de seguirem constantemente os lobos, estas aves parecem lembrar-se dos locais onde é mais provável que ocorram caçadas bem-sucedidas e regressam a essas zonas, mesmo quando estão muito longe.
“Conseguem voar seis horas seguidas, diretamente até um local onde houve uma presa”, explica, em comunicado, Matthias Loretto, primeiro autor do estudo e investigador da Universidade de Medicina Veterinária de Viena.
Publicado na revista Science a 12 de março, o trabalho sugere que os corvos utilizam memória espacial e capacidade de navegação para encontrar alimento disperso na paisagem. “Os corvos conseguem percorrer grandes distâncias a voar e parecem ter uma boa memória, por isso não precisam de seguir constantemente os lobos para beneficiar das suas presas”, acrescenta Loretto.
O estudo foi liderado pelo Research Institute of Wildlife Ecology da Universidade de Medicina Veterinária de Viena e pelo Max Planck Institute of Animal Behavior, em colaboração com várias instituições internacionais, incluindo o Senckenberg Biodiversity and Climate Research Centre, a Universidade de Washington e o próprio Parque Nacional de Yellowstone.
Testar uma antiga crença
O estudo centrou-se em Yellowstone, onde os lobos foram reintroduzidos em meados da década de 1990, após cerca de 70 anos de ausência. As alcateias do parque são monitorizadas com coleiras de rastreamento, usadas por cerca de um quarto da população em cada ano.
Segundo Dan Stahler, biólogo que acompanha os lobos de Yellowstone desde a sua reintrodução, os corvos parecem muitas vezes procurar a companhia dos predadores. “Vemos frequentemente corvos a voar diretamente sobre alcateias em movimento ou a saltitar atrás dos lobos quando estes abatem uma presa”, diz.
Para os corvos, esta é uma estratégia lucrativa: os lobos acabam quase sempre por produzir alimento que as aves podem aproveitar. “Sempre assumimos que as aves seguiam uma regra simples: manter-se perto dos lobos”, explica Stahler. Mas essa hipótese nunca tinha sido testada. “Não sabíamos do que os corvos eram capazes porque ninguém tinha analisado a situação do ponto de vista do necrófago.”
Para compreender melhor o comportamento destas aves, a equipa equipou 69 corvos com pequenos dispositivos GPS. “É um número enorme”, diz Loretto. “Os corvos são extremamente atentos à paisagem e não caem facilmente em armadilhas.”

Para os capturar, os investigadores tiveram de disfarçar cuidadosamente os dispositivos de captura. Por exemplo, armadilhas colocadas perto de parques de campismo tinham de ser camufladas com lixo e restos de fast food. “Caso contrário, os corvos suspeitavam que algo não estava bem e não se aproximavam”, explica o investigador.
Além dos corvos, os cientistas analisaram também dados de movimento de 20 lobos com coleiras GPS. Os animais foram monitorizados durante o inverno, período em que os corvos mais frequentemente se associam aos lobos, com registos de localização a cada 30 minutos para os corvos e a cada hora para os lobos. Os investigadores incluíram ainda informação sobre os locais e momentos em que os lobos abatiam presas, sobretudo alces, bisontes e veados.
Memória das paisagens mais produtivas
Ao longo dos dois anos e meio de monitorização, os investigadores encontraram apenas um caso claro de um corvo a seguir um lobo por mais de um quilómetro ou durante mais de uma hora.
“No início ficámos intrigados”, conta Loretto. “Quando percebemos que os corvos não seguem os lobos por longas distâncias, não conseguíamos explicar como chegavam tão depressa aos locais das presas.”
Uma análise detalhada dos dados revelou o padrão: em vez de seguirem diretamente os predadores, os corvos regressam repetidamente a áreas específicas onde as presas dos lobos são mais frequentes. Alguns indivíduos chegaram a voar até 155 quilómetros num único dia, deslocando-se em trajetórias muito direcionadas para zonas onde era mais provável encontrar uma carcaça, mesmo que o momento exato da caça fosse imprevisível.
As presas dos lobos tendem a concentrar-se em determinados tipos de paisagem, como fundos de vale relativamente planos, onde a caça é mais eficaz. Os corvos visitavam muito mais frequentemente estas áreas com histórico de caçadas bem-sucedidas do que outras zonas onde as presas eram raras, o que sugere que aprendem e memorizam a “paisagem de recursos” criada pelos lobos ao longo do tempo.
“Já sabíamos que os corvos conseguem lembrar-se de fontes de alimento estáveis, como aterros sanitários”, explica Loretto. “O que nos surpreendeu foi perceber que também parecem aprender em que partes da paisagem as presas dos lobos são mais frequentes.”
Um novo olhar sobre a inteligência animal
Os autores não excluem que os corvos continuem a seguir os lobos em curtas distâncias. “Para localizar presas a nível local, os corvos devem usar pistas de curto alcance, como observar o comportamento dos lobos ou ouvir os seus uivos”, diz Loretto.
Mas, numa escala mais ampla, o padrão é claro: primeiro a memória, depois as pistas. Os corvos usam memória espacial e navegação para decidir onde procurar alimento, por vezes atravessando dezenas ou mesmo centenas de quilómetros.
Para John M. Marzluff, co-autor sénior do estudo e investigador da Universidade de Washington, os resultados mostram a grande flexibilidade destas aves. “O nosso estudo demonstra que os corvos não dependem de uma única alcateia. Graças aos seus sentidos apurados e à memória de locais onde já encontraram alimento, conseguem escolher entre muitas oportunidades de alimentação espalhadas pela paisagem.”
Segundo o investigador, isto muda a forma como entendemos a forma como os necrófagos encontram alimento e sugere que durante muito tempo subestimámos as capacidades de algumas espécies.