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Estas três aves estão a desaparecer das montanhas cantábricas e pirenaicas

12.12.2025
leitura de 3 minutos
Pardal-das-neves. Foto: Dennis Lorenz/Shutterstock

No Dia das Montanhas, celebrado a 11 de dezembro, a Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/BirdLife) alertou para o facto de existirem cada vez menos exemplares de pardal-das-neves (Montifringilla nivalis), mocho-funéreo (Aegolius funereus) e lagópode-cinzento (Lagopus muta) nas montanhas do norte da Península Ibérica.

Esta foi a conclusão de dados recolhidos durante 2024 e 2025, que estiveram na base de três monografias publicadas pela SEO/Birdlife para alertar para esta situação e orientar medidas de conservação.

Os técnicos daquela organização realizaram o primeiro censo à escala nacional, com metodologias específicas para cada espécie, e assim atualizaram a estimativa populacional e a distribuição destas três aves alpinas.

Para as três espécies foram analisados os padrões de distribuição e abundância, apresentando-se a sua distribuição na Cordilheira Cantábrica (pardal-das-neves) e nos Pirenéus (as três espécies), que representam a totalidade da sua área de distribuição em Espanha.

“Além disso, esta área constitui o limite meridional da sua presença na Europa, conferindo-lhe uma importância ainda maior, já que se trata de populações especialmente sensíveis”, acrescentou a organização. “Esta informação é um primeiro desenho de programas de monitorização a longo prazo para estes três taxa.”

As montanhas são reservatórios vitais de biodiversidade e, apesar de ocuparem apenas 25% da superfície terrestre, albergam 87% das espécies de vertebrados e cerca de 4% das plantas com flor.

Mas as regiões montanhosas estão a sofrer de forma especialmente severa as consequências do aquecimento global, levando ao desaparecimento destas zonas climáticas que funcionam como refúgio para inúmeras espécies.

“As áreas de montanha são particularmente suscetíveis às alterações ambientais devido ao seu isolamento e complexidade. A sua elevada especialização resulta de intensos processos evolutivos impulsionados por limitações geológicas e condições climáticas extremas. Essa especialização elevada deu origem a numerosos endemismos, tornando estas áreas especialmente vulneráveis e essenciais para a conservação da biodiversidade.”

Pardal-das-neves

Pardal-das-neves. Foto: Dennis Lorenz/Shutterstock

Esta é a única espécie do seu grupo que conseguiu expandir-se amplamente pelos principais sistemas montanhosos do continente (desde o Altai, na Mongólia, até aos Alpes). Espanha mantém o limite meridional da sua área de distribuição e, por isso, a sua população mais vulnerável.

Reproduz-se em habitats alpinos acima dos 1.900 metros nos Alpes e acima dos 1.700 metros na Cordilheira Cantábrica, em terrenos rochosos e áridos com prados alpinos próximos de grandes paredes verticais com fendas utilizadas como locais de nidificação.

O estudo estima agora uma população de cerca de 6.770 indivíduos (3.386 casais: 1.560 na Cordilheira Cantábrica e 1.826 nos Pirenéus). A espécie ocupa preferencialmente zonas de alta montanha com afloramentos rochosos e prados alpinos.

Estas características tornam a espécie especialmente sensível às alterações climáticas, que reduzem a permanência da neve e alteram os microhabitats alpinos. Comparando com estimativas históricas, calcula-se um possível declínio populacional, especialmente no lado cantábrico, onde algumas colónias reduziram o seu tamanho em mais de 40% na última década.

“Perante este fracionamento e tamanho populacional, considera-se que a espécie deve ser classificada como Vulnerável na lista espanhola de espécies protegidas, sendo necessário um plano urgente para garantir a sua conservação”, defende a SEO/Birdlife.

Lagópode-cinzento

Lagópode-cinzento. Foto: Tarpan/Shutterstock 

O lagópode-cinzento vive em zonas alpinas com abundância de rochedos e, por vezes, zonas de turfeira — espaços de vegetação pouco contínua devido à escassez de solo entre afloramentos rochosos. A sua distribuição altitudinal situa-se entre os 1.620 metros e os 3.000 metros, sempre acima do limite florestal.

Este censo estima uma população próxima de 945 indivíduos (intervalo: 356–1.871) para todos os Pirenéus. Em algumas populações, estima-se uma redução superior a 37%.

“Com base em modelos de evolução do habitat face às alterações climáticas, prevê-se uma diminuição muito severa da distribuição potencial entre 2041 e 2070 — traduzindo-se em perda de área ocupada, qualidade de habitat e número de localidades. Tendo em conta o pequeno tamanho populacional, considera-se também como Vulnerável.”

Mocho-funéreo

Mocho-funéreo. Foto: Piotr Krzeslak/Shutterstock

O mocho-funéreo tem ampla distribuição mas é escasso nas massas florestais da Península Ibérica (Pirenéus e Pré-Pirenéu). Ocorre sobretudo em florestas de coníferas nos limites supraflorestais dos Pirenéus.

As suas necessidades de reprodução centram-se em cavidades de árvores criadas, na maioria das vezes, por pica-paus negros. Neste caso, os levantamentos foram realizados com um sistema inovador e muito eficaz: 320 gravadores automáticos que funcionaram diariamente (todas as noites).

“Confirmou-se a presença da espécie em 50 pontos, estimando-se uma população de 483 indivíduos (intervalo: 206–909) para todo o Pirenéu espanhol. O reduzido tamanho populacional leva a classificá-la como Vulnerável.”

Os resultados destes três estudos destacam a necessidade de implementar “programas de monitorização específicos e estandardizados, que permitam detetar tendências populacionais e definir medidas de conservação para mitigar os efeitos das alterações climáticas e da fragmentação do habitat sobre estas espécies emblemáticas dos ecossistemas alpinos ibéricos”.

As três monografias, editadas pela SEO/BirdLife e elaboradas por especialistas do Instituto Mixto de Investigación en Biodiversidad (CSIC/UO/PA) e do Instituto Pirenaico de Ecología (CSIC), estão disponíveis ao público no site da SEO/BirdLife.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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