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Espanha perdeu 22% dos charcos temporários em duas décadas

22.04.2026
leitura de 4 minutos
Charco temporário na região de Madrid, em Espanha. Foto: Christian Arnanz Porras

Estudo agora publicado analisou a evolução de mais de 1300 charcos temporários no território espanhol na Península Ibérica. Investigadores identificaram as causas da degradação destes ecossistemas.

O estudo foi realizado por investigadores da Estação Biológica de Doñana, ligado ao Conselho Superior de Investigação Científica (EBD – CSIC), e da Universidade Autónoma de Madrid (UAM), que analisarem a evolução de 1303 charcos temporários entre 2000 e 2022, através de imagens do Google Earth Pro.

A equipa concluiu que 22% dos charcos temporários estudados desapareceram desde o início do século, principalmente devido à agricultura intensiva e às alterações climáticas, indica o texto publicado no Journal of Environmental Management. “Os impactos derivados da ação humana poderiam evitar-se se tomarmos medidas adequadas”, destacam também os investigadores, citados numa nota de imprensa do CSIC.

Este foi o primeiro trabalho realizado em grande escala sobre a perda e degradação de charcos temporários no território espanhol peninsular. “Estes ecossistemas caracterizam-se pelos seus ciclos irregulares de inundação e dessecação. São considerados habitats prioritários para a conservação da União Europeia pela sua grande biodiversidade e pela sua extrema vulnerabilidade, perante mudanças no seu entorno”, afirma Margarita Florencio, investigadora da EBD – CSIC e coautora do estudo.

Em Portugal, estas zonas húmidas são igualmente importantes. Em 2016, o projeto LIFE Charcos (2013-2017) identificou um total de 106 charcos temporários na região do Sudoeste Alentejano, com a presença de espécies de animais e plantas que ao longo de muitos anos de evolução se tinham adaptado a estes habitats. Todavia, também por cá esses ecossistemas estão sob ameaça.

Por que razões acontece?

A investigação sobre os charcos temporários em Espanha realizou-se através da análise de imagens do Google Earth Pro de alta resolução espacial, relativas ao período de 2000 a 2022, com um nível de precisão que permitiu observar tudo a um nível de detalhe que alcançava os 30 centímetros.

Dessa forma, os cientistas conseguiram identificar a presença de água e os impactos da atividade humana. Quanto ao que levou ao desaparecimento de 22% dos charcos temporários, concluíram que as práticas de agricultura intensiva foram a causa principal.

Em causa estão diferentes ações, incluindo o lavrar de terrenos que se encontram nas margens e bacias destas zonas húmidas, a instalação de canalizações nestes espaços e a realização de obras de dragagem para aprofundamentos artificiais, explica Christian Arnanz, outro dos coautores do artigo científico e investigador na EBD e na UAM.

Outras ameaças identificadas: a colonização de bacias de charcos temporários por vegetação terrestre, ações de urbanização, a presença de animais de gado com evidências de ali ficarem confinados (estabulação) e também a circulação de veículos.

O estudo também encontrou uma diminuição na frequência de inundação destes habitats, em especial no outono, provocada por fatores climáticos como mudanças na temperaturas máxima e na pluviosidade acumulada, mas também causada – mais uma vez – por práticas de agricultura intensiva. Principalmente, o lavrar de terrenos nas bacias dos charcos e a instalação de canalizações.

O trabalho agora publicado concluiu ainda que a Rede Natura 2000 – uma rede europeia de áreas protegidas presente em todos os Estados-membros – teve resultados limitados quanto à redução deste problema em Espanha. Já os charcos que estavam também integrados noutras áreas protegidas espanholas, como por exemplo parques nacionais ou naturais, e por isso estavam protegidos por mais medidas, mostraram estar menos afetados.

Três medidas importantes

Apesar das conclusões preocupantes, a equipa ressalva que a degradação e desaparecimento de mais charcos temporários pode ser evitada, se forem tomadas as medidas adequadas.

Desde logo, sublinham, é preciso estender as medidas de conservação aos charcos que não têm proteção legal, aplicar estratégias de monitorização para que os problemas de degradação sejam detetados a tempo e aumentar os níveis de proteção que estão delineados para a Rede Natura 2000. “Outro aspeto importante é a implementação de incentivos financeiros para o setor agrícola, que ajudaria a manter os charcos sem serem lavrados e a estabelecer cinturas de proteção com vegetação natural, com pelo menos cinco metros em redor da zona de inundação máxima”, explicam os cientistas.

Outra medida importante, defendem, é o restauro dos charcos desaparecidos, especialmente em habitats que não tenham proteção e que estejam severamente degradados.

Por outro lado, “a colaboração cidadã é fundamental para melhorar o conhecimento e a proteção destes ecossistemas”, acrescenta Christian Arnanz. Uma das sugestões é que as pessoas utilizem a app PondMapp, uma ferramenta online espanhola que permite a quem quiser registar e fotografar um charco temporário e responder a questões sobre o mesmo, ajudando desta forma os cientistas a mapear estes habitats.

“Património natural incalculável”

Os charcos temporários são um “património natural incalculável”, sublinha por seu lado Margarita Florencio, que descreve: “São autênticos oásis de vida que albergam uma fauna e uma flora singulares e únicas, em grande parte ameaçada. Tenhamos em conta que [essas espécies] são capazes de sobreviver a condições extremas de seca graças a adaptações singulares, como a formação de estruturas de resistência como ovos, cistos e sementes, a capacidade de voo de muitos insetos que lhes permite moverem-se para lugares com águas permanentes, e o ajustamento do desenvolvimento larvar de alguns organismos à duração da inundação.”

Mas a importância global destas zonas húmidas não se fica por aqui, destaca a equipa. Existem também benefícios importantes, ligados à regulação do clima à escala local, armazenamento de carbono, controlo de nutrientes e conservação da biodiversodade. “É importante despertar a consciencialização social para a conservação destes ecossistemas únicos que fazem parte do nosso património natural, para que todas as gerações possam deles desfrutar”, conclui a investigadora espanhola.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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