Na série de entrevistas Investigadores pela Natureza, a Wilder fala com cientistas que se dedicam a tentar resolver alguns dos maiores desafios da biodiversidade e sustentabilidade em Portugal. Hoje, conheça Afonso Rocha, investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro.
WILDER: Quem é o Afonso Rocha como cientista?
Afonso Rocha: A minha ligação à Ciência começou antes mesmo de eu perceber que queria seguir este caminho. Desde pequeno estive muito próximo da natureza e isso levou‑me a escolher o curso de Biologia na Universidade dos Açores. Durante a licenciatura comecei a perceber melhor quais as áreas que realmente me interessavam, algo entre a investigação e a conservação, sempre com um foco muito claro nas aves.

O interesse pelas aves surgiu cedo, mas ganhou forma durante o estágio final da licenciatura, que desenvolvi com o borrelho‑de‑coleira‑interrompida. Essa espécie acabou por acompanhar grande parte do meu percurso científico e confirmou que era com este grupo de aves que queria continuar a trabalhar.
Curiosamente, quando terminei o curso, não segui imediatamente para a investigação. Surgiu a oportunidade de trabalhar como biólogo na Fundação das Salinas do Samouco, onde desempenhei funções de gestão de habitat para esta espécie. Esse trabalho permitiu‑me conhecer muitas outras aves aquáticas, sobretudo limícolas, que dependem fortemente destes ambientes. Cheguei a um ponto em que senti que dominava o essencial da gestão destes habitats, mas faltava‑me uma abordagem mais científica. Foi esse “clique” que me levou a retomar o caminho da investigação e a iniciar o doutoramento na Universidade de Coimbra, em 2010, aplicando os conhecimentos que tinha acumulado até então.
W: Quais os principais projetos que desenvolveu nesta área até hoje?
Afonso Rocha: Ao longo do meu percurso tenho desenvolvido vários projetos ligados à ecologia, fisiologia e conservação de aves aquáticas e migradoras. O primeiro grande projeto foi o meu doutoramento, onde estudei a importância das salinas para as aves aquáticas. Analisei como estas espécies utilizam os recursos disponíveis ao longo do ano, como lidam com a sazonalidade e, sobretudo, como conseguem suportar condições fisiologicamente exigentes, como os níveis extremos de salinidade que ocorrem nestes habitats. Estes ambientes são essenciais, mas também desafiantes, especialmente durante a época de reprodução, quando as aves enfrentam salinidades muito elevadas. A minha tese centrou‑se, precisamente, nessa relação entre ecologia e fisiologia nas salinas ativas.
Depois dessa fase académica, voltei a trabalhar em salinas e integrei um projeto na Guiné‑Bissau, no arquipélago dos Bijagós, já como investigador do CESAM da Universidade de Aveiro. Era um projeto pioneiro, porque apesar de se saber que os Bijagós eram a segunda área mais importante da costa oeste africana para aves limícolas, nunca tinham sido realizados estudos aprofundados sobre a sua relevância. Várias universidades colaboravam e a nossa equipa focou‑se sobretudo na ecologia alimentar, com uma componente de migração em parceria com a Universidade de Groningen e outra de fisiologia. Esta última era crucial porque as aves passam ali o final do inverno e, quando se preparam para migrar para norte, enfrentam temperaturas muito elevadas e alimentam‑se em habitats salinos. Para acumularem gordura suficiente para a migração, precisam de aumentar muito a ingestão alimentar, o que implica também maior ingestão de sais. O nosso objetivo era perceber como conseguem suportar estas alterações fisiológicas num período tão exigente.
Quando esse projeto terminou, surgiu a oportunidade de integrar uma equipa de investigação na Universidade da Extremadura, em Badajoz, com quem já colaborávamos há vários anos. O foco deste novo projeto era estudar o estado oxidativo das aves migradoras, um tema comparável ao que acontece com atletas de alta competição. Tal como nos humanos, uma atividade muscular muito intensa produz moléculas instáveis que podem danificar células e acelerar o envelhecimento. Nas aves migradoras, que percorrem milhares de quilómetros, este processo pode ter impacto direto na sobrevivência. Utilizámos o maçarico‑de‑bico‑direito como espécie modelo, comparando populações com distâncias migratórias muito diferentes: uma que se reproduz na Islândia e inverna na Península Ibérica, percorrendo cerca de três mil quilómetros de distância e outra, à qual chamamos continental, que inverna na costa oeste africana, percorre cerca de três mil quilómetros para chegar à Península Ibérica, e depois ainda mais dois mil quilómetros para os locais de reprodução nos Países Baixos e na Alemanha Estas diferenças permitiram testar como a distância migratória influencia o estado oxidativo.

Entretanto, retomei um projeto anteriormente submetido e, entretanto, aprovado, dedicado à conservação do maçarico‑de‑bico‑direito, cuja população continental está em declínio. No CESAM estamos a estudar toda a rota migratória desta população, desde a costa oeste africana, passando pelos locais de paragem na Península Ibérica, até às áreas de reprodução no Nordeste Europeu. Em Portugal, esta espécie utiliza sobretudo arrozais, alimentando‑se do arroz perdido na ceifa para acumular energia antes do último salto migratório. Entre dezembro e março, podemos ter aqui até 80% desta população, o que torna este habitat particularmente importantes. O nosso objetivo é perceber como potenciar estes arrozais como áreas de alimentação e, através de tecnologia GPS, compreender como as aves exploram o habitat, quanto tempo permanecem e como a qualidade do local influencia a migração subsequente.
No fundo, o meu percurso tem seguido esta linha: diferentes projetos, diferentes abordagens, mas sempre com as aves migradoras como fio condutor.
W: Quais os principais motivos para o declínio destas populações de aves e como podemos preveni-lo?
Afonso Rocha: Nas aves limícolas, infelizmente, a tendência geral das populações é de declínio. Durante muitos anos, a conservação focou‑se apenas em locais específicos, mas hoje sabemos que isso é insuficiente. Estas espécies percorrem milhares de quilómetros e dependem de vários habitats ao longo da rota migratória. Por isso, a conservação tem de ser pensada de forma integrada, desde as áreas de reprodução, aos locais de paragem, até às zonas de invernada. É com essa visão abrangente que temos desenvolvido o nosso trabalho, cruzando fisiologia, ecologia e conservação.
O maçarico‑de‑bico‑direito é um bom exemplo para ilustrar estes desafios. Esta espécie reproduz‑se em prados no Nordeste da Europa, sobretudo nos Países Baixos e na Alemanha. Nos Países Baixos, em particular, a agricultura é extremamente intensiva: os terrenos são caros, a produtividade tem de ser muito elevada e as operações agrícolas são rápidas e frequentes. Isso interfere diretamente com o ciclo reprodutor das aves. Elas precisam de tempo para estabelecer territórios, formar pares, pôr ovos e criar as crias até serem voadoras. Quando as pastagens são ceifadas várias vezes durante a primavera, esse ciclo é interrompido e a produtividade reprodutora cai drasticamente. Se, ano após ano, não entram novos juvenis na população e existe mortalidade natural dos adultos, o declínio torna‑se inevitável.
Mas este é apenas um dos momentos críticos do ciclo anual. Durante a migração, por exemplo, estas aves dependem de locais de paragem seguros e ricos em alimento. A zona do estuário do Tejo é um desses pontos essenciais, concentrando grandes números de aves. A perda ou degradação destes habitats, como já foi discutido no contexto da construção de infraestruturas associadas a um possível aeroporto, compromete a capacidade das aves de reabastecer energia, o que afeta a chegada aos locais de reprodução e, consequentemente, o sucesso reprodutor.
Nos locais de invernada, sobretudo em África, surgem outros desafios. Em algumas regiões, as pastagens desaparecem demasiado cedo devido a alterações no uso do solo, obrigando as aves a regressar mais cedo do que seria natural. Quando chegam às zonas de arrozais, muitas vezes coincidem com a fase de sementeira, alimentam‑se do arroz e acabam por ser afugentadas pelos agricultores, o que cria mais pressão sobre a espécie.
Tudo isto mostra que a conservação tem de ser vista como um puzzle: cada peça – reprodução, migração, invernada – tem de encaixar para que a tendência negativa seja invertida. O maçarico é apenas um exemplo, mas ilustra bem como problemas em diferentes pontos da rota migratória se acumulam e afetam a sobrevivência das populações.

W: Quais são os principais desafios para a realização destes estudos no futuro?
Afonso Rocha: Um dos principais desafios para o futuro destes estudos passa pela gestão dos próprios habitats. Muitos dos locais mais importantes para as aves já estão identificados como zonas de proteção especial ou reservas naturais e até têm planos de gestão bem estruturados. O problema não está na legislação, mas na falta de implementação.
No estuário do Tejo, por exemplo, existe um bom plano de gestão que nunca chegou a ser aplicado. Cumprir essas medidas básicas seria um passo fundamental para garantir a conservação dos habitats e das espécies que deles dependem.
Outro desafio crescente é a pressão humana sobre as zonas estuarinas. A expansão urbana em torno do estuário do Tejo, impulsionada pela saída de população de Lisboa para a periferia, aumentou a pressão sobre as margens, que são áreas essenciais para muitas aves. Estas espécies alimentam‑se na zona intertidal e, quando a maré sobe, precisam de refúgios seguros, como as salinas, para descansar. Apesar de estarem incluídas nos planos de gestão, estas áreas raramente têm uma gestão ativa e eficaz, o que compromete a sua função ecológica. Outro aspeto importante será tentar compatibilizar as práticas agrícolas com a atividade e as rotas de migração destas aves, sobretudo se pudermos recorrer a tecnologias de GPS, que nos permitam mostrar quais realmente são as áreas mais importantes para as espécies.

Do ponto de vista científico, ainda existem muitas lacunas. Cada projeto acrescenta apenas uma pequena peça ao puzzle, mas é essa acumulação de conhecimento que permite compreender melhor as estratégias migratórias e as necessidades das espécies.
A tecnologia tem evoluído muito e hoje conseguimos seguir aves em tempo real, com grande precisão, o que representa um avanço enorme para o estudo dos seus comportamentos e para a sua conservação. Ainda assim, há muito por descobrir e a continuidade destes estudos depende de financiamento, acesso aos locais e capacidade de integrar diferentes áreas do conhecimento.
W: Que conselhos daria aos jovens investigadores em início de carreira?
Afonso Rocha: O primeiro ponto que os jovens investigadores devem ter em mente é que esta é uma área muito desafiante. Isso está relacionado, em parte, com a formação disponível. No caso da Biologia, os cursos não têm acompanhado a evolução do mercado de trabalho. É importante que os estudantes saibam que apenas uma pequena percentagem, talvez cerca de 2%, acaba por seguir carreira de investigação. Não se trata de baixar expectativas, mas de ajustá‑las à realidade.
Se apenas uma minoria chega à investigação, então é fundamental que todos os estudantes adquiram competências de gestão, planeamento e organização que lhes permitam integrar um mercado de trabalho mais amplo. Estas ferramentas são essenciais, independentemente do caminho que venham a seguir.
Para aqueles que querem mesmo seguir carreira científica, o conselho é manter‑se informados sobre os grupos de investigação, em Portugal e no estrangeiro, que trabalham nas áreas que mais lhes interessam. Conhecer o panorama científico, criar contactos e não ficar limitado ao local onde iniciaram o percurso académico é crucial. Essa abertura permite construir uma base sólida para, no futuro, serem investigadores independentes, criarem os seus próprios grupos e seguirem o seu caminho com autonomia.
