Novo estudo chama a atenção para o papel essencial das florestas de algas kelp na costa norte portuguesa, no que respeita à mitigação das alterações climáticas, que tem sido “subvalorizado”.
Um novo estudo recentemente publicado na revista Scientific Reports concluiu que as florestas de algas marinhas (algas kelp) têm um importante papel na captura e armazenamento de carbono, “oferecendo uma poderosa ferramenta natural para mitigar os efeitos das mudanças climáticas”, anunciou esta quinta-feira o CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental.
Este trabalho, liderado pelos investigadores Francisco Arenas (CIIMAR) e João Franco (do MARE – Centro de Ciências Marinhas e Ambientais) focou-se no estudo das florestas marinhas da costa norte de Portugal, em especial nas espécies Laminaria hyperborea e Saccorhiza polyschides, as duas espécies mais comuns nesta zona do país.
A investigação, para a qual contribuiram investigadores dos dois centros, foi financiada pelo programa BlueGrowth das EAA Grants. O objetivo foi quantificar pela primeira vez o stock de carbono armazenado por estes habitats no norte de Portugal.
As florestas marinhas do Norte de Portugal
As florestas de kelp são habitats formados por grandes algas castanhas que desempenham um papel crucial na manutenção da biodiversidade e na produtividade marinha local, descreve o CIIMAR. “Estes habitats são frequentes na costa norte de Portugal, onde existem condições únicas para o seu desenvolvimento, e onde representam a última fronteira a sul para algumas das espécies que aqui se encontram”, explica Francisco Arenas.
No entanto, avisa, estes habitats são altamente vulneráveis às alterações climáticas. “Já foi detetado um processo de tropicalização nas águas portuguesas que coloca em risco a biodiversidade associada, e os serviços ecológicos que estas florestas fornecem, entre eles, a capacidade para capturar e armazenar carbono, o chamado ‘carbono azul’, contribuindo para a mitigação das alterações climáticas.”
Habitats de kelp têm “extrema importância”
O estudo em causa quantificou pela primeira vez o stock de carbono armazenado por estes habitats no norte de Portugal através de medições no terreno, incluindo extensão, biomassa, crescimento e teor de carbono. “Foi a primeira avaliação do valor do carbono azul associado às florestas de kelps em Portugal”, refere o líder do estudo e investigador do CIIMAR.
Os resultados agora publicados no artigo Potential blue carbon in the fringe of Southern European Kelp forests mostram que estas florestas armazenam cerca de 16,48 gigagramas (Gg) de carbono numa área de 5100 hectares, equivalente a mais de 5000 campos de futebol. Apesar de cobrirem uma área relativamente pequena face à dimensão do planeta, estas florestas de kelp demonstram uma eficiência de captura de carbono por metro quadrado comparável ou superior a habitats mais extensos. Este valor corresponde a 14% do carbono azul até agora inventariado para Portugal, cujas estimativas anteriores se restringiam a sapais e pradarias marinhas.
Graças à sua elevada produtividade, estima-se que estes habitats consigam sequestrar e exportar cerca de um terço do carbono capturado anualmente por todos os habitats vegetais marinhos do país. Esta taxa excecional de sequestro de carbono evidencia o papel essencial, e até agora largamente subvalorizado, das florestas de kelp na mitigação das alterações climáticas.
Segundo Francisco Arenas, estas florestas marinhas são “frequentemente desconhecidas e subvalorizadas, apesar de possuírem um valor ecológico e económico de extrema importância na costa norte de Portugal”. Estes habitats são fundamentais quer pela sua capacidade de mitigar alterações climáticas, mas também enquanto promotores da biodiversidade local, fornecendo abrigo, alimento e áreas de reprodução para inúmeras espécies marinhas.
O estudo recomenda ainda políticas específicas para a monitorização, conservação e eventual restauro dessas áreas, reforçando sua importância não apenas como sumidouros de carbono, mas também como habitats vitais para a saúde dos oceanos. Face à crise climática da atualidade, os cientistas defendem que a inclusão das florestas de kelp nas políticas de conservação marinha e de carbono azul seja uma prioridade, tanto a nível nacional quanto global.
“Com a Lei de Restauro da Natureza da União Europeia em fase inicial de implementação, torna-se premente desenvolver e implementar técnicas de restauro ecológico eficazes, particularmente em habitats que apresentam elevada vulnerabilidade, mas também alto potencial de provisão de serviços do ecossistema como é o caso das florestas marinhas”, remata Francisco Arenas.