O investigador Luís Ceríaco a estudar colecções de História Natural. Foto: Mariana Marques (arquivo)

Investigadores portugueses e brasileiros seguem o rasto a uma das maiores expedições científicas do século XVIII

Início

Durante nove anos, no século XVIII, o naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira viajou pelo Brasil e inventariou as suas espécies. Hoje, passados mais de 200 anos, não há uma lista do que foi coletado, escrito e desenhado. A equipa do investigador Luís Ceríaco acaba de publicar os primeiros resultados herpetológicos daquela que é considerada uma das mais lendárias expedições científicas luso-brasileiras.

Quis o destino que Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815) morresse sem publicar um único parágrafo sobre o seu trabalho. E não foi um trabalho qualquer.

A “Viagem Filosófica” ao Brasil, como ficou oficialmente conhecida, liderada por Alexandre Rodrigues Ferreira, durou de 1783 a 1792 e é uma das mais impressionantes expedições científicas do século XVIII. 

Mapa das localidades visitadas durante a expedição (em cima); pintura a aguarela retratando a tripulação da expedição. Imagens: MUHNAC/AHMB

Aos 27 anos de idade embarcou numa expedição para mostrar ao mundo e à Ciência as espécies do Brasil, em locais que hoje são considerados hotspots de biodiversidade: Amazónia, Pantanal e Cerrado. Aquando do início do trajeto – na qual seguiram também os ilustradores José Codine e José Joaquim Freire – eram praticamente desconhecidos.

A “Viagem Filosófica” de Alexandre Rodrigues Ferreira trouxe “dezenas de novas espécies, quer de plantas quer de animais, conhecimento sobre os povos indígenas de toda a bacia do Amazonas, a descrição física dos lugares… Foi uma viagem absolutamente fora de série, por um território praticamente virgem para a Ciência”, comentou à Wilder Luís Ceríaco, autor principal do artigo científico publicado a 16 de dezembro na revista “South American Journal of Herpetology” e assinado por mais oito investigadores. 

Espécime de Micrurus paraensis no Museu de Ciências da Universidade de Coimbra, colectado durante a expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira. Foto: LMPC

Neste artigo, Ceríaco, investigador do CIBIO/INBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, e uma equipa de investigadores portugueses e brasileiros, reviram e compilaram os resultados sobre répteis e anfíbios da expedição. Para isso recorreram a memórias, ilustrações e espécimes guardados em museus de Portugal, Brasil e França.

Na verdade, a ideia desta investigação surgiu há 15 anos. “Acalento esta ideia desde o início do meu doutoramento (2010). A ‘Viagem Filosófica’ de Alexandre Rodrigues Ferreira é, talvez, uma das mais lendárias expedições científicas luso-brasileiras e há décadas que os historiadores da Ciência se debruçam sobre ela”, disse Ceríaco. “No entanto, na minha opinião, foi sempre estudada com pouco detalhe e nunca houve uma tentativa séria de tentar localizar todos os espécimes, manuscritos e desenhos feitos na expedição.” Na verdade, “passados mais de dois séculos do seu fim, não há uma lista detalhada do que foi coletado, escrito e desenhado”. 

O objetivo de Ceríaco “é localizar, identificar e estudar todo este material, principalmente o referente à zoologia. Publicámos agora os resultados herpetológicos, mas estamos a trabalhar na parte dos peixes, aves e mamíferos”.

O que sobreviveu

Segundo este trabalho, a viagem naturalista conseguiu colectar, pelo menos, 1666 espécimes herpetológicos, incluindo 505 tartarugas, 130 lagartos e crocodilos, 186 cobras e 845 ovos.

Estes foram sendo enviados do Brasil para Portugal mas, ao longo das décadas, os espécimes foram-se perdendo. As razões são várias, desde as invasões francesas e mudanças de instalações das coleções de História Natural ao incêndio que, em Março de 1978, destruiu as coleções de zoologia do Museu de História Natural da Universidade de Lisboa. “Todas as coleções de herpetologia, incluindo as da expedição, se perderam”, escrevem os autores no artigo científico.

Espécime de Chelas fimbriata no Museu de Ciência da Universidade de Coimbra colectado na expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira. Foto: LMPC

Os espécimes que sobreviveram representam alguns dos mais antigos depositados em coleções de História Natural portuguesas e dos mais antigos espécimes herpetológicos do Brasil.

Hoje é o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra que tem o maior número de espécimes herpetológicos atribuídos à expedição. São 24 espécimes, incluindo tartarugas, crocodilos e cobras.

“O bom número de espécimes herpetológicos deste Museu é fruto de várias permutas/ofertas feitas pelo Gabinete Real de História Natural da Ajuda para o então Gabinete de História Natural da Universidade no final do século XVIII e início do século XIX. Há mais espécimes na Academia das Ciências de Lisboa, fruto das mesmas permutas, e no Muséum National d’Histoire Naturelle de Paris, para onde foram levados em 1808 aquando das invasões francesas”, explicou Luís Ceríaco. 

De facto, o Museu de História Natural de Paris alberga 10 espécimes atribuídos à expedição, entre eles o holotipo do cágado-de-ferradura-comum (Phrynops geoffroanus).

Luís Ceríaco e o herpetólogo francês Roger Bour (já falecido), nas coleções herpetológicas do Museum national d’Histoire naturelle de Paris, a identificar um espécime do ARF. Foto: Mariana Marques

Hoje ainda não se conhece ao certo o impacto que esta expedição teve na Ciência da época e, consequentemente, nos dias de hoje. “Contrariamente a outras expedições naturalistas da época e em que os resultados foram publicados e publicitados pelos seus autores – como o caso das célebres expedições de Humboldt ou de Darwin – a expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira não foi nunca publicada na íntegra pelo seu autor. Aliás, o Alexandre Rodrigues Ferreira morre sem conseguir publicar um parágrafo sobre o seu trabalho”, notou Luís Ceríaco. 

“No entanto, as suas coleções, desenhos e manuscritos foram aproveitados por dezenas de naturalistas europeus que, através deles, descreveram dezenas de espécies novas para a Ciência. Nestas espécies incluem-se alguns dos animais mais icónicos da América do Sul, como o boto cor-de-rosa (Inia geoffrensis) ou a tartaruga-da-Amazónia (Podocnemis expansa). 

Bastidores da investigação

Este trabalho de pesquisa durou mais anos do que a expedição em si. “Comecei a recolher, compilar e estudar dados há 15 anos. É um trabalho moroso porque as coisas estão espalhadas entre o Brasil, Portugal e França e nem sempre totalmente acessíveis aos investigadores”, explicou Luís Ceríaco. “Além disso, quis também revisitar pessoalmente os locais por onde a expedição passou no Brasil, pelo que tenho andado nas minhas próprias ‘viagens filosóficas’ pelo Amazonas, pelo Mato Grosso e pelo Pantanal, a revisitar os locais onde o Alexandre Rodrigues Ferreira trabalhou.”

Luís Ceríaco a tomar apontamentos no barco entre Manaus e Barcelos, no Rio Negro, no mesmo percurso da “Viagem Filosófica”. Foto: D.R.

Segundo o investigador, as maiores dificuldades para seguir o rasto ao trabalho deste naturalista “prendem-se com a dispersão do material e a sua acessibilidade”. “O material da ‘Viagem Filosófica’ encontra-se espalhado entre arquivos, museus e bibliotecas de três países. Embora alguma parte deste material até já esteja totalmente digitalizado e disponível online – como é o caso de todo o material disponível na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – outros não se encontram ainda digitalizados ou sequer identificados nos arquivos e museus. Por vezes não pensamos nisto, mas a falta de catalogação é em si um problema de acessibilidade. Como se acede aquilo que não se sabe que existe? É aí que eu e a minha equipa entra em serviço… Mas é um tipo de dificuldade que dá gozo, um autêntico trabalho de detetive!” 

Actualmente, vários museus por todo o mundo estão empenhados em recolher, estudar e catalogar a extraordinária diversidade da vida na Terra. Esta semana soubemos que os investigadores do Museu de História Natural de Londres descreveram este ano um total de 262 novas espécies para a Ciência. 

Mas, “infelizmente, atravessamos um momento em que o número de recolhas está a diminuir drasticamente à escala global”, alertou Luís Ceríaco. 

“Se hoje conseguimos olhar para a biodiversidade do século XVIII através das coleções feitas pelo Alexandre Rodrigues Ferreira, daqui a 200 anos os nossos sucessores vão ter muito pouco para olhar, pois simplesmente se está a deixar de coletar.” 

Esta situação deve-se “a uma óbvia falta de recursos humanos”. Mas não só. “Os museus são as instituições que deveriam promover coletas e estudos de catalogação da biodiversidade mundial, mas estão a ser ‘redirecionados’ para outras missões tangenciais àquilo que, de facto, os torna únicos. Como refere o zoólogo norte-americano Quentin Wheeler num dos seus mais recentes livros sobre sistemática e biodiversidade (Wheeler, Q. 2024. Species, Science and Society): “Os museus de história natural foram centros de excelência para a taxonomia. Como poderia ser de outra forma, dada a dependência que a taxonomia têm de coleções, e vice-versa? À medida que os museus abdicam da sua liderança ao nível da sistemática, tanto a ciência como a coleções sofrem“. 

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca