Um dente fossilizado de rena recuperado na jazida de Galería, na serra de Atapuerca (Burgos, Norte de Espanha) é o registo mais antigo de fauna glacial da Península Ibérica e a prova de que estes animais viviam na zona há entre 243.000 e 300.000 anos.
Este dente – um molar de leite de uma cria – é um dos vestígios de rena (Rangifer spp.) encontrado mais a Sul na Eurásia, segundo o artigo científico publicado a 1 de Agosto na revista “Quaternary”, por investigadores do Museu Nacional espanhol de Ciências Naturais (MNCN-CSIC), do Centro Nacional espanhol de Investigação sobre a Evolução Humana (CENIEH) e do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA).

O facto de existirem espécies adaptadas ao frio, como as renas, nessas latitudes permite saber que naquela época – há entre 243.000 e 300.000 anos – as condições climáticas eram glaciais.
Os investigadores lembram, no artigo, que na Eurásia o Pleistoceno foi marcado por vários períodos glaciares que expandiram significativamente a superfície coberta por gelo e um ambiente muito frio em direcção a Sul.
“Esta descoberta demonstra que a fauna glacial se estendia pela Península Ibérica, zona que, assim como noutras zonas meridionais da Europa, serviu de refúgio para espécies que não estavam adaptadas ao frio”, explicou o MNCN-CSIC em comunicado.
O fóssil foi encontrado próximo de um fragmento de crânio humano e numerosos restos de artefactos líticos, o que confirma que a espécie conviveu com seres humanos primitivos.
Segundo o investigador do MNCN Jan van der Made, “a presença desta rena nesta latitude indica-nos que o frio extremo pôde afectar as condições da fauna ibérica mais cedo e de forma mais intensa do que se pensava até agora”.

As últimas glaciações expandiram o ecossistema herbáceo conhecido como “estepe dos mamutes”, habitado por estes grandes animais (Mammuthus primigenius) mas também por rinocerontes lanudos (Coelodonta antiquitatis) e por renas (Rangifer tarandus). Algumas destas espécies chegaram até à região onde hoje se situa Madrid e até a Granada, muito mais a Sul de Atapuerca.
“Este trabalho chama a atenção para a importância de investigar os padrões biogeográficos da fauna glacial, permitindo-nos entender a capacidade de adaptação das populações humanas durante o Pleistoceno médio”, disse, por sua vez, Ignacio Aguilar Lazagabaster, investigador del CENIEH.
A extensão dos ecossistemas de “estepe dos mamutes” na Península Ibérica dependeu da intensidade e duração de cada fase glacial. Por isso, a fauna adaptada ao frio nesta região era mais rara do que no Norte da Europa, sendo a sua presença muitas vezes episódica e geograficamente confinada a zonas montanhosas.